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[textos] André Masseno estreia parceria com CTRL+ALT+DANÇA: crítica da exposição “Danser sa vie” em Paris

[capa do catálogo da exposição “Danser sa vie”, sobre a qual trata o texto de André Masseno / fonte: mollat.com]

O queridíssimo performer e coreógrafo carioca André Masseno estreia uma parceria com o ctrl+alt+dança no formato de uma série de artigos sobre o que ele anda experimentando, vendo, criando em terras europeias. A primeira contribuição de André trata de sua visita à exposição “Danser sa vie” (em português, “dançar sua vida”), que segue até 2/abr no Centre Pompidou, em Paris. No texto, que vocês podem conferir logo abaixo, ele tece considerações sobre a História da Dança (assim mesmo, com letras maiúsculas!) e seu não-menos-histórico eurocentrismo. Confiram e compartilhem!

DANÇAS, HISTÓRIAS E ACONTECIMENTOS – SOBRE A EXPOSIÇÃO “DANSER SA VIE”          por André Masseno

Desde novembro de 2011, o Centre Pompidou, em Paris, abriga a exposição “Danser sa vie – Art et Danse de 1900 à nos jours” (Dançar sua vida – Arte e Dança de 1900 até os nossos dias), que se estende até o dia 02 de abril de 2012.  Sob a curadoria de Christiane Macel e Emma Lavigne, a exposição enfatiza as intricadas relações entre dança e artes visuais no Ocidente durante o século XX. A exposição traça uma linha histórica, que se inicia com as vanguardas modernistas europeias dos primeiros decênios do século anterior, passando pela arte pós-moderna norteamericana e que, por fim, se estende até as obras artísticas do início do século XXI. “Danser sa vie” busca fincar no tempo um olhar sobre a dança do século XX, encarando-a como espaço da subjetividade e de inserção do cotidiano, âmbito do registro idiossincrático e das assinaturas individuais. Além disso, a exposição caracteriza a dança do século XX pelo seu diálogo constante e de mão dupla com as artes visuais, suscitando influências diretas ou indiretas entre ambas.

Concomitâncias entre as artes são evidenciadas pela exposição de desenhos, fotos, vídeos, telas, fac-símiles, notações coreográficas, esculturas, indumentárias e reconstruções coreográficas. A partir de “traços”, como a própria curadoria argumenta o seu esforço complexo de “expor dança” através de registros impressos e audiovisuais – salvo a apresentação ao vivo do trabalho de Tino Sehgal no início do trajeto da exposição [1], borrando as fronteiras entre dança, performance e artes visuais –, “Danser sa vie” intenta dar ao visitante uma “visão polifônica” (palavras da curadoria) de uma arte que, como toda manifestação cênica, se preza pela sua efêmera materialidade. As produções de Matthew Barney, Vaslav Nijinski, Auguste Rodin, Mary Wigman, Yves Klein, Jan Farbe, Wolfgang Tillmans, Merce Cunningham, Trisha Brown, Isadora Duncan, Bauhaus, Rudolf von Laban, Allan Kaprow, entre outros, são postas em confronto no esforço de ressaltar suas interdependências, aproximações e peculiaridades.

“Danser sa vie” suscita uma questão complexa: como falar de dança dentro de um ambiente museu? Além disso, embora afirme a dança do século XX como espaço mister do sujeito, que determina e particulariza os procedimentos para se fazer dança, a curadoria acaba por ter que lidar com o delicado jogo de enunciação e aglomeração de práticas distintas dentro de três grandes eixos temáticos: A dança como expressão de si, Dança e abstração, e Dança e performance.  Além disso, cada eixo e suas subdivisões estão alinhavados por uma visão cronológico-evolutiva da arte que, no entanto, a curadoria não consegue se desvencilhar. Por um lado, não fazer um recorte das obras, e ignorar o diálogo destas com o contexto em que são produzidas, pode resultar em um discurso anacrônico.  Por outro, como criar uma exposição sobre dança sem cair no risco de traçar um fio evolucionista acerca desta manifestação em que, como toda arte, as relações entre fonte e influência não são lineares, mas em rede, atravessando proposições estéticas de épocas distintas? Então, como transmutar a maneira de se falar historicamente da dança, ultrapassando o viés cronológico e, até mesmo, enciclopédico, para assim argumentá-la enquanto campo de forças composto por temporalidades distintas?

Para avançar na análise desta exposição, deixarei de lado o discurso um tanto impessoal dos parágrafos anteriores para relatar dois acontecimentos que fizeram com que eu enxergasse, de modo enviesado e vacilante, a exposição “Danser sa vie” como a reafirmação de uma história da dança estritamente ocidental. No mesmo dia em que visito a exposição, vejo, nas ruas do bairro Le Marais, um cartaz anunciando uma apresentação de Carlota Ikeda, bailarina e coreógrafa de butô que há décadas reside em território francês. Relembro imediatamente de Kazuo Ohno, que, por exemplo, foi aluno de Mary Wigman e influenciado pela dança de expressão alemã e por uma fatia considerável do legado artístico ocidental.  Fiquei procurando por algo de Kazuo durante a exposição enquanto eu via os vídeos, os esboços e as máscaras dos espetáculos de Wigman: deparo-me com a citação de seu nome no catálogo, ao lado dos de Pina Bausch e Merce Cunningham. Sim, o seu nome, mas nenhum traço de sua obra. Este foi o primeiro acontecimento.

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O segundo acontecimento: embora a dança latinoamericana não seja visada pelo olhar curatorial da exposição, uma referência pontual, porém da maior importância, é dada a dois artistas visuais da América Latina que privilegiavam a participação corporal do observador em suas obras: o cubano Felix Gonzalez-Torres, com a sua célebre obra-performance Untitled (Go-Go Dancing Platform) (1991), onde um suposto go-go boy, usando um headphone, dança sobre uma plataforma iluminada; e o carioca Hélio Oiticica com alguns de seus Parangolés, além de uma obra em vídeo de Katia Maciel, que registra o poeta Waly Salomão vestido com um dos Parangolés. No entanto, a pequena tela de TV onde se exibe a obra de Maciel é de uma diferença gritante diante da escala monumental das caixas pretas onde são reproduzidos os registros em vídeo de A Sagração da Primavera, de Pina Bausch, e The Show Must Go On, de Jérôme Bel, com esta última obra a finalizar o percurso da exposição. A potência sedutora das imagens em movimento em dimensões colossais, embora sejam registros de uma apresentação, absorvem a minha retina de observador, fazendo um contraponto ao repouso dos Parangolés enfileirados. O meu olhar é invadido por distâncias culturais e geográficas, que são visualmente materializadas e reiteradas.

Sim, é sabido que a História da Dança do Ocidente, grafada com letras maiúsculas, é um construto alicerçado entre os legados europeu e norteamericano. Também é notória a importância e o valor artístico de todos os artistas da dança e das artes visuais representados naquele recorte, artistas que ainda reverberam nos modos de se fazer das produções artísticas da atualidade. No entanto, sem a própria curadoria ter se dado conta, parece que os Parangolés, através de sua aparente imobilidade, estão resistindo não propriamente ao legado artístico ali exposto, mas à leitura e ao recorte seletivo dado por “Danser sa vie”, que evidencia as proposições estéticas que mereceram “ganhar vida” e serem (historicamente) passadas a limpo diante dos olhos do visitante. Talvez os Parangolés, que na visão de Waly Salomão é onde “o corpo esplende como fonte renovável e sustentável de prazer”[2], estejam, em nome das artes latinoamericana e não-ocidental, “incorporando a revolta” diante do título da exposição, que clama o dançar a (sua) vida e que diz que o show tem que continuar. Mas que show? De quem e para quem? Eis a questão. E os Parangolés estão ali, no mais puro deboche, ao lado da presença espectral do corpo sorridente de Waly/Oiticica através do olhar de Katia Maciel. Feito um tiro escapando pela culatra.

REFERÊNCIAS

[1] “Instead of allowing something to rise up to your face dancing bruce and dan and other things” (2002), de Tino Sehgal.

[2] SALOMÃO, Waly. Hélio Oiticica: Qual é o parangolé? e outros escritos. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

André Masseno é coreógrafo, performer, figurinista, diretor teatral e ator. Mestre e pós-graduado em Literatura Brasileira pela UERJ, possui graduação em Artes Cênicas pela UNI-RIO.  Seus solos abordam questões sobre arte contemporânea, gênero e sexualidade, articuladas em um território cênico onde dialogam elementos da dança, live art, teatro e literatura.

Comentários

4 comments

  1. Aline Teixeira says:

    Feliz de ler esse texto do André Masseno! No início do ano comprei esse catálogo e fiquei muito intrigada e também curiosa ao tentar visualizar em uma exposição o que as páginas do livro me revelavam. Obrigado ao André por ser esses olhos brasileiros em terras estrangeiras. Por mim e por muitos.

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