Início » Notícias » [textos] Mariana Prazeres inicia série de relatos críticos sobre o I Encontro CURIÔS (RJ)

[textos] Mariana Prazeres inicia série de relatos críticos sobre o I Encontro CURIÔS (RJ)

Selecionada através de convocatória pública, Mariana Prazeres inicia uma série de relatos críticos sobre o I Encontro CURIÔS – Rede de Nov@s Coreógraf@s Negr@s em Dança Contemporânea – que serão publicados aqui no ctrl+alt+dança nas próximas semanas. As outras duas relatoras críticas, que se juntam a Mariana na série, são Adriana Barcellos e Raíssa Ralola.

 

O I ENCONTRO CURIÔS EM 360 GRAUS, por Mariana Prazeres

O olhar lançado sobre uma obra de arte revela significados, ou não, que diferem de acordo com a luz, o ambiente, a disposição espacial dos quadros, objetos, suas respectivas identificações e definições, e de acordo com o distanciamento ou aproximação do espectador em relação a ela. Assim se faz também no universo cênico da dança, mais especificamente, da dança contemporânea.

Acredito ser necessário, então, destacar que o meu olhar é imbuído de todo um histórico antropológico e artístico, de investigação da relação inter-racial entre bailarinos. Circunstancialmente, me vi diante da responsabilidade de relatar a experiência de um evento que tem muita afinidade com a temática de pesquisa que venho desenvolvendo.

Nesse sentido, não pretendo alcançar consenso nessas linhas, mas fazer um breve panorama do que foi o encontro e, ao mesmo tempo, destacar algumas questões que percebo enquanto aspectos que atravessaram o desenvolvimento do evento e, por isso, considero importante apontar. Apesar de considerar ingrato falar sobre algo que não fui eu que elaborei e me esforcei para acontecer, convido-os a experimentar nestas letras, momentos e discussões vistos sob a minha perspectiva.

[Italmar Vasconcellos em (…) o cultivo da intimidade que me agrada / foto: Marina Alves]

O fim de semana estava chegando e o I Encontro CURIÔS nascendo. Do dia 16 ao 19 de agosto, o Centro Coreográfico do Rio de Janeiro foi espaço para que conhecêssemos o trabalho dos artistas que compõem a Rede de Nov@s Coreógraf@s Negr@s em Dança Contemporânea. Quatro dias de encontro e um mergulho em ideias, conceitos, corpos, movimentos, questionamentos, agências. Um encontro que foi em busca da reflexão a respeito da identidade afrodescendente brasileira. Mais que isso, ali visualizei e senti certa caminhada para a construção de representações múltiplas de uma cultura diversificada, originada de diversas etnias, para além da clássica divisão entre índios, negros e brancos (europeus). Foi possível colocar em pauta que a identidade afrodescendente não se encerra num discurso radical, seccionado; na verdade, ela integra as diferenças e fragmentações que foram orquestradas durante algum tempo, e que se mantém até os dias de hoje.

A mesa “Ritual, Performance e Resistência”, que abriu o evento, possibilitou a reflexão sobre como a experiência de um encontro e a atuação dos seus idealizadores poderia somar a uma participação ativa dos sujeitos-artistas, assim como para a mudança dentro do universo da dança contemporânea e de outros universos nos quais estamos inseridos cotidianamente. Nesse sentido, o espaço do palco e o corpo podem ser concebidos como possibilidade política, de atuação dentro de uma estrutura por vezes fechada, mas que nas suas brechas e através do exercício prático das ideias e pensamentos se tornam territórios ritualizados e performáticos. Trazer a história social e, ao mesmo tempo, a história de vida dos sujeitos para outro plano permite refazer e reconstruir o arcabouço cultural e social através do qual somos formados. A discussão em questão foi complementada na mesa do sábado, dia 18 – “O brasileiro afrodescendente enquanto agente mobilizador da cultura”.

Estávamos ali entre diferentes indivíduos, mas que se intercruzavam por trajetórias que traziam a discussão da identidade. Durante as falas dos expositores, assim como as nossas, participantes, foi possível debruçar o olhar sobre a formulação de uma consciência a respeito da condição social de cada um, assim como sobre suas respectivas atitudes diante dos sentimentos de vergonha e contestação; pessoas e sentimentos que transitaram entre um período de vivenciar todo o estigma e preconceito sociais, e o de se conscientizar e adotar uma atitude de interferência nas relações sociais estabelecidas, através da própria arte.

[Três Vertigens, de Diego Dantas / foto: Marina Alves]

Assim, no compartilhamento de experiências e relatos desse terceiro dia, observei que ali estava presente a construção de um espaço onde essas diferenças pudessem vir à tona e ser discutidas, para possibilitar o fazer e retirá-lo de um lugar privilegiado. Dessa forma, me remeto à importância desse evento, pois ali era visível e compreensível que “os deuses não estão loucos”: neste caso, tanto a Rede como os colaboradores, convidados e espectadores que em algum momento procuram reviver e realocar o discurso segregador (seja por qual diferença for, mais especificamente a racial/étnica), não estavam tratando de bobeiras ou loucuras, mas retratando e experimentando novos olhares sobre uma questão, às vezes esvaziada de sentido no mundo do jeitinho e dos sorrisos simpáticos da “democracia racial”.

Leia mais:  A semana no Rio de Janeiro e em Salvador (BA): yoga e dança contemporânea + Conexão Dança Alemanha Bahia

Nesse sentido, vemos a importância de uma rede e a expansão de encontros como esses para podermos consolidar determinadas atitudes em relação à quebra de paradigmas sobre o que é importante, o que é notável, o que é digno de ser apresentado e produzido, fortalecer laços e expandir ações – integradoras, de preferência, e de mudança.

No entanto, o encontro não foi simplesmente um ponto de discussão onde pulverizamos discursos e nos aprofundamos em questionamentos. Na verdade, a densidade daqueles dias e todos os seus aspectos compunham o fazer corporal e a possibilidade de ser, para além de qualquer encaixotamento em padrões estanques.

[Aluisio Flores e Fábio Honório em senha de acesso, de André Bern / foto: Marina Alves]

As discussões e temáticas acima relatadas se concretizaram nos corpos dos artistas da Rede, se apresentando e ao mesmo tempo revezando entre blogging, produção, organização, divulgação, curadoria de vídeos e mesas, programação visual; e se consolidaram na colaboração de toda a equipe técnica e de registro, tais como Marina Alves e Marina Pachecco na fotografia, Emanuel de Jesus no vídeo, Hugo Paixão na iluminação, Daniele Marcello e Fernando Matos como designers colaboradores.

As oficinas também foram um ponto forte do evento, seja a de balé clássico, a de dança afro-contemporânea, a “Memória, lugar e trânsito” ou a de dança contemporânea popular. Isso, devido à possibilidade que ali encontramos, enquanto participantes, de compreender e olhar de forma mais próxima as ideias que conduziram à produção de cada espetáculo, além de experimentar novos entendimentos e propostas de fazer dança, de fazer arte.

[Monica da Costa em Da onde vem a sua dança? / foto: Marina Alves]

Dessa forma, atravessados por essas discussões em comum, Diego Dantas, Monica da Costa, Morena Paiva, André Bern, Victor D’Olive e Italmar Vasconcellos tinham o corpo e o palco como espaços para uma reapropriação individual e coletiva do que é fazer dança contemporânea, dando ensejo a um discurso muito sutil, mas especialmente marcante, do “eu posso”, “eu quero” e “eu estou aqui”. Assim, foi possível participar da aula de balé clássico com Diego Dantas e partilhar de suas vertigens; vivenciar a dança afro-contemporânea nos movimentos e colocações de Monica da Costa e refletir, sentir, observar Da onde vem a sua dança?; ouvir, para dar um gostinho de quero mais, Morena Paiva em sua dança contemporânea popular e as questões levantadas no seu A ordem e o movimento.

André Bern nos permitiu experimentar um pouco de uma longa pesquisa sobre “Memória, lugar e trânsito”, que se conjugava de forma densa em senha de acesso. E de forma um tanto visceral e, ao mesmo tempo, pura e sincera, Italmar Vasconcellos veio a público com sua performance, fazendo com que vivenciássemos por alguns instantes “…o  cultivo da intimidade que me agrada”. Victor D’Olive, por sua vez, estava em cada parte da organização e elaboração do evento, apesar de não estar presente por motivos profissionais.

[Morena Paiva em A ordem e o movimento / foto: Marina Alves]

Concluindo, foi-me permitido refletir sobre a dança para além de simplesmente se movimentar e mostrar talentos, gesticular sentimentos e ações. A dança pode ser considerada um modo de ação em si mesma, questionando padrões, pesquisando a vida e suas vicissitudes.

Este foi um relato inicial para que possam visualizar de forma mais ampla como foi o I Encontro CURIÔS. Posteriormente, também estarão disponíveis outros mais específicos sobre cada trabalho aqui mencionado. Estes serão escritos por Adriana Barcellos, Raíssa Ralola e eu, Mariana Prazeres.

 

Mariana Prazeres é formada em dança pela Escola de Dança de Nova Iguaçu, revezando suas atividades entre aulas de sapateado e balé clássico para crianças, e o mestrado em Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), através do qual desenvolve pesquisa a respeito da trajetória de bailarinos negros no universo do balé clássico fluminense e o ensino de Sociologia na Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro.

Comentários