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[textos] “Peles de si, peles do outro”: André Masseno compartilha impressões sobre “O homem vermelho”

[fonte: cacilda.panoramafestival.com]

 

PELES DE SI, PELES DO OUTRO – O HOMEM VERMELHO, DE MARCELO BRAGA

por André Masseno

 

Após uma temporada bem sucedida durante o mês de agosto no Espaço SESC, em Copacabana, O homem vermelho, de Marcelo Braga, acontece este final de semana no Teatro Cacilda Becker (RJ), fechando a programação da ocupação artística Dança pra Cacilda.

O homem vermelho é um pacto – que, no meu caso, começou através de um pequeno envelope preto que chegou pelo correio. Ao abri-lo, deparei-me com alguns quadrados estampados com ilustrações sem nenhuma inscrição, exceto um único que vinha com informações básicas do espetáculo: horários, datas e local. Chegava para mim um convite, sedutor pelo seu caráter enigmático – assim como os pequenos vídeos de divulgação, formados por trechos pinçados de filmes transformados em preto e branco. Em alguns deles, assistia a sequência de um filme do Zé do Caixão embalado pela canção de “Alice no País das Maravilhas” versão Walt Disney; assistia Elza Soares, vacas pastando ao som de Richard Wagner, Cartola, uma baleia. Tantas temporalidades e ambiências diante do meu olhar, seduzido por aquelas imagens feito tessituras possíveis para serem vestidas – mas por cima do quê? Vestidas por quem e para quem? Os vídeos de O homem vermelho já eram um prelúdio convidativo, composto por um jogo de dermes que, em vez de serem invólucros de algo ou receptáculos de uma interioridade carnal, se apresentavam como superfícies pulsantes de uma possibilidade de ser/estar no espaço social.

Um sujeito em cena se veste de peles alheias, as costura simbolicamente sobre o corpo como estratégia de encontro de novas escritas de si. Deste modo, Marcelo Braga rói os resistentes fios de aço de uma possível narrativa estritamente confessional acerca da experiência das dores psíquica e física durante o tratamento de linfoma. O corpo em dor apresenta-se como espaço do impronunciável e de uma experiência pessoal, intransponível e resistente à representação. O homem vermelho opta por um corpo que publicamente troca de pele, de escamas, de camadas, de modelos e de possibilidades de ser um outro, triturando referências pessoais, borrando os liames do esperado discurso da verdade, que é aparentemente delineado no começo do espetáculo através de um “pacto verbal” com o espectador, isto é, por meio de um texto mesclado entre o tom confessional e a produção de uma fala lúdica e associativa. O espetáculo de Marcelo Braga, portanto, é uma pose dérmica diante dos olhos do espectador.

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Não espere a plateia o testemunho automisericordioso do vitimado e tampouco a fala bravia do mártir. Embora o corpo de Marcelo Braga seja “alvo” de uma inoperância, de uma falha na precisão (aparentemente imparcial) do discurso médico-científico, a presença avermelhada de sua pele tira proveito da assepsia do espaço hospitalar, transformando-o em uma experiência plástica e performativa que parece reverberar a fala do artista plástico Leonilson que, na sua peregrinação médica, declara: “No dia em que eu estava no hospital, eles me levaram para tirar uma chapa do pulmão e vi aquela sala como uma exposição [1]”. No caso de O homem vermelho, a dor e a ambiência médica tornam-se espaço para a proliferação de mascaradas, de modos possíveis de figuração de si na arena social através de uma apropriação afetuosa de personagens e personalidades da indústria cultural.

O homem vermelho faz-nos defrontar com a nossa responsabilidade diante da dor alheia, de uma dor sem legendas.  Não há como ficar isento deste confronto porque os afetos são dérmicos, incham o corpo, interveem sobre nossa pele. O homem vermelho é um corpo vibrátil. E o vermelho que tinge, compõe e salta da pele de Marcelo Braga, não é propriamente algo do campo da visualidade, mas sim de um estado pulsante, uma estratégia sensória de flertar com o Real. Uma tentativa de retirar o par de lentes de chumbo que bloqueia o olhar do sujeito sob a experiência da dor.

O homem vermelho fica em cartaz no Teatro Cacilda Becker, entre os dias 07 e 09 de setembro, com sessões às 20h (sexta e sábado) e 19h (domingo). Ingressos a R$10,00 e R$ 5,00 (meia).

 

André Masseno é coreógrafo e performer. Mestre e especialista em Literatura Brasileira na UERJ. Graduado em Artes Cênicas pela UNIRIO.

 

[1] LAGNADO, Lisette. Leonilson: são tantas as verdades. São Paulo: DBA Artes Gráficas; Companhia Melhoramentos de São Paulo, 1998. p.129.

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