Início » Notícias » [textos] “A vertigem do outro lado da cena”: Adriana Barcellos escreve sobre o espetáculo de Diego Dantas no I Encontro CURIÔS (RJ)

[textos] “A vertigem do outro lado da cena”: Adriana Barcellos escreve sobre o espetáculo de Diego Dantas no I Encontro CURIÔS (RJ)

No rastro do primeiro texto da série dedicada ao I Encontro CURIÔS, Adriana Barcellos dedica seu relato crítico à experiência como espectadora de Três Vertigens, de Diego Dantas, apresentado no primeiro dia do evento (16/ago). As fotos que ilustram esta postagem são de Marina Alves, que acompanhou Diego e as bailarinas do espetáculo durante alguns ensaios prévios ao Encontro.

 

A VERTIGEM DO OUTRO LADO DA CENA, por Adriana Barcellos

Diego Dantas inaugurou o espaço cênico do I Encontro CURIÔS estreando o espetáculo Três Vertigens. Eu vinha da abertura do Encontro, com palavras de Monica da Costa e de Wagner Carvalho que, do outro lado do oceano, recepcionava o evento e o grupo dos Curiôs; e da primeira mesa, que tratou de temas políticos, sociais, culturais e ancestrais. Com o pensamento e a emoção revolvidos por muitas questões e apontamentos, segui para o teatro apenas com o nome do trabalho.

Não conhecia Diego, nem sua trajetória de vida e dança. Talvez por isso mergulhei em seu espaço de criação artística como quem mergulha em um rio: sem saber sua profundidade, a temperatura da água e a textura do seu fundo. Nessa situação, não preparei meu corpo e minha percepção para o que viveria. Disponibilizei meus sentidos para receber as imagens, sensações e talvez alguma vertigem daquela experiência estética.

A primeira coisa que chama a atenção na figura de Diego é sua altura, e um primeiro pensamento que veio brincar em minhas reflexões foi se a altura do seu olhar em algum momento foi a causa da sua vertigem, tornada inquietação e trabalhada em sua construção coreográfica.

Entrei no teatro e nenhuma vertigem inicial surgiu. Sentei e olhei os três corpos que já estavam em cena. Pareciam acomodados e seguros, corpos de costas e, por isso, sem faces. Com o olhar, circundei as linhas orgânicas desses corpos que, sentados, diminuiam a ocupação espacial. Passei pelas cabeças, ombros, quadris, e estas linhas mudas sugeriam possibilidades de existências e de movimentos.

O cenário desviou a atenção dos corpos: uma arquibancada de muitos níveis e linhas retas que irradiavam um brilho metálico. O silêncio parecia sedimentar aqueles corpos ao chão.

Da situação inicial, surgiu um ruído que alterou o estado de contemplação. Não identifiquei o som a princípio e, pela sua característica, associei-o à estrutura metálica do cenário. No entanto, foram os corpos que começaram a mover. As mãos iniciavam um caminho, passeavam em gestos, repetidos, conjugados, e de certa forma reafirmavam, na repetição, um caminho. Com a mudança dos corpos, surgiram os rostos e esta existência ampliada trouxe outro sentido para o movimento, que persistia na afirmação da trajetória. O som parecia reverberar nos corpos, nas expressões e no movimento, alterando o estado de percepção. A repetição continuou, e esse movimento que não findava começou a provocar uma distorção na imagem que remeti a uma possível vertigem.

Pensei na repetição e experimentei uma dualidade de elaborações: como a repetição pode causar uma estrutura sólida, segura, mecânica e assertiva; e como pode também provocar uma alteração, um impulso que, mantido no espaço, esvaece a definição, construindo uma nova significação.

Leia mais:  Inscrições e oficinas entre Rio de Janeiro e Salvador (BA): Dança em Foco + ANDA + Dança Criativa para crianças

Os corpos continuaram a movimentação variando os níveis do cenário, até que um deles se destacou. Era um corpo de mulher que se duplicou em sombra no lugar mais alto da cena. Em movimento lento e orgânico, esta cena sugeria uma dramaticidade melódica que parecia evocar universos antigos, temas distantes, um canto, um mito. O som estridente continuava a reverberar numa contraposição a esta poesia corporal que remetia a um lugar afetivo estabelecido na terra em meio ao vento, à água e a um universo perfumado característico de alguma lembrança que não consegui identificar. A mão afagava o tempo, acariciava o espaço e sublinhava uma imagem criada.

Das linhas arredondadas e poéticas, outros corpos surgiram, assumindo uma linearidade que confundia a sinuosidade anterior, desfazendo a calmaria. Os corpos subiam e desciam em uma dinâmica forte, cortando o espaço em níveis diferentes, trazendo uma realidade única que não permitia dúvidas e se estabelecia novamente em repetições. Senti uma náusea pela mudança brusca e talvez a compreensão da vertigem. Percebi um universo individual que surgia em meio ao movimento, as subidas e descidas, a fragmentação da nossa vivência, característica de nossa contemporaneidade e muitas vezes despercebida em nossas ações.

Refleti sobre o terreno da criação vivido por Diego e as inquietações que o levaram a trabalhar sobre a construção dialética do particular e universal, do simbólico e de sua desconstrução nos corpos carregados de significação e histórias. O corpo contemporâneo de Diego carrega as dualidades de nossa era, onde o cheio e o vazio podem dividir espaços comuns; onde o cheio de nossas dúvidas esbarra no vazio de nossas certezas, trazendo a vertigem. Vertigem de uma vida que vai se construindo sem rascunhos e sem seguranças. É o nosso caminho diário e o caminho da construção artística.

A obra de arte pode carregar o universo de vida e o de questões vividas pelo seu criador, ser humano, que percebe o mundo em permanente mudança e o compartilha devolvendo anseios transformados em imagens simbólicas que nem sempre são entendidas. Esse universo pode ser também vivido pelo público que se sente instigado pelas questões que circundam de forma invisível a obra de arte. Não é preciso entender, conseguir nomear, identificar as questões, mas estar aberto para recebê-las e percebê-las. Uma das muitas funções da arte é ampliar o nosso olhar para a vida e perceber que ela ainda está em construção e elaboração.

No palco Diego propõe esse despertar das sensações pela repetição, pela fragmentação, pela dúvida, pela vertigem.

 

Adriana Barcellos é mestre e doutoranda em Artes pela UNICAMP, onde pesquisa o processo de criação em dança relacionado à Psicologia Analítica de Jung. Atuou como bailarina, preparadora corporal e criadora em companhias profissionais de dança do Rio de Janeiro. Desenvolve trabalhos de dança-educação na rede pública de ensino.

Comentários