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[textos] “Sobre memórias, ordenações, pistas e senhas de acesso”: Raíssa Ralola tece comentários sobre o espetáculo de André Bern no I Encontro CURIÔS (RJ)

     

[André Bern durante o processo criativo de senha de acesso / fonte: senhadeacesso.wordpress.com]

A série de textos dedicados ao I Encontro CURIÔS (RJ) segue com o relato de Raíssa Ralola sobre o espetáculo senha de acessode André Bern, apresentado nos dias 18 e 19/ago no Teatro Angel Vianna (Centro Coreográfico do Rio de Janeiro). Confiram!

SOBRE MEMÓRIAS, ORDENAÇÕES, PISTAS E SENHAS DE ACESSO, por Raíssa Ralola

Minha primeira oportunidade de assistir ao senha de acesso em seu período de temporada no Studio Casa de Pedra na Gávea, ainda em 2011, ano de sua criação e estreia, foi frustrada pelo abandono por esquecimento de uma bolsa no ônibus a caminho do teatro. Neste dia a missão de ir ao encontro do espetáculo precisou ser abortada para que o farejar de uma outra senha desse acesso à bolsa perdida. Essa tentativa sem êxito de reencontrar um objeto pessoal intimamente memorialista foi meu primeiro contato com o trabalho, ainda que sem assisti-lo.

Devo admitir que na segunda oportunidade de vê-lo, no Encontro CURIÔS, aderi ao espetáculo mais de uma vez. Assisti ao senha de acesso duas vezes, numa sequência de um dia após o outro. No primeiro dia com seu elenco completo: Monica da Costa, Fábio Honório, Aluisio Flores e André Bern. No segundo, com Monica, Aluisio e André. Assistira previamente o solo Passificadora, um dos quatro solos que compõem o senha de acesso, no programa Novíssimos promovido pelo Festival Panorama em 2012, e assim, nas descritas três ocasiões, teci contato com diferentes desdobramentos deste processo de trabalho. Afirmo que, no que tange ao mesmo, a aplicação matemática que diz A ORDEM DOS FATORES NÃO ALTERA O PRODUTO em definitivo não se aplica.

A partir deste processo de diferenciação que envolve estatutos de uso e ordenações díspares para uma mesma coisa, segui pensando sobre as articulações, as operações e as “pequenas” decisões que precisam ser tomadas num processo de criação artística. Independentemente da nomenclatura a que se deseje aderir enquanto criador – coreógrafo, compositor, propositor, performer, dentre muitas outras categorizações – parece-me inerente a um processo de criação que uma série de decisões sejam tomadas em parceria com o trabalho para que, aos poucos, o mesmo comece a ganhar corpo e autonomia para existir por vias próprias, sem o auxílio de muletas ou outros suportes de segurança.

Neste sentido, peço licença aos criadores do trabalho para sair do âmbito mais generalista e retomar a série de diferenciações que a mim se apresentaram de maneira tão evidente nestes distintos desdobramentos do senha de acesso.

Confesso que saí do teatro, após assistir o espetáculo completo pela primeira vez no Encontro CURIÔS, incomodada proeminentemente com uma questão: o solo Passificadora parecia-me de longe muito mais maduro e bem resolvido que os demais solos; possuindo, inclusive, autonomia para existir solitariamente. Colocando este problema no engenho de funcionamento do trabalho, vislumbrei naquele momento que Passificadora parecia funcionar mais autonomamente que senha de acesso, e esta foi a minha primeira impressão do espetáculo.

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Depois desta, que vou chamar de constatação duvidosa, no dia seguinte, presenciei parte do ensaio do espetáculo assistindo às novas marcações, já que Fábio, por questões que desconheço, não atuaria. Na noite deste mesmo dia, saí do teatro e escrevi a seguinte frase: muita densidade hoje no senha de acesso. Pude perceber com clareza que cada um dos quatro solos era muito pessoal e contava singularmente com o estado presente de cada um dos integrantes. Uma junção de quatro criadores onde o coreógrafo – função assumida por André Bern – parece ter escutado com muita atenção os desejos pessoais de direção de cada pesquisa solo no que tange às relações entre corpo e memória.

Pareceram-me quatro repertórios muito distintos e, longe de equalizar as diferenças das vozes que ali submergiam, o que justamente senha de acesso parecia problematizar era o como tecer dialogo, afinando tudo isso num único trabalho. Por algum motivo pareceu-me que esta outra configuração, esta nova ordenação que acabou por instaurar um novo estatuto ao trabalho, deu-lhe mais autonomia. E que o caráter unitário que, a meu ver, faltara no dia anterior, deixando destacar-se proeminentemente o solo Passificadora, estava ali firmado e aplicado.

Talvez decorra de um problema formal de composição; talvez tenha sido gerada por uma ativação de maior presença cênica, dividida entre os três integrantes que atuaram naquele dia, em decorrência da ausência de Fábio; talvez seja uma combinação das duas possibilidades; talvez eu estivesse diferente e assim também meu olhar. Talvez precise tomar novos contatos com o mesmo trabalho para firmar definitivos apontamentos, ainda que saiba que algumas respostas, pistas ou senhas de acesso, só poderão ser fornecidas por seus criadores.

Deixando em aberto a questão, finalizo trazendo as relações entre corpo e memória como um emaranhado sempre múltiplo, diante do qual uniram-se de maneira potente André Bern, como coreógrafo, e Esther Weitzman, como orientadora. É fato que estabeleceram um modo particular e contemporâneo de pensar no âmbito coreográfico, neste momento presente de tantas produções.

 

 

Raíssa Ralola é mineira de Juiz de Fora e recente habitante do Rio de Janeiro. Transita da dança às artes visuais. Seu processo de formação conta com passagens pelo curso de Artes da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), FAV/RJ – (Faculdade Angel Vianna), Laban Centre (Londres/UK) e, recentemente, o mestrado em Artes da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), na linha de Processos Artísticos Contemporâneos.

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