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[textos] Mariana Prazeres retorna à série com relato sobre “Da Onde Vem a Sua Dança?”, de Monica da Costa

[Monica da Costa e Cíntia Rangel em ensaio no Centro Coreográfico do Rio / foto: Marina Alves]

Dando continuidade à série de relatos críticos produzidos sobre os espetáculos integrantes do I Encontro CURIÔS – Rede de Nov@s Coreógraf@s Negr@s em Dança Contemporânea – Mariana Prazeres retorna (ela escreveu o relato de abertura da série, um panorama do evento) com um texto através do qual apresenta suas impressões sobre Da Onde Vem a Sua Dança?, de Monica da Costa. Confiram!

 

SIMPLES, MAS COMPLEXO – REVISITANDO DA ONDE VEM A SUA DANÇA?

por Mariana Prazeres

 

A distância e os dias passados me permitiram que esquecesse alguns instantes e que minha memória peneirasse os detalhes que se fizeram mais importantes e marcaram sensações despertadas durante o espetáculo. Da mesma forma, a complexidade do mesmo foi se dissolvendo e se somando a outras vivências e leituras, me permitindo ordenar ideias e digerir tantas informações trazidas com aquele trabalho.

Silêncio. A luz focaliza o corpo ao centro do palco, a sua seminudez que se contrasta e se complementa com a nudez do palco. À memória me veio o contato com a terra, com o chão, de onde a artista brincava com os movimentos e me levava a sentir a gravidade presente. Os braços que tentavam lentamente se sustentar, tirando e trocando energia com o “solo”.  Tentando se situar naquele espaço, remetendo a uma imagem do ser consigo e com o mundo. De onde veio e para onde vai. Entremeando, lá estavam as vozes de algumas personalidades da dança, interferindo, direcionando e dialogando com os gestos que observávamos. A partir daí tive a sensação que aqueles depoimentos dividiam o espetáculo em partes e guiavam meu olhar e ouvidos, ao mesmo tempo em que me sentia livre para simplesmente estar ali e deixar o Da Onde Vem a Sua Dança? me provocar.

A primeira vez que tive contato com esse trabalho foi através do folder que divulgava o I Encontro CURIÔS, o que me trouxe uma animação especial, pois fiquei admirada em saber que alguém, em algum momento, pensou em dialogar dança contemporânea com a cultura afro, entendendo-as como duas esferas que dialogam, e não, que se repelem.

Espetáculo de dança contemporânea com vídeo que parte da concretude dos sentidos na dança – visão, paladar, audição, tato e olfato. Apontando esses sentidos, a dança de Obaluaye / Omolu e seus atributos são inspiração para pesquisa e criação, compondo com os sentidos presentes nos depoimentos de artistas como Rubens Barbot, Ismael Ivo, Carmen Luz, Elísio Pitta, Valéria Monã, Ignez Calfa, Kátia Gualter e Julio Rocha a pergunta mote do espetáculo. Terra, peso, tudo o que é perecível e se transforma. De Onde Vem a Sua Dança? vem da concretude do corpo e do sentir, da ancestralidade e das antropofagias, da busca de encontros sensíveis com o outro. Dá continuidade à construção de uma linguagem da dança afro-contemporânea a partir das danças de Orixás.

Ao participar da oficina de dança afro-contemporânea pude compreender um pouco mais como a Monica e todos os envolvidos no Da Onde chegaram até ali, e sentir um pouco no corpo, no desenvolver coreográfico particular, experimentando novas formas de me movimentar, já que conhecia a dança afro e a dança contemporânea, mas nunca havia mesclado as duas. Finalmente assisti ao espetáculo, que era interferido por anotações e por pré-concepções minhas que me impediam de sentir e de me localizar totalmente naquela apresentação. Códigos que meus sentidos estranhavam. O penúltimo momento foi ao assistir no último dia do Encontro CURIÔS a reapresentação do espetáculo, mas sem anotações e um pouco menos ansiosa em extrair algo dali, pude experimentar mais as propostas e elementos que eram trazidos ao palco.

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Os quadros eram simples e de uma simplicidade incômoda, complexa. Muitos elementos que se mesclavam e que traziam o tato, o contato, um treino a todo tempo de como perceber, de como se locomover. A sensação que tenho é de um jogar-se na vida e deixar que os sentidos nos movam e nos levem aos passos, aos gestos, ao ritmo, à dança. A natureza da vida se torna a dança.

As imbricações que a proposta deste trabalho trouxe e traz permitem que percebamos a presença da cultura afro, do batuque, do peso, do contato com aquela natureza, fazendo com que coisas aparentemente não interligadas e fragmentadas, se unam, e sensível, sutil e discretamente permeiem e cortem transversalmente a movimentação dos artistas no palco. As conversas dos seus corpos, a levada dos sentidos, cultura afro-brasileira e dança contemporânea.

Não acredito que aqui consiga rememorar a sequência de como os sentidos aparecem; na verdade, prefiro trazer a lembrança e as sensações despertadas que a mim marcaram. Nas entradas e saídas do palco, o extracotidiano ensaia o paladar, o morder-se a si e o outro, um movimento de identificação interna e externa, individual e relacional. O admirar do olhar em relação ao outro se experimentando misturado ao esboço de sons como uma cantiga apenas sonorizada que não somente treinava a audição como dava um toque especial de sensibilidade e vibração aos nossos ouvidos e olhos; a batida com os pés que sinceramente não só embelezavam o espetáculo, mas traziam a vibração que contagia o corpo e o coração, traz concretude dos sentidos e das origens afro. O sentir do ar, do cheiro e deixar-se levar pelo seu peso, sua dinâmica, entre quedas, rastejos, giros.

Certamente, olhos mais treinados ou com um rigor técnico se voltariam para o figurino, a luz, mas o que me chamou a atenção ali foi a capacidade daqueles artistas de mesclarem tantos elementos que sozinhos gerariam outro espetáculo, e fazê-los ser. Sinto também que assisti a um Da Onde, e se for assistí-lo novamente, será um espetáculo diferente. Da mesma forma acredito que para compreendê-lo é necessário disponibilidade, tanto quanto para realizá-lo.

Ao encerrar, deixo este relato com a mesma sensação que tive ao sair do Teatro Angel Vianna, no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro: a de o espetáculo ser apenas um ensaio de um trabalho muito maior e que não termina.

 

Mariana Prazeres é formada em dança pela Escola de Dança de Nova Iguaçu, revezando suas atividades entre aulas de sapateado e balé clássico para crianças, e o mestrado em Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Neste, desenvolve pesquisa a respeito da trajetória de bailarinos negros no universo do balé clássico fluminense e o ensino de Sociologia na Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro

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