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[textos] Sofia Caesar compartilha relato crítico sobre a primeira noite do ciclo Caminhos Coreográficos (RJ)

 

Relatora crítica da primeira noite do ciclo Caminhos Coreográficos, promovido pelo Centro Coreográfico do Rio de Janeiro com curadoria de Flavia Meireles, Sofia Caesar compartilha com ctrl+alt+dança seus escritos sobre as comunicações dos três artistas participantes: André Bern (colaborador deste blog), André Masseno (que, eventualmente, também faz suas contribuições por aqui) e Ricky Seabra. No início desta postagem, aproveitamos e compartilhamos uma compilação de trechos das falas dos artistas captada pela nossa colaboradora Gabriela Alcofra.

Hoje, às 19h30, o Ciclo conta com nov@s participantes – Márcia Rubin, Renato Cruz e Laura Samy, com interlocução de Ivana Menna Barreto.

 

 

Ciclo de Encontros: Caminhos Coreográficos – 2 de outubro de 2012

Relato crítico, por Sofia Caesar

Este foi o primeiro encontro do segundo ciclo de debates com curadoria de Flavia Meireles no CCoRJ, tendo como enfoque os caminhos artísticos de alguns criadores da dança carioca. Reunindo diferentes trajetórias em uma rica discussão, Flavia convidou para a mesa André Bern, André Masseno e Ricky Seabra e, como articuladora, Lígia Tourinho. A proposta deste ciclo é falar sobre criação, trocar experiências, pensamentos, estratégias, inquietações, criando um espaço de discussão e troca entre os participantes. E foi justamente este espaço que foi construído, pelos convidados e o público, ao longo da noite de terça-feira. Flavia Meireles começou falando um pouco sobre sua proposta, e logo perguntou: “O que está inquietando os artistas?”. Foi, assim, dado início ao que seriam duas horas e meia de conversa… que pareceram durar 30 minutos. Então, em ordem alfabética e cada um com 20 minutos para expor suas questões, os convidados assumiram a desafiante posição de falar sobre suas trajetórias.

André Bern, mestrando em Artes Visuais (PPGAV – UERJ), começou falando da entrevista como metodologia recorrente em sua carreira, adotada desde 2009 durante um workshop no CoLABoratório, quando Cristian Duarte apresentou uma prática de auto-entrevista advinda do site http://www.everybodystoolbox.net [1]. A partir dessa experiência, Bern se dá conta que esse hábito já o acompanhava desde criança, e passa a desdobrá-lo em várias proposições, desenvolvendo uma pesquisa artística baseada nas possibilidades da entrevista. Dentre as proposições ele citou: a “Desentrevista”, que, invertendo o funcionamento de uma entrevista comum, parte de respostas para extrair perguntas; seu projeto Colóquio D – conversas sobre dança [2]; e um exercício proposto a uma aluna do programa de pós-graduação em Artes Cênicas da UNI-RIO. Neste exercício eles se encontraram em um shopping, sem nunca antes haverem se visto na vida, e, sem falar uma palavra, abriram suas mochilas. Mostraram os itens que carregavam consigo, depois os guardaram e partiram. Bern apontou como a entrevista é uma possibilidade de conhecer uma pessoa, iniciar uma aproximação, um encontro, um diálogo. Em diversos momentos na fala sobre seu caminho artístico, pude reconhecer a geração de múltiplas respostas a partir de uma inquietação. Falou de alguns de seus trabalhos mais recentes, que exploram múltiplos meios: the jockey (2009), Bricolage (2010), passificadora (2011) e senha de acesso (2011). Algumas obras foram geradas a partir de trabalhos antigos, trabalhos que se desdobram em três vias, práticas que se cruzam, se misturam, parecendo afirmar que a criação de uma rede de respostas possíveis é uma de suas práticas recorrentes. Logo relacionei esta estratégia multiplicadora com a afinidade de Bern pela internet, e mais particularmente pelos múltiplos blogs por ele criados. Não poderia deixar de citar o http://ctrlaltdanca.com, espaço dedicado à escrita, fomento e divulgação para dança, também criado e mantido por André.

Partimos, então, para o depoimento de André Masseno, que tem formação em artes cênicas, dança e literatura e, desde 1999, vem desenvolvendo trabalhos solo. André começou falando da impossibilidade de ser linear ao enxergar sua trajetória. Nos propôs pensar em uma cronologia em rede, lidando com a instabilidade e espiralamento dos processos vividos ao longo de um período de tempo. Falou de seu primeiro solo, ana/grama, de 1999, e comentou como hoje enxerga que neste o tema da sexualidade e gênero na dança tinha sido trabalhado a partir de um jogo formal de repetição e permutação de elementos. Mencionou outro solo de 2002, Explicit lyrics, que teve um relatório legista como ponto de partida para o desenvolvimento da sequência coreográfica. Já em 2004, criou, pensando em memória e gênero e na ideia de remontagem e recoreografia, uma versão da Morte do Cisne de Fokine, onde se viam muitas perguntas e a morte emblemática, em si, não aparecia. Masseno fez, então, o rápido comentário que ficou na memória: “eu crio de 4 em 4 anos”. Este é o tempo que demora para que seu prazer de trabalhar em colaboração se restitua. E voltamos à cronologia de suas obras: 2008, Outdoor Corpo Machine. Aqui ele conta que houve uma mudança, um ponto de virada, a partir do qual passou a buscar fisicalidades específicas, estratégias que promovessem a presença/saturação ou vulnerabilidade durante o fazer. “Meu treinamento mudou, minha perspectiva mudou”. Também as palavras passaram a tomar um lugar importante nos trabalhos. E, então, 4 anos depois, neste ano (2012), veio O Confete da índia. Pensando o espetáculo como espaço sensorial, acontecimento, ou evento, Masseno contou como partiu do álbum “Índia”, da Gal Costa, e da série “Antropologia da Face Gloriosa” (1973-1996), de Arthur Omar, para desenvolver sua pesquisa sobre o “desbunde”, o êxtase, o corpo tropical, e os seus clichês. Frisou que o programa era distribuído no fim do espetáculo, se descolando dele, ganhando uma autonomia enquanto obra. Assim, não buscava explicitar o tema para o espectador através de um recurso como o do texto de caráter curatorial. O “desbunde” faz-se chegar pela fisicalidade, a partir do estado alterado que André trabalha em seu corpo.

A fala de Ricky Seabra, povoada de imagens, vídeos e referências, fechou os depoimentos da noite. Com formação e prática em design e vindo de uma pesquisa em artes plásticas, é com o espetáculo Areia e Mar, de 1997, que Ricky marca sua entrada no mundo das artes cênicas. Durante sua fala, mostrou trechos de suas obras, começando com Areia e Mar, em que usava o desenho com areia como matéria e corpo de trabalho, tratando de imagem e movimento ao desenhar e apagar em cena. Também vê-se uma coreografia de imagens sendo feitas e desfeitas ao vivo em Aviões e Arranha-céus, só que neste caso Seabra parte para um trabalho com as mãos. Falou sobre como o atentado às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 o havia afetado, levando-o a criar este trabalho. Neste momento, enquanto mostrava as imagens do espetáculo Isadora.orb, Ricky fala de um ativismo e de como pensa nos trabalhos como teses, pois a partir de um problema, ele gera hipóteses e soluções artísticas. Naquele caso, o problema era o fato de só os cientistas poderem ir para o espaço enquanto ele, artista, também queria um lugar no meio dessa “ditadura espacial”. Como resposta criou o espetáculo com sua parceira Andrea Jabor, misturando projeção de imagens feitas em tempo real e coreografia. Com um sorriso, declarou: “…então eu fiz este trabalho para levar Andrea ao espaço!”. Divertidos com a ironia de Ricky, vimos imagens de Império love to love you baby, onde ele aparece sozinho no palco como ele mesmo e como a personagem “Rickyoncé”. Seabra nos contou, então, as suas inquietações mais recentes, suas ideias e experimentos envolvendo problemas amazônicos, mostrou estudos para um novo personagem, e vídeos onde apaga áreas de desmatamento usando ferramentas do Photoshop em imagens do Google maps. Contou de seu novo projeto, onde o foco é dançar a partir da alegria. Perguntou: “Onde está a criatividade nas pistas de dança hoje em dia?”. Assim, Ricky terminou seu depoimento nos mostrando novas possibilidades para seu trabalho, exemplificando e nos deixando imaginar: http://www.youtube.com/watch?v=- zpGfxgPEQY.

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Abrimos então para as discussões, com a proposta de Lígia Tourinho de conversarmos livremente sobre as questões apresentadas. Pensando na ideia de entrevista apresentada por Bern, lançou uma pergunta a André Masseno referindo-se a um momento de sua fala. Ele havia mencionado o Rio de Janeiro como uma “cidade dormitório”, contando sobre quando, apesar de ter desenvolvido todo um espetáculo na cidade, só foi mostrá-lo em palcos cariocas quatro anos após a estreia. Em pouco tempo a conversa passou a girar em torno das políticas públicas e de como conciliar os processos criativos de cada um com a máquina dos editais. Falou-se da vitrinização da zona sul carioca; da necessidade de viver viajando e em constante circulação; do ser “refém do segundo semestre”; de como lidar com a necessidade de adequar os processos de criação aos prazos dos editais e ao ineditismo exigido – e neste momento falou-se de resistência. Muitas perguntas foram geradas em torno de uma ética dos artistas:

Como lidar com o fato de terem muitos editais mas não haver pauta em teatros para absorver a produção?

Como alimentar o fortalecimento de uma cena lidando com a lógica da competição que rege os editais?

Como negociar o fomento dos trabalhos produzidos?

Falou-se em negociação e mediação com os contextos em que nos inserimos. Falou-se novamente em resistência e na habilidade de responder e de se impor. Ficou claro que a ética discutida passa por uma ideia de coerência entre o discurso estético do artista e sua conduta ao lidar com todas as instâncias em que seu trabalho se insere.

Falou-se em pisar firme. Como reconhecer na conquista do outro uma conquista de todos? Como se reconhecer como classe?

Alguém respondeu rapidamente: “criando espaços como este!”.

E foi isto, o tempo passou e chegamos ao fim com uma sensação gostosa de pertencimento, de sabermos exatamente o que nos levou a estar ali. Precisamos de espaços como este. Disto todos que estavam ali presentes sabiam. Enquanto reconhecia (e estranhava) os processos ali expostos diante de mim, tentando reconhecer momentos de virada, mudanças, repetições, as ligações entre os trabalhos e os projetos dos três artistas, algo latente nos três se fez visível: a ética. Vê-los unidos pelo movimento de se apresentar, de se dispor a estar ali voltando-se para o próprio processo, frente ao olhar deles mesmos e de quem se fez presente, foi uma lição de conduta. De como trabalhar com criação coreográfica, de como pensar sobre a própria prática, de como apresentar uma trajetória, de como resistir, de como se divertir dançando…

Notas:

[1] Site que funciona como uma espécie de banco de dados, reunindo ferramentas práticas relacionadas à performance, dança, etc. O site surge como um “esforço coletivo para desenvolver os discursos existentes nas artes performativas, e para criar uma plataforma onde esta informação pode ser acessada por um público mais amplo que somente os participantes envolvidos.” (texto do site traduzido por mim).

[2] Projeto independente em que Bern entrevista artistas de dança e reúne o material coletado no site http://coloquiod.wordpress.com.

 

Sofia Caesar tem formação em design, dança e artes visuais. Desenvolve trabalhos entre a dança contemporânea e as artes visuais, propondo, em situações coreográficas, armadilhas para o corpo. A pesquisa surge com a tentativa de capturar o movimento fugidio; tentativa que, por ser fadada ao fracasso, gera um desvio. Deste surgem mundos, corpos, movimentos, coreografias, criados através da edição, na esfera do vídeo. É graduada em Dança Contemporânea pela Faculdade Angel Vianna, cursou Desenho Industrial (ESDI – UERJ), e estuda na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Programa de Aprofundamento.

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