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[textos] "Carta a Morena Paiva": Raíssa Ralola finaliza a série de relatos sobre o I Encontro CURIÔS (RJ)

[Morena Paiva em ensaio de A Ordem e o Movimento / foto: Marina Alves]

Com “Carta a Morena Paiva” – Raíssa Ralola endereça seu texto diretamente à criadora-intérprete do solo A Ordem e o Movimento – encerramos a série de relatos críticos produzidos sobre os espetáculos apresentados no I Encontro CURIÔS – Rede de Nov@s Coreógraf@s Negr@s em Dança Contemporânea. Confiram:

 

CARTA A MORENA PAIVA, por Raíssa Ralola

Rio de Janeiro, 30 de dezembro de 2012.

Cara Morena,

Tendo sido incubida da tarefa de escrita sobre seu trabalho, senti desafio. Morena, você me apertou (e essa frase dá um samba), me colocou dificuldades. Por longo período adiei o compromisso de escrita, pois sabia que, se de fato desejasse contribuir com seus processos, precisaria recorrer a referências externas. Precisaria recorrer a teóricos da arte para que me auxiliassem. Você me trouxe um campo de complexificações e, assim, definitivamente permitindo que agisse meu lado mais formal, deixei-me escolher pela carta. Escrevo para partilhar com você este campo que me afeta, e essa forma / formato “escolhido” vai destinar-se a estabelecer e a ampliar uma conversa iniciada no Encontro CURIÔS em agosto de 2012, na qual agrego seu espetáculo solo A Ordem e o Movimento e sua proposta de oficina Dança Contemporânea Popular.

Nosso primeiro contato: espetáculo solo – A Ordem e o Movimento

Quando adentrei o espaço do Teatro Angel Vianna no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro, o público estava posicionado em cadeiras próximas à cena e você já se movia pelo chão como num nado que se desloca por uma trajetória sinuosa. Som de água, de cachoeira, barulho sereno. O espetáculo foi tomando muitas formas e você assumindo diferentes papeis. Mostrou-se potente em cena e trouxe um leque de referências. Gosto das relações entre música e matriz de movimento.

Nosso segundo contato: oficina – Dança Contemporânea Popular

O contato mais “próximo” se inicia na tarde do domingo. Cheguei ao Centro Coreográfico, ultimo dia do Encontro CURIÔS, para participar de sua oficina, mas por um problema de espaço físico e também de tempo, acabamos não vivenciando o trabalho de corpo e sim uma conversa, uma quase entrevista (que infelizmente não foi registrada). Você falou um pouco sobre seus processos de formação, caminhos como artista e interesses de pesquisa.

Nessas duas possibilidades de encontro, onde tornou-se claro não haver separação entre seu solo e seu projeto de oficina, anotei uma lista de palavras e frases soltas que compartilho:

linda / negra / corpo

dança popular

Um jeito doce ao mesmo tempo extravagante de falar da problemática feminina

A mulher negra periférica

“Dança Contemporânea Popular”

Morena manifesta interesse em falar para diferentes pessoas

cultura diaspórica

funk como atitude política

A Ordem e o Movimento por vezes é muito representativo

como funciona essa coisa do pop no trabalho de Morena?

se apropria da cultura de massa?

Popular / pop / massa?

Não teria a dança contemporânea abertura para pensar o popular?

a coisa do estereótipo da mulher – ela fica de saco cheio fazendo

H2O, cachoeira, barulho sereno

funk logo em seguida parece próximo

o corpo mantém a mesma matriz, a música é funk, mas o “passo” é de afro.

Diante destas poucas anotações, surgem muitas perguntas as quais não posso dar conta, pois anunciam repertórios que infelizmente não domino. Vou então lançar-te algumas às quais espero, como todo bom escriturário de carta, respostas. Mas deixo as mesmas respostas a seu critério, pois julgar-me-ei contemplada se o presente texto provocar questões e problemas bem vindos a seu trabalho como artista.

A primeira questão é a seguinte: não teria a dança contemporânea abertura para pensar o popular? Ora, se dentro dessa mesma nomenclatura – ou ainda “categorização” – “cabem”, por exemplo, processos de trabalho assumidamente distintos, tais como os do Grupo Corpo (Belo Horizonte (MG)), e os do Grupo Cena 11 (Florianópolis (SC)), por que não caberia o trabalho de Morena Paiva?

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Na segunda pergunta vou parafrasear o filósofo Italiano Giorgio Agamben em seu texto “O que é o contemporâneo” [1]. De quem te interessa ser contemporânea? Ou ainda desdobrando a pergunta, de qual popular te interessa ser contemporânea? Seguindo na reflexão com o mesmo autor: “pertence verdadeiramente a seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual (…) mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo.” [2] Agamben destina-se a pensar a contemporaneidade como uma singular relação com o tempo, na possibilidade de aderir-se a ele, da mesma maneira que dele tomar distância, e podendo se aliar a muitas outras eras e temporalidades.

Pois bem, trazendo a discussão para o campo da dança que aqui interessa: trazer esse autor para pensar com a dança é impossibilitar que esta se ensimesme num pensamento estilístico ou seja entendida como uma evolução puramente conceitual e formal da dança clássica seguida pela dança moderna. Isso quer dizer que o modo como Agamben pensa o contemporâneo corrobora para que a dança contemporânea não se torne um estilo, nem um projeto encadeado de preceitos tecnicistas. Nesse sentido, pensando com cuidado, o que me parece que você está fazendo está para além de se enquadrar numa categoria, mesmo que ampliada. Morena, seu propósito é louvável e tenho impressão que você segue trilhando um novo caminho. Penso que você nos faz um convite para que nos deparemos com a dimensão do popular na arte contemporânea. E parece perguntar como a “dança contemporânea” pode estabelecer diálogos com o popular. Parece-me que seu trabalho é ainda mais uma pergunta que uma resposta a tudo isso.

Por ultimo, retomo um item da lista de anotações apresentada acima quando refiro-me que A Ordem e o Movimento é por vezes representativo demais. Penso que é preciso “radicalizar” e tornar o palco, local pleno de criação, mais que espaço de reapresentar vivências; propor radicalmente o trabalho em cena como um espaço para friccionar as dimensões que se deseja exaltar. Talvez sejam estas o popular e o erudito, o contemporâneo e o arcaico, um pouco de ambos. Nesse sentido, urge ser rigorosamente criteriosa nas escolhas e confeccionar problemas autorais. Mesmo em risco de mal-entendidos ao qual me anuncio na medida desta escrita, gostaria de afirmar que assim a faço para assumir a responsabilidade de trazer problematizações a seu trabalho em questão. Assino a autoria de tais apontamentos mais que como relatora, como artista que tem interesse em pensar textualmente problemáticas da arte. Estas que surgem por vezes em meus trabalhos, por outras em trabalhos alheios, e que por isso mesmo tenho tido o empenho em me envolver com as questões da crítica.

Com os melhores desejos

Raíssa Ralola


[1] Agamben inicia com a seguinte questão: “de quem e do que somos contemporâneos? E, antes de tudo, o que significa ser contemporâneos?” O autor traz os presentes questionamentos justamente porque, ao longo do seminário no qual este texto cumpre papel de aula inaugural, terá interesse em ler autores recentes e outros que distam muitos séculos. E, neste propósito, Agamben afirma que seu êxito será medido por sua capacidade, no curso do seminário, de ser contemporâneo destes textos.

[2] AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009. p.59.

 

 

Raíssa Ralola é mineira de Juiz de Fora e recente habitante do Rio de Janeiro. Transita da dança às artes visuais. Seu processo de formação conta com passagens pelo curso de Artes da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), FAV / RJ (Faculdade Angel Vianna), Laban Centre (Londres / Reino Unido) e, recentemente, o mestrado em Artes da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), na linha de Processos Artísticos Contemporâneos.

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