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[textos] Túlio Rosa e Luan Cassal propõem reflexões sobre participação, intimidade e performance em "Eu Vírgula Você e Eu"

[Túlio Rosa em Eu Vírgula Você e Eu / foto: divulgação]

Fruto de uma pesquisa iniciada em 2010, inspirada em trecho do livro “O Diário de um Ladrão”, de Jean Genet, a performance Eu Vírgula Você e Eu se debruça sobre as relações entre performer e público, além de se perguntar em que medida prazer, sexualidade e violência podem ser explorados trianguladamente numa experiência compartilhada. Túlio Rosa, criador e performer do trabalho, propõe uma reflexão conjunta com o pesquisador Luan Cassal em forma de artigo, que publicamos a seguir.

Intitulado “Compartilhar a experiência: Eu Vírgula Você e Eu”, o texto se apresenta como potente porta de entrada ao universo proposto por Túlio em sua performance, que explora noções advindas da psicologia, das artes e dos estudos queer. Confira abaixo:

COMPARTILHAR A EXPERIÊNCIA: EU VÍRGULA VOCÊ E EU

por Túlio Rosa e Luan Cassal

Em 1949, Jean Genet torna público, em seu livro “O Diário de um Ladrão”, um fragmento que denuncia a violência e opressão que sofreu em uma delegacia de polícia por portar um objeto simples, um tubo de vaselina, que através de sua presença revela sua homossexualidade e seu prazer marginalizado: o sexo anal. Em 2006, Gisberta, travesti brasileira, é mantida em cárcere por três dias, torturada e assassinada por um grupo de meninos entre 13 e 16 anos, na cidade do Porto, Portugal. Ao ser examinada, já sem vida, descobrem por uma série de graves lesões no ânus que ela foi violentada com um pedaço de pau.

Genet e Gisberta não estão unidos pela violência, mas pelo cú [1], e pelos prazeres que seus corpos ostentam. Sua dor não está no cú, mas nos prazeres que lhes são sufocados. Por que o prazer do outro incomoda? Por que o cú, que aliás, une a todos nós, independente de sexo e gênero, é o alvo de tamanha rejeição?

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O texto que segue é uma reflexão a partir do processo de pesquisa do projeto Eu Vírgula Você e Eu, e tem por objetivo compartilhar as questões, pensamentos e estratégias que nos atravessaram ao longo do percurso, além de compor as ações apoiadas pelo Ministério da Cultura do Brasil, através do edital de Intercâmbio e Difusão Cultural 2012, para o aprofundamento da pesquisa em residência na cidade de Lisboa, Portugal.

O projeto Eu Vírgula Você e Eu nasceu de incômodos e desejos. O incômodo de saber-se incomodar, e o desejo de experimentar ir ao encontro do incômodo, dos prazeres, do outro. Partimos inicialmente de duas principais perspectivas: a primeira delas foi investigar mais profundamente a relação entre performer e público na construção de trabalhos situados no campo das artes cênicas – pensando a performance como parte integrante desse campo quando tem o corpo como ponto de partida para a criação.  A segunda, pesquisar em que medida prazer, sexualidade e violência estavam imbricados nas relações sociais, e de que forma essa triangulação poderia ser explorada através da experiência compartilhada. O principal resultado dessa pesquisa foi a criação de uma performance, que serve também de base para o desenvolvimento deste texto.

[1] De acordo com a gramática da língua portuguesa, a palavra “cu” não tem acento, pois nunca se acentuam as oxítonas terminadas em I e U. Entretanto, a palavra é acentuada por engano com frequência. Decidimos utilizar a acentuação ao longo do texto, ainda que incorreta, por uma questão estética: a palavra ganha maior destaque visual quando acentuada e aproxima a leitura da linguagem falada, onde o cu costuma ter uma presença marcante posto que raras vezes é pronunciado com leveza. Além disso, a grafia incorreta mantém o cu como marginal na linguagem, estranho à normativa, do mesmo modo que é comumente marginalizado, excluído ou depreciado nos encontros sexuais.

 

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