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[textos] fora do eixo#1: Dally Schwarz estreia colaboração em série para CTRL+ALT+DANÇA

[Centímetro, da Cia. Matheus Brusa / foto: Dally Schwarz]

Já tínhamos anunciado a novíssima colaboradora do ctrl+alt+dança, Dally Schwarz, em postagem no Facebook… Agora, de fato, Dally se junta ao time!

A partir de um e-mail que ela nos enviou em maio, intitulado “Olá! Tudo bem? Queria colaborar!”, Dally se apresentou como “cara-de-pau” e nos fez sua proposta de colaboração. Recebida com unanimidade por nossa equipe, ela se dedicará a uma série de textos sobre companhias, espetáculos e cenas que, segundo ela mesma, “ficam meio por fora da mídia” – seja ela a grande mídia, ou a mídia especializada de dança. Chamaremos a série de: Fora do Eixo (*). Dally ainda arremata:

Penso que o Fora do Eixo também pode abordar não só esse eixo de circuito, mas o de linguagem (fico aqui pensando no que chamam de “baixa cultura”).

A primeira contribuição de Dally para ctrl+alt+dança trata de Centímetro, espetáculo da Cia. Matheus Brusa. O espetáculo estreou no 6o. Encontro Internacional de Dança de Caxias do Sul, em 27/abr/2013.

Confiram abaixo:

 

fora do eixo#1: MINÚCIAS POR CENTÍMETRO, por Dally Schwarz

Clic, tic, tac, tic, tac, tic, tic,

Clic, tic, tac, tic, tac, tic, tic, …

Há um tempo que não assistia um espetáculo de dança contemporânea que chamasse tanto minha atenção e me deixasse tão instigada.

Fora do “eixo” Rio – São Paulo – Minas Gerais, minha viagem rumou para a região sul do país, na cidade de Caxias do Sul, localizada na serra gaúcha do Rio Grande do Sul. Região bem fria e bem marcada pela cultura tradicional gaúcha, cidade com mais centros de tradições gaúchas do país. A cidade abriga uma companhia de dança contemporânea que, em minha opinião, está se destacando na produção brasileira.

A primeira vez que vi o trabalho dessa companhia foi quando conheci o coreógrafo Matheus Brusa durante uma residência internacional (da qual participamos) promovida pela Cia. Flux, de Ipatinga (MG). O contato com o registro de seu trabalho já tinha despertado minha atenção. A visualidade, algo que para mim é determinante, me tomou de assalto e me fez querer ver isso em cena.

A oportunidade de assistir uma estreia aconteceu logo na sequência. O trabalho Centímetro, da Cia. Matheus Brusa, estreou no 6o Encontro Internacional de Dança de Caxias do Sul no dia 27 de abril de 2013. E lá fui eu, motivada em viajar nessa busca incessante pelo movimento e pelos intercâmbios culturais.

A Cia. Matheus Brusa atua desde 2006 na cena contemporânea, com mais de 10 espetáculos e uma linguagem híbrida, que transita entre artes plásticas, teatro, música e dança. O mais novo espetáculo, Centímetro, é marcado por uma pesquisa muito peculiar, diretamente relacionada aos pequenos corpos, micromovimentos, aproveitando-se também dos erros e das manias corporais já existentes nos bailarinos. Essas rubricas transitam em outros trabalhos da Cia., criando uma identidade muito marcante e reconhecível.

Centímetro só reafirma a maturidade da linguagem (muito consistente e que marca a assinatura ou identidade) da companhia e desse coreógrafo (peça chave para entender o trabalho da Cia). O jovem coreógrafo Matheus Brusa, de 29 anos, tem uma formação artística que envolve dança, artes plásticas, música e teatro. Esse hibridismo potencializa o espetáculo.

Leia mais:  eixo do fora #16: "Body"

Abrindo a noite com muito impacto, o espetáculo surpreendeu toda a plateia que, em momento algum, ficou apática aos estímulos que vinham tanto dos movimentos dos bailarinos, como da presença dos músicos em cena. Com um cenário incrível de 20 trenas que caíam a 8 metros do teto do teatro, o palco virou tela de uma imagem plástica dos corpos atravessados por essas retas amarelas no espaço, que volta e meia se tornavam instrumentos sonoros. A trilha do espetáculo também desperta curiosidade, uma vez que é feita ao vivo, e segue uma pulsação bem marcada, um tanto quanto regida pela presença do coreógrafo em cena. Matheus Brusa não só coreografa o espetáculo, como também idealiza toda a parte visual, e também se coloca em cena para reger essa orquestra de corpos.

O coreógrafo como maestro se coloca em cena acompanhado de um brilhante músico caxiense, Lázaro Nascimento. Estar em cena traz outros valores para o trabalho: Matheus, como um chefe tribal, o xamã, aquele que enxerga no escuro em um ritual, toca o tradicional bombo leguero. O toque do tambor, em muitas culturas, é associado à alteração da percepção (o coreógrafo tem trabalhos com esse interesse especifico), marcando o tempo dos movimentos, logo, o tempo dos corpos. O som é como um mantra, e os movimentos também. A coreografia é um “looping”.

Os bailarinos, jovens, apresentam uma técnica corporal precisa e potente, o que contribui como um diferencial para essa orquestra. A metodologia do coreógrafo faz todo sentido nessa preparação corporal que leva em conta a consciência espacial em relação ao corpo, através da medição com a trena. Cronometrar, limitar o trabalho com os erros. Movimentos que já existem no corpo, manias, vícios. Matheus transforma isso tudo em coreografia explosiva, marcada pelo controle corporal e pelas pesquisas de movimento por centímetro.

Tenho certeza que, para dimensionar o que digo, é importante ver ao vivo. Nosso momento contemporâneo, todo mediado pelo virtual, é de muitas possibilidades e aberturas. Nesse sentido, o “ao vivo” faz toda a diferença. É no transe que vamos ter a experiência, através do som e dos movimentos dos bailarinos. Centímetro precisa ser visto em suas minúcias e, de preferência, de muitos ângulos, e várias vezes. A ideia da repetição, não como o igual, mas como o diferente. O movimento no tempo é sempre diferente, pois o tempo, como na imagem de uma espiral, muda a cada segundo, a cada centímetro de segundo.

 

Dally Schwarz é formada em Estudos de Mídia na UFF. Mestranda em Linguagens Visuais na Escola de Belas Artes da UFRJ, interessa-se pelas imagens do corpo, pela performance e questões feministas e de gênero nas artes. Dança e se pendura para entender melhor seu corpo e os corpos.

 

Nota:

(*) Em 2/set/2013, Dally opta por mudar o nome da série para Eixo do Fora.

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