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Do oikos para a polis: Raíssa Ralola elabora primeiro relato crítico sobre a 5a. edição do Festival de Dança de Juiz de Fora (MG)

21 dias se passaram desde o fim da última edição do Festival Nacional de Dança de Juiz de Fora (MG). O ctrl+alt+dança pôde acompanhar aqueles dias bem de perto, através da presença de André Bern e Raíssa Ralola, e um primeiro relato crítico (numa sequência de quatro) “sai do forno”, fruto de nossas aventuras no evento.

Em Do oikos para a polis, Raíssa estabelece uma reflexão sobre o contexto político e artístico juizforano no qual a 5a. edição do Festival é realizada – sem perder de vista, mas sim potencializando sua escrita a partir de uma posição privilegiada de quem pertence àquela comunidade. Confiram abaixo:

 

DO OIKOS PARA A POLIS, por Raíssa Ralola

A exatos quinze dias após sua finalização, busco mapear em meus circuitos corporais as memórias dos dias de vivências no 5º Festival Nacional de Dança de Juiz de Fora (MG). Tomando novo contato com o material produzido pelo ctrl+alt+dança (que esteve presente ao longo do evento), percorro vias de aproximação entre minhas memórias e as fotografias, os vídeos, as anotações.

Foram dez dias intensos de uma programação variada. Artistas locais e outros de diferentes cantos do país estiveram presentes ministrando oficinas, apresentando espetáculos, intervenções artísticas, vídeo-danças, realizando cortejos, se posicionando no fórum de dança e nos circuitos de conversas, participando das festas, cafés, almoços e jantares com muitas trocas e “dedos de prosa” (como dizemos nós, mineir@s). Tudo isso compôs essa 5ª edição do Festival, realizada entre 28 de junho e 7 de julho de 2013.

Advindo de um formato organizacional que envolveu grande parcela da classe da dança da cidade, o evento promovido pela Prefeitura de Juiz de Fora, por meio da FUNALFA (Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage), foi construído em parceria com a Comissão de Dança de Juiz de Fora.

Esta comissão surgiu dentro do Fórum de Artes Cênicas/Concult, motivada, inicialmente, por discussões a respeito do Festival Nacional de Dança, discussões estas que levaram a se acreditar na necessidade de pensar e discutir, difundir, refletir e questionar as políticas públicas para a dança no âmbito municipal. A criação desta comissão está registrada no Conselho Municipal de Cultura/Concult, via representação das artes cênicas. [1]

A formação/atuação desta comissão marca um momento importante para o Festival e também para o movimento da dança na cidade. Ao propor um formato bem particular, a Comissão de Dança (que, segundo Letícia Nabuco [2], apostou nesta 5ª edição como uma “edição diagnóstico”) convocou a classe da dança local e propôs a divisão em seis sub-comissões, sendo elas: danças urbanas, dança clássica, dança jazz, danças étnicas, dança de salão e dança contemporânea. Tentar compreender as necessidades e prioridades de cada um desses diferentes “nichos” da dança, trazendo efetivamente quem quase nunca se encontrava para a polis [3], para a cidade, pareceu-me algo elaborado propositalmente para essa específica edição. Saindo do conforto do oikos [4], do espaço privado dos estúdios e escolas de dança, para se encontrar na cidade, diferentes entidades da dança local, organizadas e trabalhando juntas em tais sub-comissões, decidiram como desejavam realizar o festival.

Esse pareceu-me um ponto de partida importante: a possibilidade de contar com as representações específicas dos nichos da dança local. Além de mobilizar esse sistema de pessoas para trabalharem juntas, tornou-se possível trazer à cidade artistas pares; em outras palavras, artistas forasteir@s com as/os quais cada “vertente” da classe partilhava inquietações e desejava estabelecer diálogos em lócus no evento. Tudo isso a meu ver, todo esse processo de convocação, organização e movimentação (de modo bastante heterogêneo) contribuiu para a vivência da dança aliada à reflexão. Eu, que sou Juizforana de nascença e vivência mas estive fora nos últimos tempos (não me sinto estrangeira, mas falo quase de fora ao mesmo tempo que quase de dentro, pois assumo que não posso falar de modo nativo de tais questões, por estar distante das mesmas), posso estar equivocada, mas pelo que vi e ouvi naqueles dez dias de Festival, pude vislumbrar mais porosidade e arejamento em se tratando de movimentação artística da dança na cidade. 

Revendo todo o material que cito no princípio do texto – fotografias, vídeos e anotações – foi interessante perceber como processos reflexivos puderam fazer-se presentes no período do Festival. Para além das mesas de conversas, espaço do fórum, muitos bate-papos, o pensamento da “dança aliada à reflexão” esteve presente em falas de diferentes artistas, assim como em falas de gestor@s – das quais recolhemos pequenos trechos em vídeo.

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É fato que a mobilização do sistema cultural local deu-se de modo rico. Vale ressaltar que no Fórum de Dança, junto ao Coordenador de Dança da FUNARTE (Fabiano Carneiro) e do representante da Câmara e Colegiado Setorial do Ministério da Cultura (Rui Moreira), foi possível reunir gestor@s dos órgãos públicos de cultura da cidade – Universidade Federal de Juiz de Fora (Gerson Guedes), Secretaria de Educação (Ieda Loureiro) e Funalfa (Toninho Dutra) – em prol da reflexão e aproximação entre políticas públicas e dança.

Nesse mosaico de sub-comissões – no qual por um lado fica evidente uma fragmentação da dança, organizada por seus modos de fazer – ressalto a possibilidade de convocação participativa e de uma aproximação (ainda que fragmentária) dos vários nichos dessa classe artística. Afinal, qual a real necessidade de criar um festival senão para o encontro, a aproximação, os processos de troca, para confeccionar espaços para ver e ser visto? Parafraseando Silvana Marques [5]: “a dança é uma só, apesar de ter várias vertentes”.

Talvez estejamos um pouco longe dessa realidade unificada, mas a partir do momento em que as várias vertentes da dança vêm à polis – espaço este, segundo Hannah Arendt, privilegiado pelas trocas políticas – um processo de modificação política pode começar a se encaminhar.

E para que os processos de trocas artísticas tornem-se hábitos, é preciso continuar confeccionando estratégias para a permanência de encontros da classe da dança, trazendo a reflexão como um elemento partícipe de todos os nichos através dos quais ela existe na cidade. E se como afirma André Rockmaster [6]:  “a vivência ainda é o ponto principal da arte corporal”. Então, que a cidade siga elaborando vivências e, mais importante, que não desista do trabalho árduo de encontrar estratégias para alinhavar as diferentes vertentes da dança.

É certo que muitas dessas estratégias falharão. Mas longe do desânimo, imagino que essa Comissão de Dança (que, em pouquíssimo tempo, trabalhou tanto) vem forte e desejosa pela possibilidade de autoria dos encontros. É a partir desse desejo latente de agregar, mesclar e (porque não?) atritar, que torna-se possível elaborar questões que nos expandam como artistas, assim como expandam nossas próprias práticas. Questões tais como, por exemplo: “Para que queremos a dança?”, “Que dança queremos?”.

 

Raíssa Ralola é artista do corpo e crítica. Pós-graduada em Teatro e Dança na Educação, e em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais, pela Faculdade Angel Vianna. É mestre em Artes (UERJ) e divide moradia entre Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ).

 

Notas:

[1] Fragmento retirado do documento de formação da Comissão de Dança de Juiz de Fora, datado de 28 de janeiro de 2013.

[2] Artista membro da Comissão de Dança.

[3] Polis era o modelo das antigas cidades gregas.

[4] Oikos em grego significa casa, e é a origem da palavra economia.

[5] Artista da dança de Juiz de Fora. Ver depoimento em: http://www.youtube.com/watch?v=7BLwXH7KATQ.

[6] Artista paulistano do movimento das danças urbanas. Ver depoimento em: http://www.youtube.com/watch?v=vanqE7CBQh8.

 

Referências:

ARENDT, Hannah. O que é política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

—-. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

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