Início » Notícias » [textos] Danielle Greco convida para "um manifesto do corpo para o corpo"

[textos] Danielle Greco convida para "um manifesto do corpo para o corpo"

[Danielle Greco / foto: divulgação]

Exausta da rotina de inscrições em editais, nem sempre convertida na aprovação de projetos, Danielle Greco propõe um manifesto: de transbordamento de ações na direção das ruas (ou nas palavras de Raíssa Ralola em seu último relato crítico, do oikos para a polis, da casa para a cidade), de possibilidades outras, menos dependentes do que a artista chama de “burocratização de processos criativos”.

Não é a primeira vez que o tema aparece aqui no ctrl+alt+dança. Em “Valor de mercado”, texto do artista norte-americano Rob List (traduzido por André Bern), publicado em 29/jan/2012, ele sugere que “talvez a relevância da arte seja uma questão mais pessoal do que pública (…) E talvez não gere nenhuma receita”. Em 01/mai/2012, publicamos “Uma Prática”, texto também escrito por Rob, em que defende um entendimento de arte enquanto prática. A polêmica continua quando ele  encerra suas reflexões com a frase: “De resto, sempre dá pra pagar as contas no nosso tempo livre”.

As críticas e demandas a partir da inevitável pergunta como-se-faz-para-viver-de-arte também ecoam em “Até onde você foi com a dança?”, texto-desabafo de Gabriela Alcofra, nossa redatora em São Paulo (publicado em 23/mar/2012); no edital fictício proposto por André Bern (editor deste blog) em 09/out/2012; além de “Manifesto #1” (publicado em 28/jan/2013), de Victor D’Olive, no qual o artista compartilha publicamente o não recebimento do cachê referente à sua participação na Bienal Internacional de Dança do Ceará (que se posicionou em relação ao ocorrido logo no dia seguinte). Em outras palavras, há muito o que continuar discutindo e manifest-agindo no que diz respeito ao assunto; o texto de Danielle é bem-vindo ao time.

 

UM MANIFESTO DO CORPO PARA O CORPO, por Danielle Greco

 

“As atividades do espaço são o fazer e o dançar.”

Rudolf Laban

(MIRANDA (2008))

 

Isso é um manifesto, escrito pelo corpo, corpo este que não mais suporta viver de editais. Um corpo poético e não burocrático. Um corpo que age da forma que ele sabe agir, conforme sua história, conforme seus aprendizados, de acordo com o seu passado-presente (simples não?). Ele então pode se valer de estruturas modernas, retrógradas, ou mesmo de citações que estão fora de época, mas é o corpo, ele mesmo, nele mesmo, por ele mesmo. Simples para quem lê, porém complexo para quem realmente vive.

Tenho voz, sentidos, estados. Há 1 mês estou parado, no último semestre trabalhei tanto que não tive tempo de cuidar de mim mesmo. Trabalhei sem ganhar nada, corri atrás de oportunidades, sucumbi à escrita de pelo menos dez editais, não entrei em nenhum. Mesmo com um vasto currículo e experiência em dança, teatro, arte-educação e produção cultural, meus esforços foram inúteis; e foi a partir desse momento de hiato criativo, de ser obrigado a parar, que me coloquei em estado de reflexão.

Sou corpo rua, corpo casa que transborda para o outro. Corpo que segue em atravessamento. Corpo ainda jovem com relação a alguns conceitos, porém ancião de inquietações. Corpo que, mesmo caminhando há um bom tempo, não é re-conhecido no ambiente em que insere ou que pretende se inserir. Parece não haver espaço. Assim como a cidade. Não há mais espaço. O corpo não habita mais a cidade, pois não há espaço. Foi retirado o corpo do espaço e o espaço do corpo. Cada vez mais a dança é retirada dos corpos, e os corpos da dança. E eles afrouxam para outros.

Leia mais:  Corpo sob holofotes: eventos, performances e oficinas em São Paulo, Recife (PE), Rio de Janeiro e Guarulhos (SP)

O corpo não suporta mais sua casa, não lhe cabe, mas a rua também não recebe sua voz. Este corpo, então, perde força e se cala frente a alguns corpos em ascensão, que por vezes habitam o mesmo espaço. O sentido de habitar é o mesmo que o de conviver em um mesmo espaço?

Procuro a rua, procuro a multidão, procuro a alteridade, procuro o convívio, o coabitar, o diálogo das inquietações, ações que possam de fato construir novos caminhos para a sobrevivência dos corpos na dança e em outras linguagens artísticas, todas em co-labor-ação. Ações que transbordem para outras esferas, onde a dança e as artes possam ser construídas de outras maneiras, a não ser somente pela lógica e pela burocratização de processos criativos, colocando-os em casas sem portas, sem janelas, sem cavidades. O corpo precisa respirar, trocar, ser corpoambiente.

Estados de reflexão do mês de julho: um corpo anêmico e inativo não soluciona os problemas de uma linguagem artística, mas são esses estados de passagem que nos convocam a refletir sobre a atual situação daqueles que estão ainda nascendo e construindo a contemporaneidade.

Se hoje tratamos o corpo como pensamento/ação, digo que sou um corpo-ação-político. Um corpo que não se contenta em apenas dialogar sobre novas formas de colaboração na contemporaneidade. Precisamos agir. Precisamos tomar as ruas. Precisamos ser corpo-ação, dança-ação, arte-ação. O corpo precisa ser palavramento, colocar a tal da palavra em movimento.

Frente a essa situação, o corpo político daqui convida o corpo político daí para sair dessa inércia e participar do nosso primeiro encontro do grupo de estudos do projeto estadosDEpassagem. Porque tem sido necessário conviver com inquietações, respostas, ações, com construções colaborativas, com dança, teatro, performance, música, artes plásticas, artes visuais e qualquer outra forma de arte possível. Não queremos fazer grandes travessias sozinhos, queremos? Não queremos que nossa arte seja colocada em caixas, embaladas, etiquetadas e vendidas para um ótimo comprador, queremos? Podemos ser corpos nômades, corpos itinerantes, corpos casas, corpo ambiente, corpo pensamento, corpo ação, podemos ser corpo sistema.

O manifesto está lançado, só falta agora a manifest-ação.

Por Danielle Greco: vulgo turismóloga, dançarina, atriz, arte-educadora e mais outras mil funções e, ainda assim, formanda no Grupo de Risco do curso de Comunicação das Artes do Corpo da PUC/SP.

Sobre o projeto: www.estadosdepassagem.com

Participe do grupo de estudos acessando o link do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/1405219273023073/

 

Referência:

MIRANDA, Regina. Corpo-Espaço: aspectos de uma geofilosofia do corpo em movimento. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008 (p.7).

Comentários