Início » Notícias » [textos] "Tão belo e tão exigente": Bia Morgado entrevista a cineasta francesa Marie-Hélène Rebois

[textos] "Tão belo e tão exigente": Bia Morgado entrevista a cineasta francesa Marie-Hélène Rebois

[Trabalhos de Marie-Hélène Rebois integram o Festival Dança em Foco 2013 / foto: divulgação]

A edição 2013 do Dança em Foco – Festival de Vídeo e Dança começa amanhã (14/ago), como parte da programação do projeto de ocupação do Teatro Cacilda Becker (RJ), intitulado Conexão Cacilda. Um dos destaques deste ano é a vinda da cineasta francesa Marie-Hélène Rebois, cuja produção (inédita no Brasil) ganha programas especiais no Festival. Seu premiado Ribatz, Ribatz ou le grain du temps, de 2002, integra o Festival com legendas em português.

Bia Morgado, pesquisadora em Artes e assessora de comunicação do Dança em Foco, compartilhou conosco uma entrevista realizada com Marie-Hélène, que publicamos a seguir. A mesma também está disponível no site do Festival, que contém informações detalhadas sobre a programação deste ano.

Durante a conversa com Bia, Marie-Hélène falou sobre suas realizações – dos mais de 50 filmes dirigidos por ela, quase 30 abordam temas ligados à dança – além de revelar que não pensa necessariamente em fazer videodanças, mas sim “filmes sobre a dança ou com dança”. Confiram abaixo:

 

ENTREVISTA COM MARIE-HÉLÈNE REBOIS, por Bia Morgado

[Tradução de Regina Levy]

 

Bia Morgado: Qual a sua relação com a dança? 

Marie-Hélène Rebois: Sou interessada profissionalmente na dança desde os anos 80-90. Sou formada em teatro e participei várias vezes do Festival de Teatro de Nancy – onde todas as formas de teatro moderno foram criadas. Por ser minha cidade natal, durante minha adolescência, eu vi e compreendi muito cedo que as montagens e cenografias variavam consideravelmente de acordo com as culturas, os meios e os objetivos dos que desejavam ‘fazer o teatro’ – enquanto que na Europa o teatro era ainda apresentado em cena frontal, como nos ‘teatros italianos’ do século XIX… Quando eu assisti à primeira apresentação do Regard du Sourd, de Bob Wilson, e às primeiras peças de Pina Bausch em avant première no Festival Internacional de Teatro de Nancy, tive uma revelação de um teatro sem palavras mais belo e forte que tudo o que jamais tinha visto anteriormente. E daí fui me interessar no que se passava no mundo da dança. Uma nova geração de coreógrafos na França e nos Estados Unidos estava criando espetáculos de dança contemporânea e de novos gestos onde os corpos exprimiam uma sensibilidade, um pensamento que entrava em ressonância com a evolução geral da sociedade. Tive a convicção de que o mundo da dança estava em ebulição e que algo muito importante acontecia. Por outro lado, mais pessoal, escutei durante toda minha infância minha mãe falando ao meu pai que se arrependia de nunca ter aprendido a dançar. Sua vontade não realizada colocou, em minha alma, a dança num pedestal: a dança como um pequeno eldorado.

BM: Qual a sua relação com a videodança?

MHR: Comecei a fazer curtas-metragens com 15 anos de idade graças a uma professora de francês-latim que tinha comprado uma câmera de 16mm, uma “Baulieu” que não registrava o som. Esta mulher abriu na minha escola um atelier de cinema. Eu fazia filmes sem palavras que eu rodava nas ruas de Nancy com meus amigos supostos-atores, filmes que eu montava medindo os planos com uma fita métrica de costura, já que não tinha mesa de montagem na época. Depois comecei a fazer filmes de uma hora ou mais para a televisão sobre temas da sociedade e da cultura, e desde 1992 eu fiz sobretudo filmes sobre a dança. Eu não penso em fazer “videodança”, mas filmes sobre a dança ou com dança, com as exigências do cinema, não especialmente em vídeo. Hoje tudo é rodado em vídeo, mas não muda nada em termos de roteiro. Não sentimos a duração e o tempo (na cena ou no filme) da mesma maneira. É preciso um trabalho de adaptação, mas é difícil o corte numa obra coreográfica, e poucos coreógrafos aceitam cortes.

BM: Quantos filmes já realizou?

MHR: Nunca contei, mas digamos entre 50 e 60 filmes.

BM: Quantos são sobre dança?


MHR: Aproximadamente 30 filmes, são “captações recreações” e também documentários longas-metragens sobre a dança.

BM: Por que decidiu explorar o mundo da dança através de imagens?

MHR: Pelas razões que já expliquei acima: porque os dançarinos profissionais têm vidas exigentes e exemplares tentando a constante superação deles mesmos; mas também porque em 1992 eu vivi um luto muito próximo e inesperado, e a perda da pessoa amada me deu vontade de filmar a dança e o trabalho de dança, já que a dança me pareceu mais ainda como uma expressão extrema da vida e da energia vital. Era uma época em que muitos dançarinos morreram de AIDS, e quando Dominique Bagouet morreu aos 41 anos, de AIDS, em 18 de dezembro de 1992, eu decidi fazer por ele e com seus intérpretes um verdadeiro trabalho cinematográfico sobre a memória. Mais precisamente sobre a memória do corpo. Comecei a me questionar o que poderia ser a sua dança e seu repertório após sua morte, e desenvolvi essa temática em três filmes sobre a obra de Dominique, depois sobre a obra de grandes coreógrafos. Trabalho, portanto, sobre esse tema há 20 anos.

Leia mais:  [vídeos] Fjögur Píanó, da banda islandesa Sigur Rós

BM: O que o filme / vídeo permite ao público acessar da coreografia e o que não é possível na cena?

MHR: O filme de um espetáculo ou de uma dança permite ver o corpo, as expressões de mais perto. Mas quando nos aproximamos perdemos a coreografia, é portanto um difícil equilíbrio a ser composto… Gosto particularmente de filmar o trabalho da dança, o trabalho da criação, os ensaios. As transmissões, no caso, me permitem entrar na intimidade do trabalho de interpretação, que é um trabalho escondido do público, tão belo e tão exigente.

[Ribatz, Ribatz ou le grain du temps (2003)]

BM: Onde em seu trabalho as imagens escapam e vão além do registro ou da documentação da dança?

MHR: Eu procuro temas de documentários sobre a dança que podem interessar a todo mundo, não somente aos que dançam. É por isso que fiquei muito orgulhosa pelo meu filme Ribatz, Ribatz ou le grain du temps ter ganho o prêmio do Festival Internacional de Documentários de Marseille (FID), em 2003, pois é um festival generalista e foi a primeira vez que um filme sobre a dança obteve o primeiro prêmio em um festival generalista. Em geral, os filmes de dança são exibidos somente em festivais especializados. Acho extremamente importante a dança sair de seu “gueto” para que possa ser admirada mais ainda.

BM: Seus filmes geralmente tratam de obras de grandes coreógrafos, entre eles alguns já falecidos. Qual é o lugar da história e da memória da dança em seu trabalho?

MHR: O caráter efêmero da dança é, por um lado, uma de suas mais belas características, e por outro, uma certa injustiça para a história e a memória da dança. O cinema pode auxiliar a dança a conservar seus traços, mas o cinema deve fazê-lo conservando toda sua vitalidade, sua parte de mistério… aproximando esta questão com sutileza, não somente filmando, mas sim captando as peças delicadamente. Pois filmar a dança em certo momento é fixá-la, pará-la em seu incessante movimento-vibração que a mantém viva e que faz com que cada apresentação não seja igual a do dia anterior ou do dia seguinte.

BM: Como compreende o termo “videodança”? Podemos tratar seu trabalho sob esse termo? Por quê?

MHR: Eu não pretendo que meu trabalho seja somente colocado sob esse termo. Adoro a dança, adoro o cinema, mas não gosto especialmente do vídeo. Para mim, o vídeo é uma técnica ligada a um formato e só. Tudo o que se faz em vídeo podemos fazê-lo em película. O processo técnico para mim pouco importa, o que conta é que o que se filma e como o filmamos, e sobretudo o que queremos transmitir. Claro que agora há o 3D, e será bem interessante experimentá-lo no processo de captação da dança. Mas será que não é uma bela ilusão? Será preciso tentar, ver e, sobretudo, arranjar dinheiro para ser feito, pois é uma técnica muito cara.

BM: Já esteve no Brasil? Se sim, em qual contexto, e o que pensa a respeito do país? Se não, quais as suas expectativas?

MHR: Sim, já estive no Brasil 2 vezes. Uma vez há 25 anos com uma amiga fotógrafa da Guatemala que vivia na Argentina e no Brasil. E, em outra ocasião, nos anos 90, estive em Brasília e na Bahia acompanhando a turnê da Cia. Ballet da Ópera de Lyon. Eu amei essas viagens, sobretudo a Bahia. Adorei a energia e a juventude do povo brasileiro.

BM: Conhece a obra de algum coreógrafo brasileiro? Tem vontade de realizar um trabalho junto a um artista latino-americano?

MHR: Já ouvi falar algumas vezes de Lia Rodrigues e também do HipHop brasileiro. Já vi alguns espetáculos na França, mas não muitos. Adoraria poder conhecer os artistas mais criativos atualmente no Brasil. Espero que seja possível durante o festival. Certamente, adoraria ter a oportunidade de fazer um filme com algum artista latino-americano. Para isso, precisaria de um verdadeiro encontro, uma emoção particular e uma possibilidade de produção…

BM: Quais são as questões que pretende levantar em suas falas durante o Festival Dança em Foco 2013?

MHR: Gostaria de abordar as seguintes questões:

Porque filmar a dança? Questões a se fazer antes de filmar.

O lugar do corpo do coreógrafo na dança.

A memória do corpo dos intérpretes, a única verdadeira memória da dança?

O que ocorre com o repertório da dança contemporânea depois da morte do coreógrafo?

O cinema é parte intrínseca da memória da dança. Mas em que condições?

Além de todas as questões que surgirem, se eu puder respondê-las…

 

Bia Morgado é pesquisadora em Artes, doutoranda em Tecnologias da Comunicação e Estéticas pela Escola de Comunicação da UFRJ, e assessora de comunicação do Festival Dança em Foco.

Regina Levy é diretora executiva e de produção do Festival Dança em Foco desde sua fundação. Foi curadora da Mostra FUNARTE de Dança e Teatro / Mambembão 2012. Como produtora cultural independente, atua em festivais de música, cinema, dança, projetos de artes plásticas e de teatro, entre outros.

Comentários