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[textos] “Nem tudo que reluz tem dança”: André Bern dá sequência à série de relatos sobre o Festival de Dança de Juiz de Fora (MG)

Na sequência de “Do oikos para a polis”de Raíssa Ralola, André Bern (editor de ctrl+alt+dança) propõe novas reflexões sobre sua experiência junto ao Festival Nacional de Dança de Juiz de Fora (MG) através do relato “Nem tudo que reluz tem dança (ou Trocando Laranjas)”. Confiram abaixo:

 

NEM TUDO QUE RELUZ TEM DANÇA (OU TROCANDO LARANJAS), por André Bern

[Cine Teatro Central [**]]

Começo este relato – segundo numa sequência de quatro textos – propondo a mim mesmo um exercício de conexão com as memórias do Festival Nacional de Dança de Juiz de Fora, que aconteceu entre 28/jun e 7/jul deste ano. Nos moldes dos experimentos que conduzi ao longo da pesquisa intitulada senha de acesso, a partir da qual produzi um espetáculo homônimo, me fiz a pergunta: se eu tivesse trazido uma concha-do-mar-de-dança-de-Juiz-de-Fora, que sons eu ouviria dentro dela?

Então, é a partir de uma memória sonora que decido escrever; em particular, do som de vagões de trem cruzando linhas férreas na cidade. Não poderia ser diferente, já que me lembro de ter me deparado com o som – e, muitas vezes, com os trens também – em diversos momentos, me deslocando entre um espaço e outro para assistir espetáculos, conversar com artistas locais e observar/participar das oficinas promovidas pelo Festival.

O som dos trens e o brilho do sol daqueles dias – que não raro davam sequência a noites bastante frias – também me servem de metáfora para tratar do próprio título dado a este texto. A primeira coisa que me chamou a atenção no pouco que vi de Juiz de Fora foi a razoável quantidade de espaços em que aconteceram as atividades do Festival. Lembro de ter pensado: “caramba, quantos espaços ocupados com dança, que maravilha!”. Mas como nem tudo que reluz tem dança, aquela era apenas uma primeira impressão, ainda que justificável, de um artista forasteiro. E é exatamente a partir deste ponto de vista nada imparcial que desenvolvo essas linhas.

Ao conversar com profissionais ligad@s à dança juiz-forana pude desmistificar tal ideia. Não, a dança não ocupava tais espaços com tamanha propriedade ao longo do ano, fora do período em que o Festival acontecia. Inclusive, a tomada das rédeas do Festival (em parceria com a Prefeitura da cidade) por parte da recém-criada Comissão de Dança era fruto de um descontentamento com a representatividade da própria dança na cidade que, a duras penas, mantém suas atividades de ensino e criação artística.

[Centro Cultural Dnar Rocha]

O bailarino clássico Marcus Vinícius, membro da Comissão de Dança da cidade, põe em xeque a própria denominação “nacional” do Festival: “Eu questiono esse lugar porque eu acho que ele poderia ser mais divulgado entre esse plano Brasil de dança (…) ele ainda é um festival que reúne uma microrregião que vai do Rio de Janeiro a Barbacena” [1]. Eu diria que é justamente o nome do Festival que dá uma pista sobre o maior entrave – e, consequentemente, o maior desafio – enfrentado pelo evento.

O que Marcus Vinícius nomeia, de maneira ácida, como “um jeito juiz-forano de fazer as coisas” [2], chamo de falta de estratégia. Ainda que o movimento da Comissão de Dança na direção de legitimar os diversos modos de fazer do campo artístico na cidade seja justo e bem-intencionado, a falta de diálogo entre os mesmos e suas diversas demandas e especificidades gerou um Festival extremamente fragmentado, com poucas oportunidades de compartilhamento entre núcleos juiz-foranos de dança usualmente estranhos entre si. Um exemplo claro, nesse sentido, foi o baile de dança de salão, promovido pela artista Silvana Marques. A chance de encontro e confraternização ficou restrita ao público e profissionais vinculados àquele modo de fazer dança.

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Obviamente, sei de quão “fácil” é propor estas reflexões a partir do espaço confortável da minha mesa e cadeira, numa noite chuvosa, devidamente acompanhado de chá e biscoitos. No entanto, acredito que a maior lacuna não preenchida pelo Festival foi a de promover espaços mais potentes de compartilhamento para aquela multidão de artistas e profissionais da dança que se reuniu em torno do evento.

Sim, as oficinas e bate-papos depois dos espetáculos são um passo sempre bem-vindo nessa direção. Sim, a verba disponibilizada pela Prefeitura era curta. No entanto, há que se investir energia no desenvolvimento de estratégias mais criativas para contornar os orçamentos apertados e potencializar essas breves oportunidades de encontro e troca que um Festival como o de Juiz de Fora pode oferecer. De outra maneira, resta “trocar laranjas entre si” [3], como diz Marcus Vinícius.

[Centro Cultural Bernardo Mascarenhas]

Uma outra questão que merece igual destaque é o aparente histórico de uma frágil interlocução entre as/os própri@s artistas em seus processos criativos na cidade. Penso que os trabalhos tornam-se pouco férteis, ficam aquém da potencialidade de suas/seus criador@s, sem bons advogad@s-do-diabo (colaborador@s, dramaturgistas [4], “olhares externos”, seja lá como se deseje nomeá-l@s) durante a gestação dos processos. Ainda que a composição da Comissão de Dança já seja em si um passo considerável, colaborações em nível mais capilar, micropolítico-artístico, fazem-se extremamente necessárias. Ritmo Zero, de René Loui, é emblemático nesse sentido: precisa de parceir@s que, como Paulo Marques me contou uma vez numa entrevista [5], “enfiem o dedo mesmo”, façam provocações, gerem desestabilizações e incertezas; algo que, muito possivelmente, não faltou a Morena Paiva ao longo da construção da pérola A ordem e o movimento, ovacionada em pleno dia de jogo do Brasil na Copa das Confederações.

Artistas como René (e tant@s outr@s dançarin@s talentos@s que pude observar nas batalhas de dança de rua, por exemplo), extremamente dispost@s a correr riscos (físicos, inclusive) em cena, precisam do cuidado que só a salutar combinação boas/bons parceir@s + infra-estrutura mínima por parte das políticas públicas municipais para a arte (em especial, para a dança) pode promover. Numa análise ainda consideravelmente preliminar, é disso que dependem as condições de manutenção de toda uma classe de artistas juiz-foran@s. Senão, el@s passam a dedicar 70% de seus esforços a empreitadas desenvolvidas em outras cidades (como é o caso de Marcus Vinícius), quando não migram em definitivo para elas.

Além disso, ressalto que a interlocução da própria cidade com o Rio de Janeiro deve ultrapassar um certo status de admiradora (ou quero-ser-como-o-Rio-de-Janeiro) na direção de propositora de parcerias criativas: algo que certamente pode ser fomentado tanto pel@s artistas, em seus já usuais deslocamentos, como pel@s gestor@s públicos. Há que se aproveitar a disponibilidade da Fundação Nacional de Artes (FUNARTE), no âmbito federal, através da presença do Coordenador de Dança Fabiano Carneiro no Festival, e fomentar desdobramentos.

 

André Bern é artista-pesquisador, blogueiro cultural e editor de ctrl+alt+dança. Bacharel em Dança (UFRJ) e mestre em Artes (UERJ), com formação em design gráfico pela Escola Seven de Computação Gráfica, atua relacionando campos artísticos e produzindo trabalhos que transitam entre dança contemporânea e performance, videoarte e programação visual.

 

Notas:

[1] Ver depoimento em: http://www.youtube.com/watch?v=LMGM7cbv1R4.

[2] Segundo o artista, o Festival deve se abrir para outras lógicas do fazer dança.

[3] “Nós estamos ‘trocando laranjas’ entre nós, e isso não é legal (…) é uma questão mais antropológica do que coreográfica.”

[4] Vale conferir o artigo “Dramaturgia/dramaturgista”, de Fátima Saadi [*].

[5] Leia a entrevista em: http://wp.me/p1TzVP-F.

 

Referência:

[*] NORA, Sigrid (org.). Temas para a dança brasileira. São Paulo: SESC SP, 2010.

 

 

[**] Todas as fotos foram clicadas por André Bern.

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