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[textos] "Bebendo até inchar", por André Masseno

[Ronie Rodrigues e Gladis Tridapalli em Cachaça Sem Rótulo / foto: divulgação]

 

BEBENDO ATÉ INCHAR, por André Masseno

Uma dupla de artistas oferece cachaça e pipoca à plateia que a assiste. Com roupas mínimas e de estampas tropicais, a dupla mantém seus corpos tensionados e as bocas exageradamente abertas. O estado perturbador e ao mesmo tempo irônico de seus corpos faz contraponto ao gesto convidativo e informal de dar de comer e beber ao seu público. Mas afinal, no contexto atual em que se encontra a cultura no Brasil (e principalmente as políticas públicas para a dança), o que o artista pode continuar “oferecendo”? Como e quando continuar dançando?

Em Cachaça sem Rótulo, Gladis Tridapalli e Ronie Rodrigues problematizam as condições do artista da dança no Brasil, deparando-se com a descontinuidade e a insuficiência das políticas públicas que, por sua vez, não estão dando conta das necessidades daquele fazer artístico, desde a sua criação até a sua posterior difusão e circulação. E principalmente se nos depararmos com o circuito de dança produzida em Curitiba, inserida em um contexto politicamente inóspito e árido, sem perspectivas de incentivos continuados por parte das estâncias governamentais.

Criado sem verbas públicas ou privadas, os cofundadores da Entretantas Conexão em Dança fazem de Cachaça sem Rótulo um manifesto artístico-político, ao fisicalizar a sensação do artista brasileiro em sentir-se refém das leis de incentivo e dos escassos fomentos públicos. Seus corpos são objetificados, sustentando suas bocas exageradamente abertas durante todo o espetáculo. Bocas que, em seu silêncio, são as feridas abertas pela indignação; bocas das bonecas infláveis vendidas em sex shops; bocas impassíveis para serem penetradas pelo falo do poder e da relação verticalizada de uma grande parcela das instituições e dos órgãos de fomento sob os artistas e suas práticas (neste caso assombradas pelo peso da logomarca daqueles e pela “responsabilidade” por um “produto” artístico eficiente); bocas sem o grito da revolta, destituídas do grito desesperado presente no célebre gesto pictórico de Edvard Munch; bocas de corpos cansados que já não (su)portam a força da revolta.

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Mas isso não impede a dupla de Cachaça sem Rótulo de incorporar a irreverência ao carnavalizar, através do riso, a sua condição de reféns pela espera por uma política cultural digna e que está sempre por vir. Dialogam com a plateia através de uma gestualidade frenética, tensa e repetitiva, tentando sambar conforme a música do momento em que este diálogo se instaura. Seus corpos – meio bonecos, meio animais – executam uma dança precária e não legitimada, embalada por uma trilha sonora estridente, ruidosa e distorcida; dança apoiada sobre uma dramaturgia reduzida aos bagaços, porém dotada do requinte da mais fina bagaceira, com a qual se produz a cachaça mais inebriante.

É importante frisar que não é por acaso que a cachaça e a pipoca estão presentes no espetáculo da dupla curitibana, sendo ambas oferecidas à plateia. A primeira, um dos emblemas da identidade nacional, a bebida-símbolo do compartilhamento entre as pessoas. A segunda, o passatempo e a companheira das bocas e olhos devoradores da cultura do entretenimento.

Em suma, Cachaça sem Rótulo é a ação de borrar as fronteiras das categorias e denominações artísticas, propondo um pensamento acerca de uma arte que recusa chancelas, que resiste à lógica de um “pedigree” artístico que legitime a sua circulação enquanto moeda de troca dentro de circuitos específicos (e por que não dizer eurocêntricos?) da dança contemporânea. Um gesto corajoso de denunciar não somente as instâncias públicas, mas também o posicionamento crítico e a responsabilidade de cada artista diante do crescente apagamento da dança enquanto arte no contexto brasileiro, cada vez mais (e infelizmente) comprometido com uma “cultura da distração” e suas embalagens.

Cachaça sem Rótulo estará em cartaz nos dias 19 e 20 de outubro, às 20 horas, no Espaço Cênico, situado à Rua Paulo Graeser Sobrinho, 305 – Bairro São Francisco – Curitiba (PR). Tel.: (41) 3338-0450.

 

André Masseno é coreógrafo e performer. Mestre e especialista em Literatura Brasileira pela UERJ.

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