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[textos] eixo do fora#3: "Líquida Ação: rio que corre pelas beiras", por Dally Schwarz

 

LIQUIDA AÇÃO: RIO QUE CORRE PELAS BEIRAS [*], por Dally Schwarz

O cenário político no Rio de Janeiro tem contribuído não somente para a politização das pessoas, mas vem proporcionando bons encontros no espaço das ruas. 15 de agosto de 2013, quinta-feira, estava passando pela Cinelândia, em plena CPI dos Transportes, quando encontrei com a artista e pesquisadora Eloísa Brantes, também diretora do Coletivo Líquida Ação.

“E aí, vamos jogar uns baldes d’água?” foi sua saudação-convite, que já me anunciava que estavam ali para uma Intervenção urbana no meio da ocupação das escadas da Câmara Municipal. Eu, que já conheço o trabalho do coletivo, fiquei bem curiosa para saber qual o diálogo que surgiria naquele contexto.

Tenho gostado muito de ver como as ações artísticas estão se resolvendo e propondo pensamentos, críticas e reações nessa conjuntura política dura, de muita repressão, mas também de muita força e insistência dos manifestantes. E é nesse contexto, no risco das ruas, que os artistas estão colocando seu corpo à prova do espaço e todo tipo de interferência nessa zona de contágio. Apesar dos artistas terem o respaldo da arte (a instituição não se legitima somente dentro de um espaço, mas é um discurso que atravessa espaço-tempo), não podemos negar a zona de risco. Risco do corpo, do diálogo que surge com aquele que vê. “Quando você dá o tempo para o outro existir enquanto espectador, ele vem. Não é você que está sendo visto. Você dá a ver aquilo que nem você mesmo conhece. O movimento é público, não te pertence mais”, enfatiza Eloísa.

E nesse encontro contagiante, saquei meu celular para acompanhar a performance e na hora me veio a ideia de escrever para o ctrl+alt+dança.

 

Atentado violento à ordem pública!

Quem? Coletivo Líquida Ação[**], dirigido por Eloísa Brantes. Atua no Rio de Janeiro desde 2006 com a pesquisa do deslocamento da água pela cidade. Quando? 15 de agosto de 2013. Onde? Cinelândia, em frente à Câmara Municipal. O quê? Paisagens Interurbanas – espaços de intervalo de reflexão.

“A ideia é criar um certo estranhamento na paisagem baseado no deslocamento da água – inserindo também a ação de lavar a roupa”. Assim Eloísa começa a me contar um pouco sobre a ação Paisagens Interurbanas.

A ideia, se percebi bem, é criar imagens. Através do uso dos baldes coloridos, objeto relacional do grupo, o corpo amplia o espaço, construindo um percurso. A ação se dá em três momentos: lavar roupas, fazer abluções (ritual de lavagem), e devolver a água para a cidade. “A roupa está cheia de memória, mas logo vira um pano nesse ato de ablução, que oferece um alívio à febre urbana da produtividade em excesso. Existe uma dimensão pessoal nessa roupa, nesse ato, mas também existe aí uma dimensão pública, que é de todo mundo. Fazemos uma recriação da memória urbana, trabalhando com a memória da cidade”, fala Eloísa.

 

Performances em manifestações

As performances têm aparecido cada vez mais assumidas nos espaços políticos das manifestações. “Fazer performance na rua, no espaço público, não é nada de novo. Mas o que está em jogo aqui é a maneira como você diz”, provoca Eloísa. Esse diálogo entre arte e política está ficando mais orgânico, e não falamos só da arte que é legitimada, mas da arte como ferramenta para colocar o corpo na rua, usar das artes do corpo, das possibilidades poéticas e de sua comunicação”.

Quando perguntei para Eloísa o que ela achava dessa aproximação e de suas reverberações, ela atentou que “ainda tem lugares seguros para o artista e para a arte. Acho que essa é uma oportunidade muito interessante para os artistas irem performar na rua. Colocar seu corpo numa exposição maior, e dessa forma encontrar outra comunicabilidade. E não são só os artistas que estão fazendo isso. Todo mundo está percebendo e fazendo uso disso. Tem muito a ver com esse momento político em que as pessoas estão buscando novas formas de representações políticas e de se representar dizendo ‘basta, não é isso que queremos!'”

 

O que é, o que é de fato? Qual é o significado?

Essa é a pergunta que não quer calar, e que não pára de nos rodear; principalmente nós artistas do corpo, que trabalhamos com as possibilidades contemporâneas: misturas de linguagens, apropriações e recusa de um sentido único e fechado. E sem querer responder, mas falando em torno disso: “No fundo no fundo eu não sei, está aberto a você dar o significado. Ou, então, é a percepção de que existem tantos significados possíveis e o significado não é exclusivo do artista. Afirmar isso é uma loucura! Quando vem a arte da performance ou a performance enquanto uma linguagem da arte, ela vem quebrando essas fronteiras. E por que agora reivindicá-las novamente?”, questiona Eloísa.

 

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Um ensaio aberto para a Bienal SESC de Dança?

Esse ano, o coletivo Líquida Ação participou com Paisagens Interurbanas da Bienal SESC de Dança, promovida pelo SESC Santos (SP). “Como está sendo o diálogo com o contexto paulista?”, perguntei na época. Eloísa me contou que “já está acontecendo o diálogo. Acredito que quando enviamos nosso projeto e fomos convidados um dos motes que os levou a nos convocar para participar foi essa relação que estabelecemos com o outro. Nosso trabalho é nesse contato íntimo com as pessoas e suas vivências na cidade, no espaço que reconhecem como seu”. O coletivo trabalha com as pessoas numa espécie de oficina, e depois partem para a ação na rua. “Mas sempre através do olhar dessas pessoas. Nós vamos descobrindo a cidade a partir da vivência delas”, esclarece Eloísa.

O coletivo trabalhou numa área periférica de Santos, em uma comunidade de palafitas localizada na zona noroeste, no Dique. “Vamos levar essas pessoas para a cidade, fazendo esse trânsito. É uma ação política. Quando você sai um pouco do lugar da arte e trabalha com qualquer um, percebe que as pessoas têm um corpo fértil, com uma potência criativa”, conta. O trabalho Paisagens Interurbanas foi aberto para qualquer um que quisesse participar. Parece simples, mas o trabalho não tem nada de simples! “Temos toda uma elaboração artística de pesquisa. É difícil, mas é possível”, compartilha Eloísa. O tema da Bienal SESC de Dança 2013 foi Corpo, Ocupação e Cidade. Não poderia ser mais afinado com todo o contexto, né?

 

Um histórico que passa pela história da cidade

Desde 2010, Eloísa Brantes e o Coletivo Líquida Ação desenvolvem uma pesquisa com as fontes públicas. “Esse foi nosso primeiro e maior projeto. A ideia era fazer a ativação dos chafarizes do século XVIII do Mestre Valentim, do centro da cidade do Rio de Janeiro”, explica Eloísa. O projeto premiado pela FUNARTE impulsionou o grupo a ir para as ruas: “A gente trazia uma discussão sobre o conceito de restauração. Levávamos água para as fontes e naquele instante eles voltavam à ativa”.

A diretora do Coletivo chama a atenção para essa dimensão da pesquisa no trabalho do grupo: “Existe toda uma questão barroca que liga os trabalhos. Em Paisagens Interurbanas isso está presente nos movimentos circulares. É muito legal perceber no trabalho de pesquisa como uma coisa vai levando à outra e criando conexões”.

As pessoas se apropriam da cidade, o balde é um objeto completamente banal, cotidiano. “Ele é um ‘ready-made'”, como lembra bem Eloísa. “Esses objetos podem ser apropriados por qualquer um, são objetos utilitários. Não é por acaso que chegamos ao balde”. As imagens misturam vida e arte. Na cena viva da rua, moradores de rua e ocupantes, todos moradores da cidade, faziam uso do espaço público de forma privada: lavavam pratos, abriam varais. A cidade-casa como é habitada por muitos. A ação do coletivo virou córrego, se infiltrando pelas beiras, nesse fluxo de caos e multidão.

 

 

Dally Schwarz é formada em Estudos de Mídia na UFF. Mestranda em Linguagens Visuais na Escola de Belas Artes da UFRJ, interessa-se pelas imagens do corpo, pela performance e questões feministas e de gênero nas artes. Dança e se pendura para entender melhor seu corpo e os corpos.

 

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally para ctrl+alt+dança.

[**] Participaram da performance @s seguintes integrantes do Coletivo Líquida Ação: Maurício Lima, Júlia Ariani e Julia Lotufo.

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