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[textos] Raíssa Ralola escreve penúltimo relato da série dedicada ao Festival de Dança de Juiz de Fora (MG)

 

TEXTO SOLO EM TRÊS ATOS, por Raíssa Ralola

 

[fotos: André Bern]

1º ato

“(…) Juiz de Fora! Juiz de Fora

Tu tão dentro deste Brasil

Tão docemente provinciana…

Primeiro sorriso de Minas Gerais”

— Manuel Bandeira, em Estrela da Vida Inteira

 

Faria minhas as palavras de Bandeira se poetisa fosse. Faria delas amigas próximas para pensar minha cidade de origem, certa que minhas já as torno, sempre que me penso juiz-forana, talvez também provinciana. Ele, um escritor estrangeiro, definitivamente. Eu, nem estrangeira, ao mesmo tempo em que indispensavelmente local. Local, local, local. Juiz-forana, igualmente doce e provinciana.

No primeiro dessa série de quatro textos sobre o 5º Festival Nacional de Dança de Juiz de Fora, tentava colocar-me um tanto ao longe (mas não tão longe) – como alguém que pôde, de uma certa distância, observar, analisar e pensar para, então, propor linhas escritas. Dizia: “Eu, que sou juiz-forana de nascença e vivência mas estive fora nos últimos tempos, não me sinto estrangeira, mas falo quase de fora ao mesmo tempo que quase de dentro, pois assumo que não posso falar de modo nativo de tais questões, por estar distante das mesmas” [1].

Agora, de fato, talvez porque assim me perceba, talvez pela leitura do texto de André Bern [2] (um estrangeiro como Bandeira), desejo colocar-me dentro, a ponto de criar corpo com @s demais. E não poderia deixar, logo de início, de remeter-me às “flechas” lançadas pelo citado texto, segundo desta série publicada em ctrl+alt+dança: “Nem tudo que reluz tem dança (ou Trocando Laranjas)”. Retomo-o.

No título de seu relato, André cita sua animação ao ver a diversidade de espaços culturais da cidade ocupados pela dança, seguida por uma desanimação ao ser informado que o funcionamento dos dados espaços não era bem como o imaginado [3]. Na sequência, toma a voz de um artista da cidade, versando sobre a pequena abrangência “territorial” do festival [4], e aponta como fato minimamente curioso, se não questionável, a ausência majoritária d@s criador@s locais nos espaços de apresentação do evento. Ressalta também que, nas poucas vezes em que est@s artistas ocuparam o espaço de cena, tornou-se evidente a falta de interlocução entre @s mesm@s em seus processos de criação [5]. E finaliza seu texto com a seguinte afirmação: “ressalto que a interlocução da própria cidade com o Rio de Janeiro deve ultrapassar um certo status de admiradora (ou quero-ser-como-o-Rio-de-Janeiro)”.

Diante do posicionamento de um observador que, sim, vê ao longe – como bom e necessário forasteiro, sendo capaz, como o poeta de abertura, de identificar traços do provincianismo implícito na cidade – afirmo que, em vistas de fazer contraponto, como já anunciado, falarei de dentro. De um modo um tanto particular, tentarei aproximar-me das vozes d@s artistas da dança da cidade, d@s quais, em suma, faço parte. E neste específico contexto de festival, não encontro melhor momento que o Fórum de Dança para traçar um panorama, conjugar seus pontos de vista e elencar suas vozes, ansiosa para torná-las minhas.

2º ato

“Vida longa e boa viagem!”

— Arnaldo Alvarenga

 

Foram estes os dizeres que encerraram a fala do coreógrafo Rui Moreira [6] na manhã do segundo dia do Fórum, rememorando a frase do crítico de dança mineiro Arnaldo Alvarenga. Rui, transformou seu espaço de palestra, denominado “Novos e Melhores Rumos”, numa conversa ampla com @s artistas, escutando as diferentes vozes presentes, os diferentes modos de interlocução, pensando junto em possíveis estratégias para a dança. No dia anterior do Fórum, a classe recebia o Coordenador de Dança da FUNARTE (Fundação Nacional de Artes) Fabiano Carneiro, além de gestores culturais locais [7], juntamente aos quais pôde se posicionar, apontar e questionar.

Relembro como são necessários estes tipos de encontros nos quais a classe reunida pode pensar conjuntamente nos seus problemas, motes de interesse, além de possíveis encaminhamentos para estes, é claro. A possibilidade de promover diálogo entre artistas e gestor@s locais pareceu-me emblemática e fértil para provocar questões. Dentre muitos pontos, chegou-se a um consenso sobre a necessidade de uma política de encontros contínua entre @s trabalhador@s da dança, para pensar de modo amplo as necessidades organizacionais da mesma. E não só, mas também traçar estratégias, pensar nos processos de memória e de registro, criar mapas de atuações em dança, discutir as relações desta com as outras artes, com a educação, com a saúde.

Houve questionamentos sobre ações de fomento aos processos de criação locais, e foi ressaltada pel@s presentes a dificuldade de existir como artista. Em decorrência desta dificuldade, grande parte d@s criador@s em potencial direcionam-se para a docência. Sim, uma questão, mas de modo algum está a mesma nas relações entre arte e docência, pois sabe-se que estas articulam, desde tempos longínquos, uma profícua parceria. O que parece questionável nesta, digamos, migração, é que em virtude da dificuldade de existir como criador, tal direcionamento seja uma garantia de estabelecimento financeiro (no campo da educação, ainda que sofra-se com a baixa remuneração, a troca de serviço por capital é certamente mais regular que no mercado cultural atual).

Logo, teríamos a equação: escassa parcela de fomento + inexistência mínima de circuito de dança = abandono da criação pel@s artistas da dança e, consequente, direcionamento para a docência. Desconfio que talvez estejamos imers@s numa nebulosa mais complexa do que dá conta essa equação. E creio que, sobre tal, é preciso investigar e urgentemente reflexionar. Neste intuito, aplico fim ao segundo ato e convido uma última voz artística para embalar o terceiro momento deste solo.

 

3º ato

“Art is a garanty of sanity” [8]

— Louise Bourgeois

 

Segundo a artista francesa Louise Bourgeois, a arte é uma garantia de sanidade. Entre poesia por sanidade, sanidade por poesia, Louise me apresenta perguntas. A arte é garantia de sanidade para quem? Se sigo Gilles Deleuze – “um criador só faz aquilo que tem absoluta necessidade [9]” – tenho uma articulação de entrada. Certamente, em primeira instância, diante de uma necessidade pessoal, a criação seria uma garantia de sanidade para a/o artista. Uma gama mínima de personagens envolvidos em seus nichos próximos se afetariam por suas produções. Portanto, seu público, mesmo que restrito – seu bairro e/ou sua cidade – estaria possivelmente no campo de abrangência de sua criação de sanidade.

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Outra possibilidade interrogativa seria: se determinado Estado destina parte considerável de seu orçamento para a arte, trata-se de um Estado são, com governantes igualmente sãos? Por outro lado, conjecturando o inverso: se a cidade não investe na arte e não “cuida” de seus criadores, como andaria a sanidade coletiva? E se os próprios criadores, por motivos vários, “abandonam” totalmente ou parcialmente suas criações, não seria ainda mais grave? Quem somos nós, criador@s em dança da cidade de Juiz de Fora? Como temos nos relacionado com nossos processos de criação? De que modos temos gestado nossos “filhos poéticos”? Que tipo de cuidados temos, a eles, destinado?

O mundo alimenta a arte. A arte alimenta o mundo e, segundo Louise Bourgeois, torna-o são. As/Os artistas e suas criações alimentam as cidades, seus planos estratégicos, seus processos educacionais. Parece que em Juiz de Fora, por um lado, temos um deslocamento minimamente interessante, já que nesta cidade – segundo as vozes presentes no citado Fórum de Dança – há artistas nas escolas, ensinando dança. E, de fato, não deveriam ser destes, que forjam a criação, as cadeiras de ensino de arte nos múltiplos contextos onde a mesma se insere? (Digo isso porque sabemos que existem muit@s profissionais de outras áreas, afins ou não, atuando no ensino de arte por todo o Brasil.) São as práticas artísticas, a priori, que habilitam à educação em arte. E isto, de modo algum, quer dizer que outras práticas ou áreas não possam também alimentar a arte.

Trabalhar com o ensino da arte e – aqui em específico, da dança – nas suas distintas facetas, claramente tem (ou deveria ter) igual complexidade e exige tamanha formação quanto a de uma/um criador@, coreógraf@ ou bailarin@. É igualmente importante, se sou educador@ em dança, que meus olhos visualizem com certa frequência as produções coreográficas dos mais diferentes territórios e épocas. Que eu tome contato com espetáculos, videodanças, oficinas, palestras e discussões tangentes à área. E ainda, que preferencialmente eu lance meus campos de interesse pelas outras artes.

Por isso, e também por outros pontos, a/o artista e a/o educador@ teriam papeis absolutamente aproximados. A/O primeir@, assim como a/o segund@, seria responsável por educar os liames do sensível; e a/o segund@, assim como a/o primeir@, seria um@ articulador@ das ampliações de olhares, contatos com estados de corpo, novas configurações estéticas de si mesmo. Pois, afinal, parece haver um compromisso na criação: com a sanidade, não só coletiva, mas pessoal. Logo, faz-se importante que uma face de estética pessoal esteja em foco no trabalho dos artistas. Algo que @s greg@s denominaram “artes da existência”: uma disponibilidade pessoal em burilar-se, em tornar-se estético. Talvez para nós, criador@s em arte, trate-se também de reivindicar novos espaços em nós mesm@s para nossas criações.

Clamo para que nos ampliemos, Juiz de Fora: Princesa de Minas (como entoa seu hino), de traços doces e provincianos. Que nos ampliemos a nós mesm@s, artistas da província das fazendas e, a posteriori, das indústrias. Pois será que queremos mesmo, car@s artistas juiz-foran@s, ser como o Rio de Janeiro, como afirma nosso interlocutor estrangeiro André Bern? Talvez tenhamos como esta cidade, onde viveu a corte portuguesa, aproximações provincianas – em suas relativas proporções, é claro. No entanto, creio que nossos direcionamentos se alongam para outros territórios. Talvez não físicos ou distantes, mas de um tipo, sim, cosmopolita – só que dimensionado na imanência do ruído do trem e do tempo passando frouxo.

 

Raíssa Ralola é artista do corpo e crítica. Pós-graduada em Teatro e Dança na Educação, e em Metodologia Angel Vianna (FAV). É mestre em Artes (UERJ) e coordenadora assistente da Pós-graduação em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais na FAV. Divide moradia entre Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ).


NOTAS:

[1] Fragmento retirado do primeiro texto desta série de relatos críticos sobre o 5o. Festival Nacional de Dança de Juiz de Fora – “Do Oikos para a Polis” – de minha autoria.

[2] Segundo texto da série: “Nem tudo que reluz tem dança (ou Trocando Laranjas)”, de André Bern.

[3] “Lembro de ter pensado: ‘caramba, quantos espaços ocupados com dança, que maravilha!’. Mas como nem tudo que reluz tem dança, aquela era apenas uma primeira impressão, ainda que justificável, de um artista forasteiro. E é exatamente a partir deste ponto de vista nada imparcial que desenvolvo essas linhas.”

[4] “O bailarino clássico Marcus Vinícius, membro da Comissão de Dança da cidade, põe em xeque a própria denominação “nacional” do Festival: ‘Eu questiono esse lugar porque eu acho que ele poderia ser mais divulgado entre esse plano Brasil de dança (…) ele ainda é um festival que reúne uma microrregião que vai do Rio de Janeiro a Barbacena’.”

[5] “Uma outra questão que merece igual destaque é o aparente histórico de uma frágil interlocução entre as/os própri@s artistas em seus processos criativos na cidade. Penso que os trabalhos tornam-se pouco férteis, ficam aquém da potencialidade de suas/seus criador@s, sem bons advogad@s-do-diabo (colaborador@s, dramaturgistas (…), ‘olhares externos’, seja lá como se deseje nomeá-l@s) durante a gestação dos processos.”

[6] Representante da Câmara Setorial e Colegiado Setorial do Ministério da Cultura.

[7] Toninho Dutra (Superintendente da FUNALFA / Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Prefeitura de Juiz de Fora)), Gerson Guedes (Pró-Reitor de Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)) e Ieda Loureiro (Coordenadora de projetos da Secretaria de Educação).

[8] Arte é garantia de sanidade (em tradução livre).

[9] DELEUZE, Gilles. O Ato de Criação. Ver: http://intermidias.blogspot.com.br/2007/07/o-ato-de-criao-por-gilles-deleuze.html.

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