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O corpo-processo no vídeo “Mapa 01”

mapa 01 erika schwarz

O trabalho Mapa 01 (Vale­ Tudo), da cenógrafa e figurinista Erika Schwarz, esboça uma composição através do uso de objetos e produtos comprados prontos. A partir de um mapeamento do polo comercial S.A.A.R.A., no Rio de Janeiro, e de ações improvisadas relativas ao vestir, tenta entender as possibilidades performáticas do figurino no espaço urbano e como este pode estar cada vez menos relacionado a um fazer artesanal/tradicional – uma vez que a cidade oferece toda uma variedade de materiais e objetos. Objetos que, reorganizados, vão criando um corpo. Um corpo espetacular, um corpo contemporâneo.

 

eixo do fora#5: “Diálogo entre: o corpo-processo no vídeo Mapa 01 (Vale Tudo)”, por Dally Schwarz

>Como você vê a compulsão atual de consumir reverberando nos corpos e nos processos subjetivos para além da arte?<<

Acho que dentro desta compulsão que você fala transitam vários corpos desejantes e, ao mesmo tempo, múltiplas culturas (e sistemas) de consumo… O próprio espaço do S.A.A.R.A., com produtos falsificados ou “inspired”, marca um mercado específico, de certo modo, mais acessível ao priorizar diversidade e preços baixos, ao não se importar com o original, com a marca. Porém, ainda há o foco no capital, e apenas imaginamos a que condições de trabalho as pessoas que produzem esses objetos tão baratos são submetidas. Ironicamente, objetos que se transformam em alternativa de sobrevivência para os camelôs no Centro do Rio de Janeiro. Todo este debate, que é muito complexo e demanda um olhar crítico, pode ser pensado a partir de Vale Tudo. Mas é preciso ressaltar: o trabalho também surge de um local muito específico, onde é cristalizado um grande preconceito com materiais plásticos, brilhosos e qualquer item que não receba beneficiamento/pintura de arte ou que não seja completamente autoral. Portanto, há toda uma crítica a um fazer tradicional cênico que se utiliza do consumo para problematizar, mas que, de modo algum, objetiva uma apologia ao consumo. A própria velocidade com que as ações de vestir são desencadeadas na performance apresenta imagens que se desfazem rapidamente, não dando tempo de consolidar “personagens”/”personalidades” específicas – e esses improvisos nos levam a pensar como são os processos subjetivos nos descartáveis calendários da Moda.

mapa 01 erika schwarz
foto: João Julio Mello

Comprar/selecionar/criar

Vale tudo? É uma pergunta que aparece quando pensamos nessas mil possibilidades de identidades que a sociedade de consumo oferta e vende. Vale tudo aquilo que temos, desejamos, vale tudo que podemos. Mas vale tudo que nos vale. E de que valor falamos quando o que mede é o capital?

É  preciso  que  a  medida  seja  outra: atravessada  pelas  forças  do  desejo,  motivante, potencializadora  e  não  só  capitalizadora.  Os  objetos  podem  muito  mais  que  “agregar  valor”; podem transformar, ficcionalizar. Com sua potência mágica, como performance, eles ativam outros mundos  ou  nos  lembram  que  a  vida  é  performance; que somos atores e nossas identidades são máscaras, muitas.

>> De que forma o objeto torna-se muito mais que um objeto em seu trabalho? E como você vê essa relação da máscara com o objeto?<<

Penso que o deslocamento do objeto, mais que o objeto em si (como recurso plástico), é fundamental para o meu trabalho. O estranhamento que ocorre durante este desvio do banal acaba problematizando o próprio cotidiano, logo, certas noções da realidade. A máscara do trabalho é, portanto, toda camada espetacular da performance (com suas ações e seus “objetos de vestir”), não só o adereço de cabeça de panda utilizado ao fim. No entanto, é nítido que este último item marca uma transição de corpos na performance: deixo de ser a mulher louca que se veste esquisito nas ruas do Centro do Rio para me transformar em uma figura espetacular heterogênea, um corpo acumulado e mascarado que, principalmente, esconde o rosto humano, não podendo mais ser identificado.

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mapa 01 erika schwarz
foto: Mauricio Lustosa

Ocupar/Jogar/Criar

É, então, na esfera da criação, que o estranho aparece, que essa “montação” corporal revela nossa monstruosidade e também nossa identidade completamente composta por uma colagem esquisita, que não tem lugar, em que fica difícil configurar uma identidade fechada. São tantas referências, informações e composições que o corpo vira um vale tudo mesmo! Os agenciamentos são feitos via consumo – seja cultural, de bens, ideias, dos outros. É preciso pensar sobre esse jogo perverso do capital, é preciso criar formas de burlar as regras e reocupar o corpo!

>> Como foi viver esse corpo esquisito e vivenciar a monstruosidade dessa montagem?<<

Bem, em primeiro lugar, foi uma experiência muito interessante, pois, a priori, a função da figurinista é vestir outro corpo, e não ser a performer. No entanto, o meu trabalho sobrepõe, propositalmente, estas duas camadas artísticas, problematizando certas questões tradicionais (de certo modo, modernistas) meio que já inerentes à ficha técnica teatral. Acho que esse corpo apresentado pelo trabalho é, como você sinalizou, um corpo-processo, ou diversos corpos que se alternam: o corpo da figurinista que escolhe os objetos (artista e consumidor), o corpo que veste e brinca com as composições, as imagens (gêneros, funções, épocas…) evocadas pelos diversos trajes no corpo e, finalmente, esse corpo-monstro final. A ideia de monstro me remete aqui ao fantástico e também ao deformado/aumentado… E penso que esse efeito foi possível, em Vale Tudo, pela simples presença desse “monstro” nas ruas, a “quebrar” a rotina banal dos observadores.

Para conhecer mais o trabalho de Erika Schwarz, visite www.erikaschwarz.com.

Assista a Mapa 01 (Vale Tudo) aqui embaixo:

 

Dally Schwarz é formada em Estudos de Mídia na UFF. Mestranda em Linguagens Visuais na Escola de Belas Artes da UFRJ, interessa-se pelas imagens do corpo, pela performance e questões feministas e de gênero nas artes. Dança e se pendura para entender melhor seu corpo e os corpos.

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally para ctrl+alt+dança.

 

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