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[textos] eixo do fora#6: "4 contos que vinham de longe, aqui tão próximos", por Dally Schwarz

4 CONTOS QUE VINHAM DE LONGE, AQUI TÃO PRÓXIMOS [*], por Dally Schwarz

 

Os guardiões das escadas e o barulho da Mbira

Ali, perto do Cais do Valongo, num casarão muito antigo, parece que foi a primeira escola pública do Rio de Janeiro. Nem sei bem se na época era chamado Rio de Janeiro… sei que foi alí. Tinha uma escada gigante de madeira escura guardada por um dragão. Um não, dois dragões, guardiões das escadas! Dois dragões negros. Subimos as escadas, pois ouvíamos um barulhinho, um barulhinho de água, que também parecia barulhinho de caixinha de música. O som nos guiava, como folhas que dançam nos riachos, e deslizávamos pelos degraus das escadas. No alto, estava um homem, negro, com cabelos enormes, e uma mulher, negra, com olhos de nozes. Os dois em completa sincronia. Acho que não nos viram, pois ficamos espiando. Ele tocava um instrumento e ela tocava com os pés, o corpo todo.

A mulher que peneirava o tempo

Uma peneira grande, levada ao lado esquerdo da cintura. Uma mulher toda pintada carregava terras e terras, de milhares de anos, por entre diferentes locais do mundo, atravessando oceanos, perfurando histórias. Seus cabelos, crespos, presos ao alto da cabeça, que nas raízes começavam tranças e, no topo, faziam vulcão e chumaço de flor. Ela peneirava o tempo, junto com as forças de Nanã, mãe, mãe terra. O som era dos pés roçando no chão, e o tempo assim ia passando, nos ruídos dos pés, que acarinhavam o chão todo de taco do mesmo casarão.

O homem sentado, a velha e a chuva

Era uma aldeia, em algum lugar que o rio corta e onde o tempo ainda não foi aprisionado no relógio. Lá vivia um homem, uma velha e a chuva. O homem vivia sentado. Seu único gesto era o de bater um pequeno sino, que produzia um som, o som do universo. A velha vivia andando de um lado pro outro, ciscava como galinha. A chuva corria, dançava, pingava e produzia furacões, ventanias, colheitas, secas. Até que um dia, no encontro da velha com o homem, fundiu-se o espaço e o tempo e fez-se o mar, o mundo e todos os seres que habitam hoje a terra.

Leia mais:  Oficinas no Rio de Janeiro: Eutonia e Movimento Expressivo + preparação para intervenção urbana

 

Onde pego água quando tenho sede?

Um preto velho reuniu duas irmãs em um pequeno vilarejo para lhes falar de antigas cantigas e conhecimentos sábios sobre o mundo, e sobre África. Ele portava tambor e instrumentos de chiados de água e de vento. Instrumentos de cordas, cabaças, sementes e fios. As duas irmãs aprendiam as cantigas, os barulhos do mundo, e dançavam. Ele as perguntava em dialeto secreto: onde pego água quando tenho sede? E elas respondiam: quando tenho sede pego água.

As histórias, cantigas e danças são formas de culturas primevas. Estão presentes até hoje na nossa cultura, tão híbrida, tão permeada. Aconteceu no mês de janeiro do ano de 2014, o encontro África Diversa, no Centro Cultural José Bonifácio, no Rio de Janeiro. Lá me encontrei com Aline Valentim – bailarina, professora e pesquisadora de dança afro-contemporânea – e Fábio Soares – músico, contador de histórias, pesquisador da cultura banto e construtor de instrumentos sonoros étnicos. Contamos histórias, inventamos histórias, dançamos, compartilhamos nossas ancestralidades e soamos contemporâneos. E, como toda semente plantada, é importante que o vento espalhe, que o vento sopre em muitos outros ares e possa espalhar a notícia que a Africa está aí, ecoando em nossas veias latinoamericanas, ameríndias, afrodescendentes.

 

Para conhecer o trabalho de Aline Valentim:

http://www.alinevalentim.com.br/

 

Para conhecer o trabalho de Fábio Simões:

Kalimbaria (no Facebook)

 

Link do evento:

http://www.africadiversa.com.br/

 

 

Dally Schwarz é formada em Estudos de Mídia na UFF. Mestranda em Linguagens Visuais na Escola de Belas Artes da UFRJ, interessa-se pelas imagens do corpo, pela performance e questões feministas e de gênero nas artes. Dança e se pendura para entender melhor seu corpo e os corpos.

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally para ctrl+alt+dança.

[**] Todas as imagens presentes nesta postagem são do fotógrafo Diogo Oliveira.

 

 

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