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[textos] "Atração/Repulsão – Dança no Museu", por Daniella de Aguiar

ATRAÇÃO / REPULSÃO – DANÇA NO MUSEU [*], por Daniella de Aguiar

 

A noite de abertura do DançaMAMM teve em sua programação artística Cut-Out, de Rodrigo Andreolli, e Atração/Repulsão, duas perguntas acerca de direção, de Raíssa Ralola e Rodrigo Andreolli. Antes disso, iniciei o evento com uma palestra intitulada “Dança e Literatura – relações de criação”. O encerramento foi uma rápida conversa entre os artistas e o público.

 

Cut-Out à alta tensão muscular

Um vai-e-vem de impulsos corporais que respondem e dialogam com diferentes estímulos de luz. Lâmpadas de LED são acesas a partir do chão; um refletor preenche a diagonal. Em seguida, um “estrobo” ocupa todo o espaço da cena. Rodrigo criou diversos desenhos de luz e sombra através de uma tensão corporal crescente, que é liberada, por desistência, aos poucos. Desde o início, o trabalho é um diálogo entre luz e corpo, entre intensidade luminosa e tensão muscular.

 

Atração/Repulsão, duas perguntas acerca de direção à baixa tensão muscular

[foto: Claudia Rangel]

Se o primeiro trabalho da noite foi um diálogo entre tensão muscular e luz, o segundo é um diálogo entre dois corpos. Em Cut-Out, o diálogo ocorre pela tensão da iluminação, afetando o corpo que também se tensiona. Em Atração/Repulsão, o diálogo tem lugar quando diminui ao máximo a tensão muscular para alcançar um estado de escuta sutil, possibilitando que os dois criadores-intérpretes pudessem se ouvir. É oferecido ao público um exercício constante de busca de um estado, talvez impossível, em que se consegue sugerir direções espaciais, um do outro, sem a visão.

Nesta noite de abertura, há ainda outro diálogo sobre o qual deve-se mencionar algo: entre dança e museu e, a partir dele, entre dança e artes visuais. Diversos museus abrem seus espaços para eventos de dança como parte de suas programações. Pode-se citar, por exemplo, o Museu de Arte Moderna (MOMA), nos EUA, que tem em sua programação fixa um espaço para performances, incluindo apresentações de dança.

No MOMA, as últimas apresentações são de Eszter Salomon (Dance for Nothing), em janeiro de 2014. No ano passado, houve o programa de três semanas Musée de la danse: Three Collective Gestures [1], concebido pelo coreógrafo francês Boriz Charmatz. Em 2012, um programa de três semanas Some sweet day [2], com apresentações de coreógrafos contemporâneos, tais como Steve Paxton, Jérôme Bel, além de conversas com Deborah Hay e Sarah Michelson.

Também há espaço para apresentações de dança como parte de grandes exibições, como é o caso da exposição On Line: Drawing Through the Twentieth Century [3], acerca do desenho e suas transformações no século XX. Uma série de apresentações (principalmente de dança) fez parte da exposição, com trabalhos de coreógrafos como Trisha Brown, Anne Teresa de Keersmaeker e Xavier Le Roy. A Bienal de Veneza criou em 1998 uma seção de dança, e convidou coreógrafos como Carolyn Carlson e Ismael Ivo. No Brasil, o Museu de Arte do Rio (MAR) recebeu a exposição coreográfica de Xavier Le Roy, Retrospectiva, e outros coreógrafos, para apresentações de obras e oficinas, como é o caso de Denise Stutz. O Museu de Imagem e Som (MIS) de São Paulo também oferece em sua programação o “Dança no MIS”.

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Estes são alguns exemplos de instituições, tradicionalmente de artes visuais, que nos últimos anos têm dedicado espaço para a dança. Não é meu propósito fazer uma lista destas instituições. Os exemplos ilustram o fato de que a dança está cada vez mais participante das atividades dos museus.

Dança e artes visuais têm uma relação relativamente antiga. Exemplos incluem desde pintores futuristas italianos como Giacomo Balla e Enrico Prampolini, que trabalham com dançarinos no início do século XX, ao balé Parade, de 1917, que reuniu Erik Satie, Pablo Picasso, Jean Cocteau, e Léonide Massine. Muitos escritores mencionam o modo como Merce Cunningham colaborou com artistas visuais em sua obra. Há ainda outros exemplos conhecidos, da Judson Church Dance Theater, que regularmente colaboraram com artistas visuais como Trisha Brown, Lucinda Childs e Anna Halprin, só para citar alguns.

Mas, pode-se perguntar: o que significa a dança no museu? Que tipo de mudanças a transposição de espaço, do teatro para o museu, pode produzir neste contexto criativo? A dança pode ser simplesmente colocada no museu para trazer novidade e movimento aos espaços de exibição de artes visuais, ainda relativamente estáticos. Também é possível que coreografias concebidas para espaços convencionais sejam apenas apresentadas nos museus, o que é obviamente diferente de trabalhos que foram intencionalmente criados para o espaço do museu. Há ainda diversas questões que podem ser feitas, mais ou menos ordinárias, mas cujas implicações não são triviais: sobre o espaço oferecido pelo museu, que é, em princípio, inadequado para apresentações de dança – não oferecendo, por exemplo, espaços para descanso entre performances, ou camarins; sobre a atenção dividida dos espectadores entre várias obras no espaço do museu, e o tempo dedicado a cada uma delas, consideravelmente diferente dos espaços em que a dança é normalmente apresentada.

Algumas questões para iniciar alguma discussão:

Como a dança pode se beneficiar deste novo contexto?

Que tipo de desafios e restrições o espaço de exposição e suas peculiaridades exercem sobre a criação?

Como os criadores devem se aproveitar destas novas possibilidades, com a abertura do museu para a dança? Como?

No caso do DançaMAMM, para a surpresa das organizadoras do evento, a plateia estava repleta de indivíduos que não frequentam habitualmente eventos de dança contemporânea em Juiz de Fora. Este é apenas um dos aspectos que o diálogo com o museu pode incrementar, criando um novo público para a dança contemporânea.

 

 

Daniella de Aguiar atua como criadora, performer e pesquisadora de dança. Atualmente, é pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários na UFJF, com pesquisa sobre dança e literatura. Seu trabalho artístico tem foco nas relações entre dança, outras artes e tecnologias.

 

[*] Relato crítico sobre o evento DançaMAMM, realizado no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes (MAMM), em Juiz de Fora (MG), em 5/out/2013.

 

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