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[textos] "Re…", por Adriana Barcellos

RE, por Adriana Barcellos

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“Os corpos ressuscitados são guerreiros mais belos porque trazem nas suas mãos as cores do arco-íris. E os corpos se transformam então em semente que engravida a terra para que nasça o futuro…” Rubem Alves [1]

[Adriana Barcellos / foto: Stefan Patay]

Na semana da Páscoa, saindo de um curso, deparei-me com um livro; ou um livro deparou-se comigo! Sincronicidades a parte, chamava-se “Creio na Ressurreição do Corpo”, escrito por Rubem Alves. A beleza da capa, a simpatia antiga pelo autor, ou o tema (ou tudo junto) fizeram-me adquiri-lo naquele final de tarde, final de dia no centro nervoso da cidade do Rio de Janeiro.

Depois de conseguir transpor as ruas, driblar os carros, correr nos sinais, nas obras da Copa/Olimpíada, cheguei ao ônibus, e imediatamente abri o livro. Até chegar ao meu destino, já tinha terminado o primeiro capítulo; e com ele o sentido de Ressurreição ficou grudado em mim, mais especificamente o prefixo ‘RE’.

Desde então, esse ‘RE’ tem estado comigo, fazendo-me pensar nos momentos que vivi, nos sonhos que realizei e outros que andam por debaixo do travesseiro; nas pessoas que amo e amei, nas muitas que ainda amarei, nos dias que passaram e não voltam, no futuro que construirei… E foi assim que fiquei, com esse ‘RE’ no meu encalço, REpensando, REpassando, REvivendo, REavivando, RElembrando, REfazendo, REsgatando, REelaborando, REativando, REanimando, REbobinando…

Comecei a criar novos ‘REs’, REsonhando, REolhando as flores, REouvindo as cigarras, REsentindo os perfumes de outrora, REcontando as estrelas, REabraçando as pessoas que já partiram, REcantando e REdançando. Me peguei nesse lapso na flecha do tempo que a princípio só tem uma direção, e subvertendo esse espaço-tempo com meus ‘REs’, vivi os passados e os futuros. Sem cristalizar na horizontalidade da causalidade, consegui REviver meus erros e acertos sem ficar presa a eles. REvivi cada momento não com tristeza ou saudosismo, mas com a potencialidade da vida que nos cerca (e que às vezes nem percebemos). REviver foi uma preparação para mais espaços, mais tempos, mais cheiros, mais cores, abraços e beijos.

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Talvez seja esse o sentido da REssurreição Cristã que se comemora na Páscoa. Uma REflexão do que somos e vivemos, para (ainda em tempo) não desperdiçarmos a vida que nos foi dada, na realização do que somos capazes de fazer, sem medo, preguiça ou acomodação.

Talvez seja tempo de dividir os ambientes virtuais com a vida real, de trocar abraços verdadeiros e gargalhadas com as pessoas que amamos. De buscar os desejos antigos e REativar os sonhos, de lutar pelos direitos mais simples e não desistir quando esbarrarmos em dificuldades.

Talvez seja tempo de assumir ou REassumir o controle de nós mesmos “com todas as nossas quinas e cantos” [2], como diz Jung.

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[1] ALVES, Rubem. Creio na ressurreição do corpo: meditações. São Paulo: Paulus, 1984.

[2] KAST, V. A Dinâmica dos Símbolos: fundamentos da psicoterapia junguiana. São
Paulo: Loyola, 1997.

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Adriana Barcellos é doutoranda em Artes da Cena, pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Pesquisa relações entre processos criativos em Dança e Inconsciente, seguindo a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Atua como professora da rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro, onde desenvolve projetos de Dança-Educação que estabelecem pontes entre o pensamento do educador Paulo Freire e a Teoria Fundamentos da Dança, de Helenita Sá Earp.

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