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[textos] "Nihil Obstat": Gabriela Alcofra e Danielle Greco compartilham impressões sobre o espetáculo da J.Gar.Cia Dança Contemporânea

[Cena de Nihil Obstat, da J.Gar.Cia Dança Contemporânea / foto: divulgação]

DE ONDE VOCÊ VÊ?, por Gabriela Alcofra

Depois de assistir a Nihil Obstat, da J.Gar.Cia Dança Contemporânea, no aconchegante espaço da Capital 35 em São Paulo, saio com perguntas que vão para além das características e escolhas daquele espetáculo, que me fazem refletir sobre a dança, seu mercado cultural e minha posição enquanto público, criadora e performer.

São Paulo é uma cidade muito grande, que aporta uma pluralidade cultural, além de uma efervescência e produção crítica. Sem entrar nos pormenores das dificuldades das produções culturais – que, julgo eu, fazem parte de um sistema maior e não afetam somente São Paulo, mas todo o Brasil – vejo aqui escolhas estéticas coexistindo, e modos de pensar também. No entanto, a minha questão é: somos assim tão compreensíveis com a diferença?

Minha impressão (que é ainda uma lente grossa, um primeiro pensamento e, por isso, ainda cru e generalizado) é que estamos, na maior parte das vezes, insatisfeitos com o que vemos. Sei que parece um pouco pessimista, mas me soa que nesse exercício crítico (que pode ser super saudável), e na ansiedade de sempre querer algo novo e diferente, tudo sempre deixa a desejar. O eco que me chega aos ouvidos se parece, de alguma forma, como: se tem muita ideia, falta movimento; se tem muito movimento, falta profundidade; se tem ideia e movimento, falta coesão; se tem coesão, falta emoção… E essa é uma roda sem fim.

Sinto que às vezes nos isentamos dessa responsabilidade compartilhada da manutenção de algo que nos agrade – e do fazer essa manutenção enquanto produção ativa e não apenas enquanto julgamento. É claro que o exercício crítico, o olhar apurado e todos os “feedbacks” são elementos fundamentais para que haja algum diálogo na produção artística, mas como podemos ponderar mais, fazer mais, compreender mais estando no lugar do outro? Sim, pois a impressão (de novo as lentes grossas) é a de que, depois do espetáculo, sempre comentamos algo sobre o que faríamos se ele fosse nosso – não tentamos o exercício de pensar através do olhar do outro.

Não, o espetáculo da J.Gar.Cia Dança Contemporânea não é sobre isso exatamente, mas acabou se tornando um ponto chave para trazer essa discussão à tona. Nihil Obstat tem uma escolha clara pela plasticidade tanto do corpo, que se movimenta com vigor, presença e virtuosismo, quanto dos elementos cênicos – seja pelas paredes com pichações, os objetos utilizados em cena ou até mesmo pela casa que nos recebe a céu e cozinha abertos.

Sozinho em cena, Jorge Garcia dá a ver o risco, o acaso, a determinação. Mesmo só, ele não se torna protagonista da cena. Com seu corpo, ele conduz olhares, passagens, recortes na relação do corpo com o objeto e do objeto com o espaço. O tempo todo em cena, um cavalo de brinquedo amarrado tenta caminhar e sempre cai porque está preso.

O que nos prende nesse momento? Qual é o motor que nos faz caminhar? Ou ainda: quem nos levanta para que possamos continuar caminhando?

De onde você vê?

As escolhas de Jorge assumem uma posição na dança – assim como a minha escrita, a sua dança, o seu pensamento, a minha dança, a nossa dança.

 

 

Gabriela Alcofra é bailarina, pesquisadora e professora. Estudou Dança Contemporânea na Faculdade Angel Vianna e Ciências Sociais na UFRJ. Atualmente cursa mestrado em Artes na UNICAMP. Mora em São Paulo (SP) e adora criar asas em palavras.

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[fonte: ciajgarcia.com.br]

NADA IMPEDE, por Danielle Greco

“Nada impede” é a tradução do latim Nihil Obstat, título do primeiro espetáculo da trilogia Imprimatur (“deixem-no ser impresso”), projeto da J.Gar.Cia Dança Contemporânea contemplado pelo Programa Municipal de Fomento à Dança de São Paulo. Imprimatur é uma declaração da Igreja Católica – indica que um trabalho literário ou similar não vai contra suas ideias e que é uma boa leitura para qualquer católico. A trilogia mapeia as fases do diretor e coreógrafo Jorge Garcia, revisitando e refletindo sobre a seleção e a legitimação de uma obra de arte.

Nihil Obstat é uma obra que aspira ser publicada, que se mostra como um jogo de tensões entre vontades, escolhas, permissões. Assim se inicia a trajetória proposta por Jorge Garcia nesta trilogia: em um espaço alternativo, onde atividades do fazer artístico e do cotidiano se mestiçam, uma casa-residência transformada em centro cultural, em lugar de encontro, de percepção, de ação. O espaço do público é o quintal de uma casa, entre a cozinha e o “palco”, onde é possível saborear sensações gastronômicas e artísticas simultaneamente. Tensões espaciais, vetores de forças expandidos à meia luz do quintal de uma casa.

As paredes do lugar onde o artista propõe a experiência estão repletas de frases, informações, palavras, desenhos, trajetórias. Há tropeços. Abre-se uma brecha no cotidiano do público para refletir sobre composição coreográfica em jogos de espacialidade que integram música, luz, brincadeira, vida e morte. O bailarino se relaciona com elementos da arquitetura, com um cavalo preto de brinquedo que não cessa de caminhar, caixas de som, feixes de luz, uma escada, paredes. O público ali observando atentamente.

Durante o espetáculo, começo então a refletir sobre os mecanismos e programas de ação/pensamento/movimento que o artista utiliza para criar a obra em questão. Coreografia, a pesquisa de movimento e os campos relacionais de corpo-espaço vão sofrendo mudanças radicais ao longo do espetáculo, levantando questões importantes sobre a produção atual em dança contemporânea.

Como dar luz a uma pesquisa de movimento própria, uma trajetória artística? Como dar luz à historia das coisas e dos espaços com os quais nos relacionamos? Como desprogramar o movimento? Como desprogramar os mecanismos atuais de produção, as linhas de forças e vetores de uma mão só, a realização de dança contemporânea brasileira?

Saio da casa 35 na Rua Capital Federal com esses questionamentos, trazendo-os para a minha casa, para o meu cotidiano, para minha trajetória como artista-público. Julgamentos, permissões, deferimentos, inabilitações são palavras às quais a dança contemporânea está sujeita – às quais eu estou sujeita – como então desprogramar este movimento?

Talvez a trilogia possa trazer contribuições para tais pensamentos: a compreensão de uma arte onde a parte não se explica solo, mas sim no todo, no espaço relacional e na desprogramação de padrões e hábitos de construção e produção.

 

 

Danielle Greco é artista do corpo e arte-educadora. Bacharel em Turismo pela Universidade Anhembi Morumbi e em Comunicação das Artes do Corpo pela PUC/SP. Criadora, pesquisadora e representante do Coletivo TraçaUrbana, que busca através do projeto estadosDEpassagem dar vazão a inquietações relacionadas ao corpo, cultura e arte nos lugares de passagem. É paulista, mas prefere o entre-lugar SP-RJ.

 

 

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