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[textos] "Três perguntas sobre 'Aglomerações'": Aline Bernardi entrevista Túlio Rosa sobre trabalho a ser apresentado em festival de arte contemporânea em São Luís (MA)

Nesta quinta-feira (15/mai, às 19h), Túlio Rosa apresenta Aglomerações no II Festival de Arte Contemporânea do Maranhão (FACMA). Duas versões anteriores do trabalho aconteceram, respectivamente, em Vitória (ES) – em colaboração com o Grupo Z de Teatro – e em Buenos Aires (ARG) – como encerramento de uma residência artística realizada em parceria com a performer Aline Bernardi (confira nossa postagem de 16/fev deste ano).

Conforme explica o artista:

O trabalho tem questões bastante específicas e fiquei nesses dias pensando em uma maneira de divulgar que seja também capaz de aproximar as pessoas da proposta do trabalho. E aí convidei a Aline, que é super amiga e colaboradora do trabalho, para me fazer três perguntas sobre o Aglomerações, o que resultou numa espécie de mini-entrevista. É um material exclusivo, pensado especialmente pro CTRL.

Aglomerações acontecerá na Guest House Portas da Amazônia, localizada na Rua da Palma, 142 – Centro Histórico de São Luís (MA). Abaixo, eis o bate-papo entre Túlio e Aline disponibilizado com exclusividade para ctrl+alt+dança.

 

 

TRÊS PERGUNTAS SOBRE AGLOMERAÇÕES – MINI-ENTREVISTA COM TÚLIO ROSA, por Aline Bernardi

 

Aline Bernardi: Que tipo de relações podem nascer da proposta do Aglomerações com o lugar/cidade em que ele se realiza?

Túlio Rosa: Aglomerações é um experimento que eu venho desenvolvendo desde o ano passado a partir de uma ideia/conceito de proposição. Uma proposição, nesse sentido, não é de antemão uma obra em si, ela se torna obra na medida em que é realizada, e existe apenas enquanto um grupo de pessoas permanece junto em torno da proposta. Ou seja, Aglomerações é, antes de tudo, um convite para estar junto e descobrir juntos o que pode se configurar a partir desse encontro. E a ideia é definir sempre o mínimo possível, como num encontro mesmo: você determina a hora e o lugar, e é vivendo o encontro que você descobre como ele se dá. O que quero dizer é que o Aglomerações é feito por pessoas, e que quando é realizado num lugar, ele está naturalmente encharcado das experiências, relações e presenças que esse lugar proporciona. Eu acho que o diálogo com a cidade talvez não seja tão direto na medida em que ele acontece através do que cada um dos participantes traz das experiências que teve nessa cidade. Assim como as características de cada edição do Aglomerações tem a ver com as características das pessoas que estão ali, e que naturalmente também acabam atravessando uma série de códigos sociais, de modos de conduta que estão relacionados com o viver nesse lugar. Quando eu penso em cidade sempre me vem à cabeça a ideia de fluxo, de ritmo. Talvez essas relações de que estamos falando, entre o trabalho e o lugar onde ele acontece, estejam bastante ligadas aos fluxos e ao tempo que essa cidade costuma produzir e que acabam ficando impressos nas pessoas, ao jeito que elas têm de se relacionar com seu entorno e entre si.

Aline: De que forma o Aglomerações convida os participantes a viver estados performativos? Qual caminho ele propõe?

Túlio: Eu acho que tem duas coisas nessa questão da performatividade. Primeiro, penso que o trabalho propõe um deslocamento que é bastante conceitual, na medida em que ele propõe um encontro sem regras nem maneiras de agir pré-definidas, mas que configuram uma obra, um trabalho artístico. Não é necessariamente o que está acontecendo que é “performático”, mas o modo de olhar para isso associado ao contexto em que essa ação está inserida. E por isso acho que esse deslocamento acaba se dando a partir do olhar que cada um vai ter sobre o que está acontecendo. O nome tem a ver com essa ideia de que o trabalho se compõe de todas as pequenas ações que estão presentes ali, durante esse encontro, e uma compreensão de que cada ação é potencialmente performativa na medida em que revela um modo de operar no tempo e no espaço, e que inserida nesse contexto pode ser entendida como uma proposição ou uma provocação para o restante das pessoas, e que pode, inclusive, gerar outras ações e outras formas se colocar em relação isso que se fez presente. O outro aspecto dessa questão acredito que passa também por um modo de pensar esse contexto, mas que tem a ver com uma certa liberdade de ação que o Aglomerações propõe para quem se dispõe a participar. O trabalho cria uma espécie de recorte no cotidiano, e produz uma ficção sobre o que poderia ser uma simples reunião de pessoas, transformando esse encontro num campo de possibilidades, numa espécie de palco aberto, de folha em branco que pode ser preenchida da maneira que as pessoas quiserem. Isso permite, por exemplo, que o desejo de “performar” de alguém encontre com o silêncio e o olhar de outras pessoas, e que disso surja uma canção, ou uma dança. Ou até mesmo que alguém que já vem desenvolvendo um trabalho artístico resolva apresentar o que vem pesquisando ali, sem que isso seja uma apresentação anunciada ou uma ação isolada do contexto. Tudo pode fazer parte, e nada do que efetivamente acontece pode ser excluído. O Aglomerações propõe justamente uma subversão dessas hierarquias e divisões que a gente ainda experimenta no campo da arte. Ele pode ser ocupado por um grupo de teatro, por exemplo, que resolve fazer um espetáculo. Ou se transformar numa jam. Mas o que me parece mais interessante é que isso não quer dizer que o espetáculo ou a jam se tornem uma prioridade ali dentro. Qualquer um pode intervir no que está acontecendo, ou propor alguma outra ação paralela. Não existe nunca uma única voz ou uma única decisão, o trabalho todo se compõe das vozes, silêncios e decisões de cada uma das pessoas que estão ali.

Aline: De que maneira o Aglomerações constrói um contexto de sustentação de ações?

Túlio: A única forma de sustentar esse campo que o trabalho propõe é através do coletivo, do desejo e do engajamento das pessoas que estão ali. Assim como o trabalho se faz daquilo que acontece, ele se sustenta com o interesse, ou se desfaz com o abandono das pessoas. O contexto, para além daquilo que é proposto no primeiro convite, vai se moldando e transformando a cada instante, e os contornos de cada ação vão sendo dados pela maneira com que essa ação reverbera no coletivo. É a apropriação pelas pessoas daquilo que surge nesse contexto que faz com que o trabalho se desenvolva e se sustente. Não existe um jeito, ou uma forma pré-ensaiada, não existe uma preparação nesse sentido. O desafio, me parece, é despertar e produzir um interesse nas pessoas pela proposta, e essa é também uma das questões que mais me mobilizam nesse tipo de produção artística. Como ativar o desejo do outro através de um convite? Como criar um campo que seja ao mesmo tempo permeável e potente, sem lançar mão de algum tipo de estratégia de controle? É isso que eu venho tentando descobrir a partir desse trabalho, é uma busca constante por um modo de produzir que seja capaz de diluir cada vez mais os papéis de performer e público, de se afastar das noções de processo e “obra”, apostando na possibilidade de uma criação que é também uma prática compartilhada, um modo de experimentar relações com o mundo.

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Aline Bernardi é bailarina, atriz, poetisa e professora de dança com foco de pesquisa em improvisação. É co-fundadora e idealizadora do coletivo Encontros Sutis – grupo fomentador de contato-improvisação no Rio de Janeiro.

Túlio Rosa é artista, formado em Licenciatura em Dança pela Faculdade Angel Vianna. Sua experiência articula as linguagens do teatro e da dança. Desde 2009, desenvolve projetos solo, e em colaboração, no campo das artes cênicas e performance.

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