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[textos] Videodança com qualidade de seda: Bia Morgado entrevista a coreógrafa-cineasta Andrea Davidson

Coreógrafa-cineasta e artista multimídia premiada, com trabalhos apresentados em festivais, exposições e instituições de arte em todo o mundo, Andrea Davidson vem pela primeira vez ao país, convidada pela edição 2014 do Dança em Foco – Festival Internacional de Vídeo e Dança. A artista ministrará a masterclass “Ampliando o discurso sobre a videodança: dança e novas mídias” neste sábado (31/mai, às 18h), no Museu de Arte do Rio (MAR).

Em entrevista concedida a Bia Morgado, pesquisadora em Artes e assessora de comunicação do Festival Dança em Foco, Andrea falou de suas convicções e expectativas sobre as novas formas coreográficas que surgem, cada vez mais, a partir do contato com interfaces digitais. Para ela, a relação entre dança e tecnologia abriu potencialidades expressivas inéditas e novos paradigmas estéticos, desafiando a compreensão tradicional de coreografia, corpo e performance. “Entre outras coisas, eu acho que a videodança tem uma qualidade de seda, é sensual, e também serve para enfatizar o ritmo de uma coreografia”, afirma.

 

 

ENTREVISTA COM ANDREA DAVIDSON, por Bia Morgado

[Tradução de Regina Levy]

 

 

Bia Morgado: Sua formação artística começou na École Nationale de Ballet du Canada, em Toronto. Quando e por que se interessou pelas possibilidades da dança em sua relação com as imagens técnicas?

Andrea Davidson: A cadeira de história da arte fazia parte do currículo dessa Escola. Por isso, desde os 10 anos, eu já tinha noções de artes visuais, fotografia e arquitetura. E amei este curso! Muito mais tarde, em uma noite quando eu me preparava para dançar um solo, usei minha câmera de vídeo para gravar e compor a coreografia. A partir desse momento, comecei a me interessar por edição, que era o que eu estava fazendo no momento, entre dois videocassetes! Quando cheguei a Paris para um mestrado em videodança, eu comecei a criar meu primeiro videodança que, além de minha pesquisa acadêmica sobre o meio fílmico, me deu uma experiência direta da imagem da dança e da montagem, desta vez em um computador!

BM: Como você entende o termo “videodança”? O que o vídeo torna possível de ver que o público não conseguiria acessar assistindo a uma coreografia ao vivo?

AD: Primeiramente, é um outro formato de expressão que não é a cena. E esse formato carrega suas próprias possibilidades. É, portanto, uma forma de arte híbrida e eu diria também distinta, ou seja, a partir do desenvolvimento de uma linguagem própria, cria uma nova visão da linguagem da dança. Entre outras coisas, eu acho que a videodança tem uma qualidade de seda, é sensual, e também serve para enfatizar o ritmo de uma coreografia.

BM: Como contextualizar a diversidade de trabalhos, que surgem de diferentes compreensões sobre a relação entre dança e as novas mídias? Quais os desafios para os artistas que criam nessas fronteiras?

AD: Novas “cenas” digitais estão surgindo com as novas mídias. Elas dão origem a novas formas de dança, bem como novas maneiras de recepção da obra coreográfica, que eu chamaria de “nova relação para dançar”. Cada novo meio, em sua capacidade e potencialidade de perspectiva abre novas concepções do relacionamento. Aplicativos para telefones celulares, por exemplo, são usados ​​para captar coreografias coletivas, tais como em flashmob ou percursos em diversos locais da cidade onde você pode assistir as cenas de dança em seu smartphone. Ou para intervir de várias formas ao longo de uma coreografia encenada em um teatro. As possibilidades criativas com estes meios dependem apenas da imaginação dos artistas. Pessoalmente, eu acho interessante a ideia de desviar os usos habituais de novas mídias. Este foi o caso de “Inter_views”, um espetáculo que criei com um colega, em 2009, em que usamos o streaming via Internet para desenvolver um dispositivo visual que permitia ver a coreografia evoluir em vários espaços-tempos através de uma mise-en-abyme da ação cênica.

 [DiaPH (2012), com colaboração de Olivier Koechlin, servovalve, Dominique Besson e Antoine Schmitt]

BM: O que o digital pode oferecer ao mundo da dança e, inversamente, o que a dança pode oferecer ao mundo tecnológico?

AD: Claramente, o rápido desenvolvimento de tecnologias e sua imbricação na sociedade não param de progredir. Apesar da opinião de alguns de que a dança se basta nela mesma, é perfeitamente normal que os artistas adotem essas tecnologias para se expressar. Neste contexto, uma das contribuições específicas de dança seria fornecer uma estrutura para a experiência somática e compreensão para lidar com o espectro das atividades humanas envolvidas com a tecnologia. Outra vantagem da dança é nos fazer lembrar do potencial expressivo extraordinário do próprio corpo. Com artistas que se atrevem a transcender polarizações virtuais estagnadas em corpo / máquina, carnal / virtual, natural / artificial, humano / não-humano, a dança e as novas mídias têm o potencial de gerar novas metáforas para a era digital, enquanto questionam nossa(s) relação(ões) com o mundo tecnológico, o Outro e novas formas emergentes de subjetividade.

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BM: Que novos papeis o corpo assume diante da contaminação da linguagem coreográfica pela lógica digital?

AD: Longe de ser virtual ou ausente, o corpo é muitas vezes o centro desses novos dispositivos coreográficos: através do toque-tátil ou real, do multissensorial e das novas experiências cognitivas, perceptivas, que estas obras oferecem ao espectador.

[La Morsure (1998-2003)]

BM: Como o uso de novas tecnologias “contaminou” o seu trabalho como coreógrafa? Pode nos destacar alguma de suas obras que considere importante nessa relação?

AD: A “contaminação” a que você está se referindo é organizada através da implementação de possibilidades expressivas decorrentes de ferramentas e da lógica digital, que irão perturbar as convenções teatrais e abrir uma nova maneira de compartilhar um trabalho coreográfico. Meu primeiro trabalho digital, La Morsure (“A Mordida”), uma instalação interativa geradora, visava à possibilidade de participação e uma compreensão mais direta das questões do espectador em questões de uma composição coreográfica. Frustrada com a distância que eu sentia, como artista, eu queria transmitir mais de perto uma experiência de corpos movendo-se juntos, chocando-se, respirando… Este fio condutor levou-me a explorar a relação olho/toque/sentado à tela do computador como uma forma, para o espectador, de se envolver no processo, ver-se em uma espécie de co-criação com o trabalho. Esta vontade de compartilhar é também o que constitui a especificidade dos trabalhos interativos digitais como relação e forma.

BM: Considerando que muitas de suas obras coreográficas são instalações interativas, quais as principais mudanças para a percepção do espectador?

AD: Ao contrário de receber uma coreografia no palco ou na tela, que na maioria das vezes, é pré-determinada, mais ou menos linear e que tem um começo, um meio e um fim, aqui, o espectador intervém para revelar, testar e ter uma ideia sobre o trabalho sem quaisquer regras ou indicações aparentes. Esta operação envolve a atividade hermenêutica sensório-perceptivo-cognitiva que eu comparo a do cego que toca as coisas para “ver” e entender. É, portanto, uma experiência proprioceptiva, multissensorial, que é experimentada pelo espectador em seu corpo-mente em seu próprio ritmo e no tempo real da descoberta. Se existe um fenômeno de empatia sinestésica na obra com a dança no palco ou um cinema, não é bem a mesma coisa. A capacidade de mover fisicamente dentro de uma instalação interativa, de intervir e desfrutar em seu próprio ritmo, permite viver com um senso de imersão – carnal, mas também na apreensão de sua especificidade como uma nova forma de arte.

[Andrea Davidson / foto: divulgação]

BM: Você já veio anteriormente ao Rio de Janeiro / Brasil? Em caso positivo, em que contexto e o que achou do país? Em caso negativo, quais suas expectativas?

AD: Eu nunca visitei seu país e devo dizer que estou muito animada para descobri-lo! Historicamente, a música brasileira me atrai e, muitas vezes, falam da alegria de viver no Brasil. Eu espero encontrar essa sensibilidade e expressão artística, mesmo com a minha visita quase em meio à Copa do Mundo!

BM: O que irá abordar em sua palestra?

AD: A partir da apresentação de plataformas digitais que vão desde projeções audiovisuais integradas aos espetáculos ao vivo, às cenas “inteligentes”, instalações interativas, ambientes sensoriais imersivos, performances em rede e wearable technologies, a palestra vai se concentrar sobre essas novas interfaces da dança como novos dispositivos de ver/sentir. Apresentarei a ideia de que não só a forma, conteúdo e significado estão interligados na noção de “dispositivo”, mas também contêm e incorporam um conceito, instrumento de percepção e modo discursivo. Estes dispositivos revelam a perspectiva e a percepção como formas contemporâneas de dramaturgia e novos parâmetros artísticos.

 

[*] Esta entrevista também foi publicada no site do Festival Dança em Foco.

 

Bia Morgado é pesquisadora em Artes, doutoranda em Tecnologias da Comunicação e Estéticas pela Escola de Comunicação da UFRJ, e assessora de comunicação do Festival Dança em Foco.

Regina Levy é diretora executiva e de produção do Festival Dança em Foco desde sua fundação. Foi curadora da Mostra FUNARTE de Dança e Teatro / Mambembão 2012. Como produtora cultural independente, atua em festivais de música, cinema, dança, projetos de artes plásticas e de teatro, entre outros.

 

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