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[textos] Bonecos, dança e Italo Calvino: Raíssa Ralola tece considerações sobre espetáculo da Cia. PeQuod

[Boneco em Peh Quo Deux / fonte: oestadorj.com.br]

POR QUE HAVERIAM OS BONECOS DE ESCOLHER A DANCA, E POR QUE HAVERIA A DANÇA DE ESCOLHER CALVINO?, por Raíssa Ralola

 

“Seis propostas para o próximo milênio” teria tornado-se célebre para o movimento? Digo isto porque não é a primeira vez que Calvino é convidado a visitar a dança. Em uma pesquisa ligeira pela internet já é possível perceber que as cinco conferências escritas pelo autor visitaram várias artes, ou foram rememoradas, retomadas e inspiradoras de várias delas.

É importante ressaltar que os tais escritos anunciam-se a partir de qualidades de escritura que Calvino teria desejado transmitir à humanidade do milênio que estava por vir. Assim versa a contracapa do livro que, é claro, precisei re-visitar. E, relendo este italiano de maneira exatamente rápida, algo me intriga: o que a dança teria com isso, já que trataria-se justamente de “alguns valores literários que mereciam ser preservados no curso do próximo milênio”? Fiquei pensando sobre em que medida seriam estes valores compatíveis e compartilháveis com outras artes para além da literatura – aqui, em específico, a dança.

Propondo um grande salto, de campo, de especificidades, seria possível transmutar tais valores da literatura para a dança? Quero dizer, como o autor o faz – passeando pela longa história da literatura, pinçando qualidades e exaltando cada uma delas em diferentes contos, lendas, histórias, mitologias, de maneira sempre singular – poderíamos citar coreógrafos distintos para versar sobre cada uma dessas qualidades por ele enumeradas: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade? Seriam estes caros valores da composição do movimento? Seriam qualidades que a dança preservaria no curso do terceiro milênio? Ou seriam, pois, outras qualidades elencadas, levando-se em consideração particularidades das composições em dança, ou dos corpos e movimentos?

Arriscaria-me a versar sobre leveza no balé Giselle, em Café Müller, de Pina Bausch; sobre exatidão em Trio A, de Yvonne Rainer; mas, decerto, não poderia me alongar aqui, pois tal arqueologia mereceria muito cuidado e apreço.

Bem, o esperado milênio chegou. Estamos em 2014, 29 anos após a escrituração destas citadas conferências, e aqui escrevo porque alguém, aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, convocou estas tais qualidades de escrituração – enumeradas em arqueologia e em pauta desde o início do texto – para povoar o movimento. E se me permitem forjar um enunciado, tais “qualidades de escrituração de movimento” foram convidadas, assim como cinco coreógrafos contemporâneos, para povoar o corpo de bonecos.

Sim, bonecos! Bonecos animados, mas não meros objetos. Foram corpos hábeis os que presenciei. Tanto corpos de carne e osso, como corpos de materiais outros, diversos. Corpos igualmente encarnados em cena (se assim é possível dizer de alguém não constituído de carne, osso, pele e músculos). Humanos-bailarinos, bonecos-bailarinos… Os primeiros dando vida aos segundos e, na mão inversa, os segundos povoando de sentidos a vitalidade dos primeiros.

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Percebo belas danças nos bonecos, assim como percebo belas danças no cotidiano. Marcam-me a vida dos corpos, a possibilidade de encarnação dos mesmos, ainda que não se constituam de carne. Marcam-me a ousadia corporal e a perspectiva tecnê da manipulação, a delicadeza das perguntas e respostas: os faxineiros, a paquera no bar, o peso exaltando a leveza, o jogo hábil dos lutadores, o aquecimento do que é gelado, as levitações, o derretimento, as relações e os cuidados. Como são cultivados cuidados nas relações entre todos os presentes em cena.

Fiquei curiosa sobre detalhes do processo de composição do trabalho, sobre os trâmites de criação entre os atores, o diretor, os coreógrafos e, claro, os bonecos. Um diretor, seis atores, cinco coreógrafos, talvez doze bonecos, não sei ao certo. Nas diferentes esquetes, isso se revela um tanto: é possível perceber escolhas estilísticas de composição presentes em cada uma delas. E parece-me que um milimétrico e ousado cuidado de coreografia e direção tem potência. Um certo rigor, também presente no escritor.

Foi indispensável retomar Calvino ao assistir Peh Quo Deux. Foi indispensável pensar sobre crianças e infâncias, sobre corpos, carnações e escrituras possíveis, entre qualidades e texturas do movimento. Foi indispensável porque Calvino visita a dança e, ainda, porque visita uma dança para bonecos. Parece uma resposta interessante do milênio ao qual ele destinava traços caros e igualmente raros. Indispensável trazer o próprio escritor para, concordando com seus adaptadores em outras artes, dizer que minhas questões talvez sejam secundárias – se finalmente olhar por um olho transversal e definidor da poesia como toda e qualquer criação, sempre singular e universal.

Tentarei explorar sobretudo as características da minha formação italiana que mais me aproximam do espírito dessas palestras. Por exemplo, é típico da literatura italiana compreender num único contexto cultural todas as atividades artísticas, e é portanto perfeitamente natural para nós que, na definição das ‘Norton Poetry Lectures’, o termo poetry seja entendido num sentido amplo, que abrange também a música e as artes plásticas; da mesma forma, é perfeitamente natural que eu, escritor de fiction, inclua no mesmo discurso poesia em versos e romance porque em nossa cultura literária a separação e especialização entre as duas formas de expressão e entre as respectivas reflexões críticas é menos evidente que em outras culturas. Minhas reflexões sempre me levaram a considerar a literatura como universal, sem distinções de língua e caráter nacional, e a considerar o passado em função do futuro (p. 9) [*]

 

[*] CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

 

Raíssa Ralola é artista do corpo e crítica. Pós-graduada em Teatro e Dança na Educação, e em Metodologia Angel Vianna (FAV). É mestre em Artes (UERJ) e coordenadora assistente da Pós-Graduação em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais na FAV. Divide moradia entre Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ).

 

 

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