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[textos] Por uma nova escrita #4: carta a Esther Weitzman, por Raíssa Ralola

[Jogo de Damas, com a Esther Weitzman Companhia de Dança / foto: Renato Mangolin]

 

Juiz de Fora, junho de 2014 //// Carta a Esther Weitzman

 

Querida Esther,

Destino estas linhas a você, a fim de tecer considerações sobre seu Jogo de Damas.

Oito mulheres e um tabuleiro chamado palco. Entram as peças. Movem-se como peças, A cena é o espaço do jogo e aos poucos ele engata. Cada qual, cada peça, cada dama carrega em si sua trajetória de movimento. Oito bailarinas juntas a fim de bailar um jogo. E bailam. Umas mais soltas, outras mais técnicas. Umas mais alegres, outras menos. E bailam…

Bailam a vida, bailam o feminino, bailam também os estereótipos destes. Ao passo que se engatilha, o jogo adentra diferentes universos. Cria novidade e também mergulha no clichê. Clichê da dança, clichê das mulheres…

Estive alegre ao assistir ao espetáculo. Senti-me vibrante em muitos momentos. Senti o rir, o sorrir. Senti o rir dos outros a meu lado, o rir que partilhávamos com elas em cena. Mas algo que percebi foi que nem todas as damas estavam dispostas a lançar-se ao jogo e, como o jogo é voluntário, um tal estado brincante por vezes faltava. Por vezes, o saber do dançar ou o saber dançar sobrepuja-se ao deixar jogar e, consequentemente, dançar.

Estou certa de que a escolha da palavra “jogo” não é casual. Muito menos “Jogo de Damas”… Adentrando o universo do jogo, citado e visitado historicamente por uma série de artistas como Huizinga ou os Situacionistas (estes escrevem a partir do primeiro) – que propõem o jogo como uma revolução do estar no cotidiano, na cidade e nas relações – percebo que coreograficamente o trabalho passeia por diferentes ambiências (para usar a nomenclatura situacionista). Visita universos, desenvolve situações onde uma dama dá pistas e as outras constroem a trilha. Jogos de crianças tornam-se jogos de adultos.

Como coreógrafa, trabalharia e investiria principalmente numa preparação cênica das intérpretes, disponibilizando-as para o jogo do corpo, construindo jogos da cena. Como intérprete, entraria em cena, senhora de mim mesma, mas não como uma “bela” bailarina que traz muitas marcas desta ou doutras técnicas e pode conjugá-las e dominá-las. Senhora de mim mesma do aspecto da abertura. Do estar aberta ao jogo, ao outro, ao inesperado. Afinal, trata-se de um jogo; se vou ao tabuleiro sabendo o resultado, não há por que jogar.

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Este aspecto do inesperado é um trunfo do jogo. Se ele não aparece, não há como ser jogo. Daí muda-se o nome e todo o propósito.

Como iluminadora, daria mais mistério à cena – um bom jogo, precisa de mistério. Luzes menos previsíveis, talvez menos homogêneas. E, já que o espetáculo faz alusão ao clichê e por ele adentra, um jogo de luzes que recriasse um tabuleiro me pareceria pertinente e cenicamente interessante.

Bom, estou aqui outorgando-me o direito de me colocar em todas as lentes possíveis para reolhar. É claro que o faço com muito interesse, pois o trabalho jogou comigo (agora falo como público), trouxe-me de maneira íntegra o sacro riso. O trabalho moveu motores e assim me fez pensar de que outros modos mais poderia mover.

Gostaria de terminar afirmando a pertinência de seu Jogo de Damas com uma bela citação do escritor mexicano Octavio Paz (em A Magia do Riso):

O riso é divino e não humano. Pelo riso o mundo volta a ser um lugar de jogo, um recinto sagrado e não de trabalho. Sua função não é distinta a do sacrifício: reestabelecer a divindade da natureza, sua harmonia radical.

 

 

Raíssa Ralola é artista do corpo e crítica. Pós-graduada em Teatro e Dança na Educação, e em Metodologia Angel Vianna (FAV). É mestre em Artes (UERJ) e coordenadora assistente da Pós-Graduação em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais na FAV. Divide moradia entre Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ).

 

 

Comentários

2 comments

  1. Ruana says:

    Acredito que por ser um jogo cada qual movimenta-se de acordo com as marcas que traz em seu corpo durante a vida e que não podemos apagar o que nos compõe, pois seria desonesto com o público que nos assiste e com nós mesmos. Quando você diz que -…”se vou ao tabuleiro sabendo o resultado, não há por que jogar”… discordo mesmo gostando do texto e admirando suas colocações pois, qualquer outra peça presente em cena já torna o resultado totalmente diferente do suposto previsível! Beijos a você e a essa equipe que admiro!!!

    • Raíssa Ralola
      raissaralola says:

      ola Ruana,
      Talvez você tenha razão… Pode ser que a idéia de resultado não funcione aqui, pois é claro trata-se de trajetória, de singularidade e de composições de vida. Os próprios Situacionistas, os quais cito no texto, propõe “um jogo” sem resultados… Mas o que estou querendo dizer com essa afirmação é relativo ao modo de viver o momento da cena – que é claro revela todo um apanhado pessoal e coletivo anterior à ela. Penso ser possível estar em cena de muitos modos e com muitos focos, por exemplo sacralizando-a ou por um pequeno deslize,deixando que se torne mecânica…
      Agradeço pela contribuição, que me traz novamente ao texto para repensá-lo.

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