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[textos] "No rastro do gesto": Gabriela Alcofra explora sensações a partir de solo de Denise Stutz

[Denise Stutz em Finita / fonte: evensi.com]

Finita, solo de Denise Stutz, ganha nova apresentação (única e com entrada franca) neste sábado (26/jul, às 18h) no Rio de Janeiro e eis uma bela oportunidade para publicar o texto de Gabriela Alcofra (nossa redatora em São Paulo) que acompanha esta postagem. Intitulado “No rastro do gesto”, o texto de Gabriela explora sensações e impressões geradas pelo trabalho (após uma passagem pelo SESC Consolação em fevereiro deste ano), além de se permitir embarcar de maneira inventiva no universo de memórias evocadas por Denise em cena.

A apresentação de Finita acontecerá no Centro de Artes da Maré – no contexto da Mostra Maré de Artes Cênicas. O Centro de Artes da Maré fica na Rua Bittencourt Sampaio, 181 – Nova Holanda – Rio de Janeiro (RJ).

 

NO RASTRO DO GESTO, por Gabriela Alcofra

 

Denise já está. E, assim, deixa ver a solidão de um palco quase vazio. A solidão que também sinto em uma plateia quase cheia. A solidão de um silêncio e de uma música antiga que toca na vitrola. Solidão da memória. Seria nostalgia? Denise se aproxima e me faz cúmplice da presença. Estamos ali: eu e ela, e todo o redor. Denise já está, e por isso continua.

Sei que Finita, essa sua nova criação, parte da doença de sua mãe e de uma carta escrita por ela. Penso: há possível tradução para o sentimento? Há possível contorno para o desconhecido? Há caminho a se percorrer entre o vazio? Deixo as perguntas ecoarem. Denise introduz uma conversa, dialogando com fragmentos da carta, memórias pessoais, desejos também pessoais, e com sua mãe hipoteticamente compartilhando aquela plateia conosco. Identifico o endereçamento, mas ali, naquela plateia quase cheia, invento a certeza de que Denise fala a mim.

Invento também várias paisagens, palcos possíveis, espetáculos outros, lugares que eu conheço, músicas que eu nunca ouvi, memórias que nunca tive e, num ato de fricção, descubro que minha ficção se encontra com muitas realidades. Foi ela que me levou pra esses lugares. Foi através de seus gestos e palavras que mergulhei nesses tantos outros. Fui levada. Me deixei ser levada.

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A artista, que é intérprete, autora e diretora desse espetáculo, consegue transitar com força, leveza e simplicidade entre universos como autobiografia, narrativa, realidade social e ficção. A coragem de revelar seu íntimo me deu a confiança da sinceridade e acabou por também me revelar. De sobressalto, me vejo imersa em tantos outros universos. Além de cúmplice, me descubro sendo vista, exposta, compartilhada. Sou eu quem está em cena? Devo ser.

Me pergunto: a minha invenção é uma verdade que nunca existiu? A presença é uma duração aumentada do espaço e do tempo? A fugacidade do concreto é o lapso da minha memória? Onde estou? Sim, eu conheço a loja de discos da Rua Barata Ribeiro, em Copacabana! Marcelo Evelin, é você aí preto de gente? Pina Bausch, Dani Lima, Marcela Levi, é de vocês que ela fala ou sou eu que vos invento? Sim, pode ser! Pode ser o meu, o seu, o deles, o nosso palco. Sim, minha filha querida, estou aqui te observando! Uh uh! Não vai ter Copa! Uh Uh… Não vai ter Copa! E o gesto continua… mesmo depois da Copa.

Nessa duração proposta por Denise, descubro que os contornos do íntimo estão para muito além da pele. Descubro que sou muitos outros e que, além disso, sou eu também. Entendo Finita como algo que não termina ou, pelo menos, que a gente não sabe como termina, que a gente não sabe onde vai dar e que, ainda assim, permite a ficção, a coexistência, o absurdo e o simples. Não seria assim também a vida?

Denise conquista com sua sinceridade; uma sinceridade que é um diálogo contínuo entre desejo, sensação, intenção e ação – e, por isso se autojustifica. Dispensa comentários. Qualquer gesto borrado atuando nessa camada fica preciso, forte, intenso e delicado. É nessa precisão em que ela atua: na precisão da intenção.

Finita é uma duração compartilhada que não termina. Seu gesto tem rastro, e o rastro ecoa.

 

Gabriela Alcofra é bailarina, pesquisadora e professora. Estudou Dança Contemporânea na Faculdade Angel Vianna e Ciências Sociais na UFRJ. Atualmente cursa mestrado em Artes na UNICAMP. Mora em São Paulo (SP) e adora criar asas em palavras.

 

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