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"Ninguém poderá nos impedir de dançar": André Bern elabora breve nota após o falecimento de Mercedes Baptista

[Mercedes Baptista / foto: Leonardo Aversa]

Faleceu ontem (19/ago) a bailarina Mercedes Baptista, aos 93 anos de idade. Sua contribuição à dança brasileira certamente vai além do fato de ela ter sido a primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A trajetória de Mercedes é ainda mais valiosa se pensarmos o quanto ela promoveu uma representatividade profissional, uma real possibilidade de espelho para muit@s artistas da dança.

É impossível não lembrar de Um Filme de Dança, precioso documentário da cineasta e coreógrafa carioca Carmen Luz. O “tributo ao corpo negro, dono de sua própria dança” a que se dedica a feitura e a composição-provocação das imagens, a cada exibição, me faz acreditar na potência das histórias que contamos e semeamos através dos nossos movimentos, embebidos naqueles d@s noss@s mestr@s, antepassad@s, deus@s e cosmogonias que escolhemos-porque-fomos-chamad@s a nos filiar (ou simples e profundamente “porque nos foram dados”, nas palavras de Monica da Costa).

É assim que preferi celebrar o dia de partida da mestra de muit@s de minhas/meus mestr@s (e, por isso mesmo, minha mestra também): com respeito, reverência e alegria, pois compreendo que sua dança permanece na batalha de mil passos de cada criaçãodo dia-a-dia de tanta gente que faz de seus tropeços saltos… que se esgueira graciosamente por entre as pernas dos obstáculos da vida porque sabe que o verdadeiro poder reside no fluxo da poesia, na beleza da doçura que dobra e corrói qualquer viga de inflexibilidade. A querida Oxum não nos deixa esquecer e o tempo nos tem brindado com a paciência e resiliência necessárias!

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Não se trata de romantismo nem alienação, afinal ‘diversidade’ é uma palavra que ainda levará muito tempo para se tornar um pouco mais do que “uma grande falácia” [1]. Todos os dias, a violência nos rouba Claudias, Amarildos, Gambás, Douglas, Augustos, Gilbertos. Nossos olhos estão abertos, nossos corpos estão atentos.

No entanto, haja o que houver, ninguém poderá realmente nos impedir de dançar. Mercedes segue nos pés das danças de tant@s que permanecem: Mestre Dionísio, Charles Nelson, Monica da Costa, Morena Paiva, João Carlos Ramos, Victor D’Olive, Rubens Barbot, Valéria Monã, Aline Valentim, Mery Horta, Diego Dantas, Italmar Vasconcellos, Denise Zenicola, Rubens Rocha, Gabriela Luiz, Amanda Corrêa Portugal, Elton Sacramento, Wilson Assis, Tatiana Damasceno, Carlos Laerte, tant@s, tant@s, tant@s e incontáveis outr@s… Nela mesma, a própria Carmen Luz. Em mim.

 

[1] “É um absurdo quando você vê as pautas dos teatros, o conjunto das companhias, as premiações… diversidade no Brasil é uma grande falácia (…) É preciso reconhecer a grande produção de dança contemporânea negra que existe no Brasil”, disse Carmen Luz após a exibição de seu filme durante a Semana ctrl+alt+dança 2013. Confira um depoimento da coreógrafa em: https://www.youtube.com/watch?v=RJHH8AEBrZ0.

 

 

André Bern é artista-pesquisador e blogueiro cultural. Bacharel em Dança (UFRJ) e mestre em Artes (UERJ), atua relacionando campos artísticos e produzindo trabalhos que transitam entre dança contemporânea e performance, videoarte e programação visual.

 

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