Início » Notícias » [textos] Blogueir@ Convidad@: Adriana Barcellos dá início à série de postagens assinadas por artistas convidad@s por CTRL+ALT+DANÇA

[textos] Blogueir@ Convidad@: Adriana Barcellos dá início à série de postagens assinadas por artistas convidad@s por CTRL+ALT+DANÇA

Desenvolvida como uma das Ações de Expansão do projeto Dança Carioca na Rede em 2015, a série Blogueir@ Convidad@ apresentará 6 postagens especiais. De autoria de 3 artistas convidad@s por ctrl+alt+dança – Adriana Barcellos, Aline Bernardi e André Masseno – os textos mesclam conteúdos previamente publicados no blog com novas proposições e direcionamentos.

Adriana Barcellos “corta a fita” e inaugura a série com a contribuição que publicamos abaixo. Em Uma tela branca e a possibilidade de criação, a artista propõe reflexões sobre processos criativos em dança e arrisca exercícios de composição a partir da relação entre o corpo de quem lê as postagens do blog, o conteúdo imagético das mesmas e o suporte a partir do qual se acessa (computador, tablet, smartphone, etc).

 

UMA TELA BRANCA E A POSSIBILIDADE DE CRIAÇÃO, por Adriana Barcellos

O braço é apoiado na nuca de um outro corpo que concede espaço e suporte. Na nuca o cabelo escuro e suado umedece a pele do braço. O corpo do apoiador segura o braço do corpo que se apoia, fazendo uma pressão no cotovelo com o polegar, como a reforçar sua presença. O contato/apoio traz uma sensação de calor pelo peso, esforço, e pelo tom moreno da pele do apoiador. [*]

Uma tela branca (espaço virtual do blog) e a criação foram as palavras que ficaram ressoando de uma longa conversa com André Bern, na qual os assuntos mais variados surgiram: a dança, o futuro, as expectativas, o calor do verão, o lugar que ocupamos na cadeia de produções, o ser inquieto, Austrália, o Projeto Dança Carioca na Rede, Nijinsky, performances, MEI, o café, a influência de Saturno na vida e outras coisas mais.

Fiquei alguns dias com elas, ruminando e tateando um caminho que se abriria para uma escrita na página do ctrl+alt+dança. Neste tempo de ruminar que foi se esgarçando e se ampliando pelos espaços dos dias e fazeres, pensei nas imagens presentes no blog, que complementam a divulgação dos espetáculos e matérias, e que têm como tema a dança, o corpo em movimento poético.

Na busca do que construir, surgiu uma intuição que resolvi seguir: as imagens responderam ao chamado da escrita, sugerindo uma proposta de criação de movimento e sentido, utilizando o espaço virtual – a tela branca – como inspiração, reflexão e movimento. O desafio será de que a dança possa ser construída em outro espaço, sem perder as qualidades que a caracterizam como arte cênica. Ela surgirá da tela (imagem) para o corpo (movimento no espaço) e poderá retornar para a tela novamente (somente pela escrita).

Pensando nas características do fazer artístico hoje, chego à complexidade da descrição e nomeação. Muito deste fazer desenvolvido a partir do final do século XX é uma construção inter – trans – multi – disciplinar. As fronteiras entre os suportes artísticos perderam sua demarcação, estando agora em um momento de mistura e transformação. Na dança, esse movimento não foi diferente; a dança hoje, pode inclusive ser dançada! Pode ser pensada, declamada, sussurrada ou, como estou propondo aqui, acontecer em lugares distantes através de uma comunicação escrita, uma tela de computador e uma combinação entre pessoas que se desconhecem.

Apesar de serem vinculadas de alguma forma à dança, é importante frisar que as imagens trabalhadas neste exercício são imagens estáticas, instantes de momentos de movimento, eternizados pela fotografia. A diferença que persiste é que a dança, sendo uma arte cênica que acontece num espaço-tempo, permanece na memória como uma impressão nos sentidos, sem muitas vezes o detalhamento da ação que se desfaz no ar. Aqui, na proposta do exercício, é possível um mergulho e um deleite no rastro de intenção deixado pelos artistas.

Para realizarmos este exercício, será necessário estabelecer algumas regras e compromissos que vou destacando ao longo do texto.

[*] O texto destacado no início de cada parte refere-se à imagem escolhida para o exercício, e que por opção não foi colocada junto à descrição. Ao leitor fica a escolha de olhar ou não as imagens que se encontram ao final do texto.

Processo de criação

Um corpo ligeiramente à mostra recebe a cobertura de muitas penas brancas movidas pelo vento. O cabelo solto parece completar a cobertura, e o vento parece ser suficiente para desestabilizar o corpo, que tem sua sustentação modificada para um único apoio.

Toda obra guarda um segredo que nem sempre é revelado ao público: o seu processo de criação, os caminhos e descaminhos que vão surgindo nas elaborações dos incômodos. Como pesquisadora dessa área, me interessa e me encanta a diversidade de escolhas que surgem a partir das muitas intuições.

A obra de arte é uma fala em uma linguagem que pertence ao universo invisível e sensível; que não é codificada pela oralidade comum e que não pode ser traduzida. No entanto, a arte é, comunica e repercute as ideias e ideais criando pontes de afinidades entre os interlocutores: o público e o autor.

Se pudéssemos traçar em um papel o caminho de uma obra, teríamos muitas idas e vindas, abandonos, interferências, incisões, omissões e retornos.

Da intuição original até o encerramento, tudo é movediço; as certezas não são tão certas assim. O fazer artístico surge a partir do vazio e do cheio, do nada e do tudo também. As situações de vida, encruzilhadas, sonhos e perfumes, podem suscitar na alma o desejo/necessidade de uma nova construção. “(…) o movimento criativo é a convivência de mundos possíveis (…) há em muitos momentos, diferentes possibilidades de obra habitando o mesmo teto” (Salles, 2007).

Para cada artista o processo é diferente, e até em momentos de vida do artista, os meios de construção transformam-se, a partir da vida que se modifica sob seus olhos. Alguns passam anos em flerte com o desejo, outros são mais ávidos pela construção e partem para a sua concretização. Existem os inquietos e insatisfeitos que fazem e refazem, desmancham e retornam a fazer, numa resistência à finalização. As angústias, dúvidas e inseguranças são presenças frequentes, e muitas vezes a finalização de uma obra não cessa com o incômodo originário. “[…] para trazer arte ao mundo é necessário não somente habilidade ou conhecimento, mas são absolutamente fundamentais doses de ‘vazio’, doses de ‘não saber’, ‘de desconhecido’, ‘de risco’” (Robim, 2004).

Mergulho nas imagens

A boca foi demasiadamente pintada aumentando seu volume e intensidade, que no entanto permanece em silêncio. As mãos se acomodam nos olhos com as palmas (também pintadas) voltadas para a frente, parecendo querer estabelecer uma comunicação que se mantém muda.

Para entender como aconteceria este exercício, escrevi algumas regras e coloquei-me em teste: criar a partir de uma criação pronta e estruturada, interferindo com a minha sensibilidade e percebendo símbolos se manifestando. Como iniciei este processo de escritura em fins de janeiro, estipulei que as imagens passíveis de participação seriam as que tivessem sido postadas no blog até este período.

Passeei pela tela do ctrl+alt+dança, deixando-me permear pelas imagens e, apesar das dúvidas, as escolhas aconteceram. Para não ser influenciada pelas informações dos criadores e das obras, defini como uma das regras, que não houvesse informação sobre a postagem e nem sobre o trabalho.

A imagem relaciona-se com os sentidos, a percepção, e é através do olhar que acontece o encontro entre a imagem e o indivíduo, entre o sentido e o compreendido. O Olhar interioriza o mundo, aproxima as construções que vivem em nossa realidade mas, além disso, percebe as imagens que se estabelecem, e cria vínculos de significados, numa ampliação da realidade vista e vivida.

Existem registros de uma origem grega comum das palavras imagem e magia (Matos, s.d.), e os estóicos tinham duas palavras diferentes para imagem. Em uma delas, imagem é algo que toca a alma, deixando nela a sua marca (Abbagno, 2000).

Uma imagem vai além de sua visualidade e simplicidade aparente. Como registro de vida, o olhar pode captar emoções e sensações através da expressão do corpo e do rosto, além de sugerir muitas outras coisas. Bachelard (2002) diz que “é preciso buscar por trás da imagem que se mostra, a imagem que se oculta.”

Uma imagem é um universo e não precisa ser apenas uma representação da realidade. A arte tem o poder de subverter as lógicas e funcionalidades, propondo novas possibilidades de existências.

“O artista não é apenas aquele que se arrisca a imergir no poço dos espaços e dos tempos possíveis, para dali surgir à superfície com uma atualização ou uma realização da forma na matéria das sensações. A obra do artista é, antes, aquilo que não se realiza, o constante devir entre o limite e o ilimitado, cujo impulso vem da impossibilidade mesma da obra.” (Luz apud Fatorelli e Bruno, 2006)

O movimento

No primeiro plano, o braço direito impulsionado à frente carrega um corpo solto. Na continuidade das linhas e dos corpos em outro plano, uma cabeça mergulha no espaço e o braço (o mesmo braço direito) é impulsionado para trás. Um quadril se abaixa e, suspenso, imprime uma intenção de quadrupedar movendo o peso do corpo para frente. Surge uma elevação do corpo como um todo, finalizando em um braço (agora o esquerdo) que parece acenar em busca de alguém.

A passagem da imagem para o movimento não consiste apenas de uma tradução entre linguagens diferentes. O espaço da imagem (a tela do computador) é diferente do espaço tridimensional que suporta o corpo, mas não é só. Uma linguagem é composta de signos e símbolos. Os signos são comumente definidos por sinais (ortográficos, inclusive), que trazem uma compreensão imediata, clara e às vezes universal. Os símbolos, apesar de também comunicarem, possuem uma linguagem nebulosa onde o significado não se relaciona apenas com a objetividade da razão, assumindo significações distintas entre as pessoas de acordo com a individualidade e as experiências vividas. Desta forma, a proposta do exercício não é copiar a imagem, mas encontrar os símbolos que originarão a forma poética do movimento.

Leia mais:  Marcelle Louzada e Cia. Étnica apresentam trabalhos em Sobral (CE) e no Rio de Janeiro

Uma delimitação foi imposta como regra, para forçar a criação em outro espaço: a sequência de movimento deverá ocorrer no espaço em que a pessoa estiver, com a roupa e objetos que estiver usando no momento. A tela (do computador de mesa, tablet, laptop ou telefone celular), como origem das imagens, deverá ser incluída no movimento.

A limitação é importante como recurso criativo, pois propõe outros lugares de passagem. O que, a princípio, parece ser um elemento de dificuldade, passa a ser uma conscientização de outras possibilidades. As intuições surgem e, sem que se perceba, a construção assume sentidos que não foram imaginados. Enquanto realizava o exercício, rabisquei numa folha de papel um esquema para não me confundir e lembrar das imagens. Curiosamente surgiram uma cruz e, depois dela, um circulo, com toda a sua significação simbólica.

Exercício de criação

Os braços se aproximam em um abraçar vazio contra o peito. É um recolhimento que abaixa o tronco, esconde o olhar, insinua o volume das costas e contrai as pernas, trazendo todo o peso e todo o ser para se concentrar em um só ponto.

Regras:

  1. Olhar o blog, as imagens das postagens e escolher 5 imagens que chamem a atenção. As imagens devem ter o corpo ou partes dele; devem pertencer à página principal e não se deve conhecer o trabalho/coreógrafo. Esta escolha envolve as postagens que foram feitas no blog até janeiro de 2015. As postagens não podem ser lidas e nem terem sido lidas anteriormente.
  2. Olhar demoradamente cada imagem, tentando absorvê-la em seus detalhes.
  3. Descrever minuciosamente o que se vê e o que se sente a partir da imagem.
  4. Responder as perguntas abaixo (em relação a cada uma das cinco imagens) com uma única palavra (sem artigos) dentro do espaço desenhado (espaço da cruz):
  5. Sem olhar mais a imagem física, e com a lembrança das impressões escritas, reproduzi-las no lugar/espaço em que está; com a roupa ou adereço que estiver usando. O computador onde se faz o acesso deve fazer parte do exercício.
  6. Estabelecer uma ligação entre os movimentos, que podem incluir no máximo um movimento de outra parte do corpo não envolvida na primeira ação, caracterizando uma frase de movimento (esta frase engloba as 5 imagens).
  7. Olhar/ler as palavras escritas no gráfico em cruz. Combiná-las em ordens diferentes, mantendo sempre a relação da imagem com a palavra, até chegar a 5 frases, escrevendo-as em um novo espaço, um círculo.
  8. A sequência inicial deverá ser repetida de forma circular, acrescentando: a- Uma transformação de ritmo, andamento ou força insinuada pelo sentido das palavras; b- Somar outras bases de sustentação do corpo (sentada, ajoelhada ou de pé, por exemplo); c- Incluir uma pausa em algum momento da sequência.
  9. Em hipótese alguma acrescentar música.
  10. O resultado do exercício de criação pode ser compartilhado na área de comentários da postagem, através unicamente de registro escrito que traduza as sensações/impressões vivenciadas. Não será permitido o compartilhamento de imagens fotografadas ou filmadas, pois fugiria da proposta inicial.

Reflexões finais

Durante algum tempo, trabalhei com coreógrafos participando da criação de movimentos e propostas, dentro de um tema/roteiro previamente escolhido e organizado por eles. Quando comecei meu caminho como pesquisadora na área de Processos de Criação, questionava-me muitas vezes sobre como chegar a um tema de pesquisa, como fechar um roteiro coreográfico, e como não permanecer na repetição dos discursos em voga.

Com o tempo, o estudo e a pesquisa, fui entendendo esse caminho de criação; entendendo que não existem fórmulas e respostas fáceis para esses “comos” que enumerei acima. Compreendi que os caminhos são muitos e os estímulos podem ser simplesmente toda a vida; que os roteiros não são organizados racionalmente e que, na verdade, muitos deles são feitos e refeitos algumas vezes até se chegar à organização do caos que se estabelece.

A decisão de que caminho seguir é difícil, pois muitas são as possibilidades, e as escolhas são sempre restritivas, ou seja, assumir um caminho é abrir mão de outras existências. Nessa escolha influi o que se quer fazer, o que se quer dizer, o que seguir esteticamente. No momento da escolha, não há um vislumbre do resultado: é uma escolha cega e arriscada. “Só se pode agir livremente sacrificando constantemente outras possibilidades de liberdade; a liberdade constitui-se tanto das escolhas que se deixa de fazer ou que não se pode fazer, quanto das escolhas que efetivamente acontecem” (Salles, 2007).

Percebi que existem pensadores que se debruçam sobre esse temas (e outros mais), refletindo as angústias, incertezas e, de certa forma, acalentando a ansiedade que se impõe. Neste caminho, tive a felicidade de encontrar uma orientação, que tem guiado meu fazer de forma crítica e autêntica: encontrei Carl Gustav Jung, e com ele uma compreensão do universo inconsciente e dos seus símbolos, que regem não só a criação artística, mas muitas das questões da vida.

É importante, no meu caminho hoje, assistir espetáculos e mergulhar nas imagens, encarando as que mais me tocam; respeitar as escolhas de cada autor, como escolhas que podem ser sopradas pelo daimon inconsciente, ou por uma experiência passada; perceber que cada construção tem uma leitura que não é legendada, e que eu posso captar outras intenções nos símbolos que se abrem no caminho.

Da conversa inicial com André Bern até a estruturação do texto/exercício, um caos se estabeleceu sem nenhuma insinuação do formato que tomaria. Pensando sobre a área de pesquisa em Processos de Criação, percebi que fui arriscando, expondo as inquietações que me revolvem constantemente, ao passo que ia propondo caminhos para a prática.

Não costumo trabalhar com essa organização de regras; o exercício foi apenas uma possibilidade que pode ser realizada, e inclusive modificada por outras escolhas. Foi importante perceber, a partir do exercício, as escolhas que são feitas, as necessidades de adaptações às limitações impostas, a insegurança do novo, os símbolos que surgem em cada imagem; e como foi possível elaborar construções a partir do fazer do outro.

Acho importante experimentar novos lugares de criação e, com eles, novos alimentos para a dança e o corpo em movimento: mesmo que seja uma tela branca. É importante… para refletir, trocar e movimentar.

“Encontramos, assim a unicidade de cada obra e a singularidade de cada artista na natureza das combinações e no modo como estas são concretizadas” (Salles, 2007).

Referências bibliográficas

ABBAGNO, N., Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

BACHELARD, G., A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

FATORELLI, A., BRUNO, F (Org.), Limiares da Imagem. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

MATOS, O., Imagens sem objeto. Sem editora, sem data.

ROBIM, M. Tornando-se Dançarino: como compreender e lidar com mudanças e transformações. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.

SALLES, C.A. Gesto Inacabado: Processo de Criação Artística. São Paulo: Annablume, 2007.

 

 

Adriana Barcellos é doutoranda em Artes da Cena, pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Pesquisa relações entre processos criativos em Dança e Inconsciente, seguindo a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Atua como professora da rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro, onde desenvolve projetos de Dança-Educação que estabelecem pontes entre o pensamento do educador Paulo Freire e a Teoria Fundamentos da Dança, de Helenita Sá Earp.

 

 

Comentários