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[textos] Por uma nova escrita #5: No passo do elogio, por Raíssa Ralola

[Salina (a última vertebra), com o Amok Teatro / foto: Daniel Barbosa]

NO PASSO DO ELOGIO – SALINA (A ÚLTIMA VÉRTEBRA), por Raíssa Ralola

Fui assistir ao espetáculo Salina (a última vértebra) no último fim de semana no Espaço SESC, por indicação de Angel Vianna, que comentou sobre o trabalho em uma de nossas reuniões de Pós-Graduação na FAV. Disse tratar-se de algo forte e belo que valia ser assistido.

Tal indicação fora minha única pista. Sem conhecer o trabalho do Amok nem ler previamente nenhuma sinopse ou crítica do espetáculo, eu não sabia bem o que esperar, não guardava expectativas sobre a temática, estilística ou modos de apresentação.

Entrar no teatro de arena do Espaço SESC já me foi convidativo. Há tempos não o visitava e, ao escolher meu lugar para sentar, fui abordada sutilmente por Ana Teixeira, diretora do trabalho, sugerindo um outro local – já que aquele, segundo ela, não traria bons ângulos à visualização. Assim observei-a atuar com alguns outros espectadores que chegavam à arena e desde o começo me senti recebida e cuidada. Esta ação já seria uma primeira indicativa de que o trabalho me capturaria.

O espaço já está montado, alguns objetos povoam o lugar. A cena se inicia com a entrada de um músico e sua música; logo após, cinco mulheres caminhando cerimoniosamente. Cada qual com extensa vestimenta em diferentes cores, passo ritmado e marcado. A cena é introduzida com danças e cantos, movimentações desenhadas, riscos precisos pelo solo da arena. Aos poucos, anciãs e jovens se apresentam. Aos poucos, estas apresentam a cena. Quando um cerco já está montado e afirmado pelo feminino, é neste momento que adentra o polo oposto.

A entrada dos homens, advindos de cima e de baixo das arquibancadas em alta celebração – danças e giros, gungas e alfaias, cantos e gritos – fez crer que, dali em diante, o rito tomaria outro ritmo. E assim foi! As viris presenças adentraram e marcaram, em parceria das moças, um espaço humano de escolhas e de não escolhas, de gostos e de desgostos tão ancestral quanto atual.

O espaço da cena é ritual, povoado por um texto que me pareceu lendário, remetendo-me a uma África ancestral, espaço simbólico das culturas tradicionais. As cores e adereços com as quais travestem-se os arquétipos humanos, seus gestos e modos de dizer, não me pareceram casuais, senão fruto de clara investigação. Marcam-me os muitos símbolos evocados e a configuração de um espaço mítico. Vi inúmeras referências, dentre elas o mito egípcio de Osíris e as clássicas madonas trajando azul, com sua expressão marcante do feminino nas antiguidades.

Por falar em antiguidades, de fato, vi na cena um espaço de vivência do theatron como espaço do simbólico, do trágico, da catarse, do rito coletivo. Um espaço de cura como tradicionalmente era vivido no templo grego de Esculápio, no teatro de Epidauro. E, falando em Grécia, na arena, junto aos performers, em sua companhia, inspirando-os e por vezes tomando-os, vi as musas de Apolo: Terpsicore, Euterpe, Melpômene, Clio. Musas respectivas da dança, da tragédia, da música e da história. Conviviam contempladas em cânone, compondo e trazendo gradações, tonalidades que forjavam cena.

Leia mais:  "Por que você dança? Qual é a sua busca?": 4º relato de Raíssa Ralola sobre o JF em Dança (MG)

Estive pensando sobre a presença ao assistir ao espetáculo. Sobre esta potente ativação da vontade do artista que é capaz de presentificá-lo integralmente, enlaçando e tornando partícipe aquele que especta. Assim me senti na arena, atenta e ativa a cada nova gestualidade. Julgo que tal atenção fora provocada por uma vivência plena do trabalho, que a mim arrebatava através dos que atuavam como atores, bailarinos e músicos, presentes, incorporados e pletores de suas potencialidades. A cada gesto, um burilado e extenso trabalho de pesquisa passeando por uma série inúmera de possibilidades.

Dedicando-me brevemente a dizer um pouco mais de uma dessas possibilidades, relembro das danças, da rica gestualidade e de minha alegria ao ver todos em coro de movimento. Como estiveram ancestralmente vivos em suas peles, em seus ossos. Um ancestral que, de modo algum, exclui a imanência do atual. Como nas danças tradicionais de todo o mundo, todos bailam, cada qual com suas cores, seus molejos, suas faces. Uma dança que, longe de ser possessão de poucos, é pulverizada a todos, e assim é capaz de uma vastidão, onde misturam-se os antigos e os atuais modos; e, como todo o resto de Salina, promove um sacolejo arcaico e atemporal.

Longo tempo estivemos no teatro. Longo tempo recebemos a cena, os artistas, tudo o que prepararam para nós. Apenas uma coisa retirou-me do ato simbólico e ritual da cena: a pausa para o intervalo, o convite para a merenda, foi cuidadoso com o público. Apenas me perguntei por que comíamos biscoito de água e sal e não aipim e broa de fubá. Um detalhe bem pequeno, mas que me capturou por momentos da simbólica ancestral África que vivera até então e que dificultou meu retorno à mesma no segundo ato.

Fiquei muito contente e surpresa por assistir algo que de fato contemplasse a temática ritual, ancestral com tanta potência; que falasse de origens e destino, de amores e desamores, da mudança do aparentemente imutável. Aqui, de nenhum outro modo posso caminhar, senão no passo do elogio sugerindo apenas permanência. Vida longa, eu diria… Vida longa eu desejo ao Amok…

E já que até o teatro fui por indicação, gostaria que estes escritos contribuíssem como sugestão aos leitores do ctrl+alt+danca: de ida ao Espaço SESC para ver o Amok Teatro em Salina (a última vértebra), que permanece em cartaz até 29/mar (dom). Nesta sexta e sábado, o espetáculo acontece às 19h30, e no domingo, às 18h30. O trabalho tem direção de Ana Teixeira e Stephane Brodt, com texto de Laurent Gaudé.

O Espaço SESC fica na Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana – Rio de Janeiro (RJ).

 

 

Raíssa Ralola é artista e crítica. Estudou Artes (UFJF), Dança e Metodologia Angel Vianna (FAV). É mestre em Artes (UERJ), participa da equipe de coordenação da Pós-Graduação em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais na Faculdade Angel Vianna e é professora na Faculdade Machado Sobrinho (Juiz de Fora (MG)). Divide moradia entre Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ).

 

 

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