Início » Notícias » Andarilhas: André Bern conversa com a dupla de drag queens brasilienses em residência artística no Centro Coreográfico (RJ)

Andarilhas: André Bern conversa com a dupla de drag queens brasilienses em residência artística no Centro Coreográfico (RJ)

[Andarilhas é a dupla de drag queens Larissa Hollywood e Mackaylla / foto: divulgação]

A convite do Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro, André Bern (editor de ctrl+alt+dança) visitou a dupla de drag queens brasilienses Andarilhas (Larissa Hollywood e Mackaylla), que encerra seu período de residência artística após um mês de experimentações e atividades. Alteregos dos artistas Gustavo Freitas e Vinícius Santana, as drag queens propõem reflexões sobre sexualidade e gênero, num contexto de aproximação com a dança contemporânea, o street jazz e a performance.

A criação de um videodança foi o foco principal da residência de Larissa e Mackaylla, que contou com a colaboração artística da performer Marcia Regina (e seu alterego Rabita Vicentina). Hoje (28/mar), a partir de 18h, Larissa, Mackaylla e Rabita recebem o público para uma atividade de compartilhamento, intitulada Eu não sou Divine.

Mackaylla explica que não se trata de um espetáculo, nem de uma performance: “É um encontro com o público onde a gente se propõe a compartilhar o nosso processo: o que a gente tem vivido, os nossos questionamentos, as nossas dificuldades e facilidades, e o que emergiu da residência aqui no Centro Coreográfico”. A atividade possui entrada franca.

Abaixo, vocês podem conferir o bate-papo entre André, Larissa, Mackaylla e Marcia:

André: Como aconteceu o encontro de vocês?

Larissa: A gente tem um ponto em comum, que é a Universidade de Brasília. Lá, a gente começou a ter um contato maior com teatro, dança e audiovisual. Eu me formei em Cinema na UnB, Vinícius acabou de se formar em Artes Cênicas e a Marcia também está se formando em Artes Cênicas. Eu tinha um interesse na questão de gênero e sexualidade desde sempre. Trabalhava basicamente com hip-hop e street jazz, danças urbanas, mas depois consolidei a performance como drag queen. Defini o nome, Larissa Hollywood, porque quero que ela seja uma estrela de cinema – a estrela dos filmes do Gustavo.

André: Como surgiu o interesse em atuar como drag queens?

Larissa: Um dia, alguém me ligou e falou assim: “Então, eu tenho um trabalho de drag queen, você tem que se montar e animar uma festa. Quer fazer?”. Eu nunca tinha pensado em trabalhar como drag queen. Pragmaticamente, pensei que era um freela, e então decidi fazer. A primeira vez que você se monta, que você mesmo não se reconhece – e, ao mesmo tempo, vê o seu corpo, seus traços, seu olhar no espelho – tem uma dimensão muito grande. Um momento em que você percebe um outro lugar onde pode estar.

André: Por quanto tempo vocês trabalharam como drags antes de chegar ao formato Andarilhas?

Mackaylla: Tem uma dimensão importantíssima, que é a da amizade. Gustavo e Vinícius são muito amigos, melhores amigos, de vida. Quando as drags se encontram, isso vem através dessa dimensão de amizade e de uns trabalhos que a gente estava fazendo juntos em eventos particulares: casamentos, aniversários, eventos corporativos, festas assim. As histórias são bem parecidas. Larissa nasce desse convite pra trabalhar num evento pontual. Mackaylla também nasce de um convite assim. Eu, muito relutante, falei: “Não quero fazer esse evento! Meu Deus, como é que eu vou fazer uma drag?!”. Eu não sabia de nada [risos]. Nós tínhamos amigos que se montavam, faziam eventos. Gente, é muito difícil! O primeiro evento fiz com Larissa… e foi um horror! Inauguração de uma loja… foi horrível! Odiei, estava em cima de um salto e não sabia andar direito. Ficava inseguro pra falar com as pessoas, fazer uma brincadeira. A montagem era maravilhosa porque me montaram. A gente trabalhava pra uma empresa de animação de eventos, entretenimento e tal. Foi um freela. Aí, conforme fiz outras vezes, a drag foi aparecendo e tomando uma dimensão muito grande, ao ponto que os freelas pra fazer presenças pontuais em eventos já não estavam suprindo a necessidade da alma de ser drag queen, né. Nisso, a gente estava caminhando juntos, Gustavo e Vinícius, Larissa e Mackaylla. Isso era 2011, 2012. Eu já estava no meio da graduação em Artes Cênicas, e queria ser drag queen. Não queria fazer serviço esporádico. Foi aí que as coisas começaram a mudar, a tomar outras formatações. Eu comecei a me produzir e foi quando Mackaylla apareceu mesmo.

André: Por que Mackaylla?

Mackaylla: Eu sou muito fã de ginástica artística, adoro! Tem uma ginasta norteamericana que se chama McKayla Maroney. Aí eu dei uma abrasileirada, fiz um movimento tropicalista e coloquei Mackaylla. Acho que ficou mais forte assim. Mackaylla! [pronuncia com um suspiro]

André: Vocês chegaram a se apresentar em boates gays?

Larissa: Nunca. A gente praticamente não passou pelo público LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros], onde comumente as drag queens surgem.

Mackaylla: Foi uma via esquisita como a gente se colocou como drag queen. Não foi assim: você se monta, vai pra boate, ali você gosta ou não, aí começa a se profissionalizar na noite LGBT. Não foi assim.

Leia mais:  WebDança: software online oferece soluções para gerenciamento de escolas de dança

André: É peculiar porque vocês fazem um movimento mais típico de artistas cênicos. Inicialmente, se dedicam a ações que a gente associa mais frequentemente ao universo de quem está se colocando profissionalmente como ator.

Larissa: Mas é uma avalanche… a coisa vai tomando conta da sua vida. De repente, você começa a não se importar de voltar pra casa montado. 4h da manhã, o porteiro acorda e vê uma drag queen! A primeira vez que aconteceu, eu disse que era festa à fantasia. Você ainda não sabe lidar com aquilo, então já vai se desculpando o tempo inteiro. Você se protege na visualidade, no humor. Você se protege porque não está pronto, e percebe que nunca vai estar, na verdade. Quando você pensa na rua, no espaço social democrático como um todo, você não vê drag queen. Andarilhas surgiu assim, como drag queens que caminham por todos os espaços. A gente não quer ficar só no campo dos eventos, a gente quer ir pro cinema, pro teatro, pra dança. Aí veio o edital do canal Futura e a gente inscreveu um projeto em que duas drag queens iam explorar a mobilidade urbana no DF [Distrito Federal]. Ver como isso funciona, como as mulheres estão nos transportes, onde estão os espaços LGBT… colocar as drags nas ruas, pra serem vistas, no metrô, no ônibus… drags andando a pé e de bicicleta.

Mackaylla: O Andarilhas também tem uma questão muito forte, de colocar a drag como uma pessoa civil. Isso é possível? Como isso é encarado? As pessoas pegam metrô, ônibus, descem na rodoviária, andam de carro. A drag é coisa da noite, não faz isso durante o dia. Como se reverbera uma discussão ao se colocar esses personagens num contexto cotidiano urbano?

 

André: A Marcia [Regina] passa a trabalhar com vocês a partir do Andarilhas?

Mackaylla: A Marcia assinou a fotografia e o estilo do filme, que ficou pronto em 2014. Hoje, ela está aqui com a gente porque isso reverberou. O encontro foi muito forte.

Marcia: Eu venho de um percurso de dança muito experimental. O lugar do risco está bem claro e assustador pra gente aqui na residência. A vida é isso mesmo.

Mackaylla: A Marcia vem com uma outra perspectiva, do olhar e da pesquisa dela sobre o encontro. A experiência dela é outra, muito diferente. É próximo da gente numa medida, traz um frescor, uma certa leveza. A gente está aqui pra discutir sexualidade em dança: Gustavo traz um olhar do street jazz, eu trago um olhar da dança contemporânea. Marcia também, mas vem com olhares outros pro nosso trabalho. Isso faz com que a gente fique um pouco nesse navio que segue em rumos estranhos. E que bom!

André: O projeto inscrito no edital do canal Futura já tinha como produto final um filme?

Larissa: Sim, um documentário curta-metragem de 15 minutos. A gente também queria desvendar as potências de interação entre as drag queens, os espaços e as pessoas.

Mackaylla: O canal Futura teve exclusividade sobre o filme por um tempo, aí depois a gente passou a enviar pra festivais e mostras. A gente ainda está nessa leva. Agora o filme vai estar no festival de curtas do Brasília Shopping. O que também é interessante sobre o Andarilhas é como as coisas vão se desdobrando: tem o encontro dos amigos, das drags, o filme. Aí, do filme, outras coisas aconteceram: a gente teve a oportunidade de desenvolver o workshop Gravidade Drag Queen. É sobre drag queens, mas é aberto a todas as pessoas que quiserem fazer. A gente também fez Andarilhas: A Festa, no Balaio Café; nós mesmos produzimos a festa. A gente é madrinha do projeto SOMA, que é de combate ao bullying nas escolas públicas do DF… Quando você tem coisas a dizer, vê oportunidade em tudo!

André: O que vocês têm ganhado com o período de residência artística aqui no Centro Coreográfico?

Mackaylla: A coisa de se revisitar tem sido muito forte na residência. Revisitar suas personas: essas drags ou alteregos. Como Rabita Vicentina, Larissa Hollywood e Mackaylla – Marcia, Gustavo e Vinícius. A montagem que você está vendo não é a mais tradicional, no sentido de como essa personagem nasceu, como ela foi projetada no começo. Larissa e Mackaylla, principalmente, tinham uma coisa da alegoria muito mais latente. Tutus enormes, coloridos, com espartilho, peruca, flores e muitas jóias. Muitas cores! Aqui no Centro Coreográfico apareceu a barba, a coisa de assumir mais o seu próprio cabelo, os pelos. Não tem peito falso. A residência tem trazido esse olhar menos segmentado, que confunde o que é o intérprete e o que não é.

 

O Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro fica na Rua José Higino, 115 – Tijuca (metrô Uruguai) – Rio de Janeiro (RJ).

Comentários