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#NASUACARA: Afrofunk Rio

eixo do fora#10: “#NASUACARA!”, por Dally Schwarz

 

O chamado que acompanha as postagens da Cia. Afrofunk Rio no Facebook é #NaSuaCara! As oficinas afrofunk carioca acontecem desde o ano passado, já tendo rolado na Lapa, Morro do Fallet, Rio Comprido e na Cidade Alta. Comandadas por Taisa Machado e Renata Batista, as atrizes e dançarinas trazem uma proposta de dançar o funk misturada com a ideia do empoderamento da mulher negra.

As aulas, que são chamadas de Oficina Espetáculo Baile, misturam ritmos e estilos não só do que vemos na cultura funk, mas das danças de matrizes africanas, tais como twerk, kuduro, dancehall, integrando também referências afro-brasileiras da dança dos orixás e ensinamentos do candomblé. Entendo que há pelo menos duas décadas o funk carioca está na moda e atravessa territórios para além das periferias e favelas onde surgiu, então conversei com Taisa, que avalia o cenário contemporâneo.

Ao questionar a representação da mulher negra na cultura brasileira, o julgamento machista e sexista em relação às dançarinas do funk, e a negligência do mercado de trabalho da dança no que se refere a tais profissionais, Taisa aborda elementos que atravessam o ponto crucial desse debate: o racismo no Brasil.

 

Taisa, gostaria que você se apresentasse e falasse um pouco sobre a sua trajetória.

Comecei a fazer teatro aos 19 nos semáforos do Rio e da Baixada com dois amigos importantissímos na minha caminhada, o Tchatcho, circense da Baixada, e o Adriano Cor, performer também aqui da Baixada. Logo procurei uma escola pra me especializar e me deparei com o Grupo Tá Na Rua [1], do diretor Amir Haddad. Foi no Tá Na Rua que eu descobri a possibilidade de usar as danças que eu aprendi no terreiro e até mesmo a educação que eu recebi lá de maneira artística. Eu não sabia que podia, eu não sabia que toda a cultura negra era desenhada por expressões artísticas tão importantes. Daí eu fiquei maluca pra dançar e uma amiga, a passista [2] de samba e de funk Sabrina Ginga, me indicou a Eliete Miranda, que é, sem dúvida, uma das importantes mestras de dança afro aqui no Rio. Fiquei um tempo em sua companhia, CorpAfro [3], mas não o suficiente para aprender aquilo tudo que a Eliete pode ensinar. Daí, foram vários pulos em diferentes oficinas e vivências.

Já que você citou o trabalho da Eliete Miranda, que outra referência no cenário carioca te chama a atenção?

Eu gosto muito do projeto Balé das Yabás [4] porque dá um espaço pra mulher negra além de dançar discutir sobre o papel dela na sociedade. Mas tem muita gente fazendo coisas legais! Não gosto muito é de trabalhos que falam sobre o universo cultural negro mas não contemplam nenhuma pessoa negra. Infelizmente, tem muitos projetos de maracatu e jongo que trabalham dessa maneira.

Afrofunk Rio
fonte: acervo Afrofunk

De onde veio a ideia de criar a Cia. Afrofunk Rio e as propostas de oficinas?

Tudo começou com uma oficina de dança. Eu comecei a estudar dança afro e quando ia pro baile eu ficava com vontade de dançar que nem nas aulas, e nas aulas de dança afro tinha vontade de dançar que nem no baile. Daí, um dia eu falei com o Camarão [5] da Cidade Alta [6], um dos melhores passistas do Rio, sobre isso. Ele, que está sempre criando tendências no funk, disse pra mim: “Quer misturar, mistura! O funk aceita tudo!!!”. Daí eu comecei a dançar, mas estava chato dançar sozinha e eu estava muito sem grana, então, pensei em começar a fazer oficinas. No primeiro dia de oficina foram 35 alunas, eu chamei mais algumas amigas pra ajudar. Quando a Renata, atriz do Tá Na Rua, veio, ela trouxe o teatro. Atualmente, a Cia. Afrofunk é composta por mim, bailarina e atriz; Renata Batista, bailarina e atriz; Negra Rê, MC; DJ Joana Dark; Bruna Maimone, Camilla Costa e Carol Smania, nossas produtoras; Irla Franco, técnica de som; e Andrea Villas Boas, do VB Atelier.

E o que seria, então, essa Oficina Espetáculo Baile?

A Oficina Espetáculo Baile é o nosso maior sonho. Nós somos filhas do Rio de Janeiro, nossas maiores influências são o carnaval, as manifestações religiosas, as celebrações de rua. Essas celebrações e os bailes, por exemplo, são territórios onde todo mundo vira artista. Você joga o seu melhor ali, se ilumina e assim passa a iluminar o mundo. No carnaval, por exemplo, as pessoas ficam lá produzindo suas fantasias, depois saem e fazem a festa. Elas sabem que cada um é parte da festa, do show. Nos bailes também, principalmente depois do movimento das dancinhas. Os bondes como o Tropa da Dancinha [7] levam figurinos e adereços e fazem cena no meio dos bailes, seguindo uma dramaturgia que é escrita pelo DJ. O Rio de Janeiro e o Brasil produzem muitas danças teatralizadas, temos mais de 120 diferentes tipos de danças populares no país. O Brasil produz muitos espetáculos. No caso da Oficina, nós estamos construindo uma pesquisa. Dividimos a Oficina em 6 atos; tem momentos que são livres e outros que nós trabalhamos passos de danças específicos. Nós somos guiadas por uma dramaturgia musical e narramos histórias, itans [8], fazemos rituais. É bem legal, mas ainda é uma pesquisa. Às vezes dá certo, às vezes no meio do caminho tudo muda… Eu e a Renata Batista, a Renatinha, somos atrizes do Tá Na Rua, então a gente tem essa pegada do improviso. Nós damos a oficina juntas.

Percebi que, na divulgação das oficinas nas redes sociais, vocês sempre fazem o chamado com as seguintes expressões: quebradeira e envolvênciarodinha das Zamigas e o famoso #NaSuaCara! Você poderia explicar essa linguagem?

Essa gíria envolvência eu ouvi pela primeira vez num encontro de passistas de funk. Foi o Cebolinha (Mister Passista do Bonde do Passinho) [9] que estava falando. Nós usamos muito essa linguagem de rua, de periferia. O funk carioca é um partido alto [10] eletrônico. O DJ tem um tambor eletrônico, e ele brinca de ser ogan [11]. Não tem como não quebrar o corpo todo, soltar tudo, se envolver, se hipnotizar. Na aula, por exemplo, a gente usa diferentes técnicas pra quebrar o quadril e extravasar. O funk é uma delas, e é nítido que é a preferida das meninas. Nós trabalhamos com a vertente do funk que é mais sexual. É quente demais, você vê alguém dançando e já fica tudo quente em volta. É quebradeira e envolvência. Tem o ritmo dessa cidade. Nos bailes cariocas sempre rola o momento de dançar em roda. Quando tem um passista quebrando tudo, logo se forma uma rodinha em volta dele e dali acaba surgindo uma batalha porque sempre algum outro passista vem mostrar o que sabe. A cultura negra, na verdade, tem essa coisa com a roda. Eu fico com a sensação de que é pra todo mundo se olhar e brincar junto. A rodinha das Zamiga é o nosso momento mais descontraído da oficina, um espaço seguro pra qualquer menina entrar e dançar, mostrar o que sabe, se jogar no chão, rodar, fazer o que quiser! É aquele momento de se soltar e dar muita pinta! A Gabriela Ziriguidum, que é uma dançarina incrível do Rio e já deu aula com a gente, veio com essa expressão, NaSuaCara!, que tem tudo a ver com o que fazemos. Nosso lema é ousadia, é jogar na cara dos racistas nossa negritude, dos machistas nossa feminilidade e nossa disposição! Jogar na cara dos caretas, dos reacionários, dos conservadores, dos vacilões, dos escrotos… Jogar nossa abundância, nossas cores, nossos ideais, nossa bunda, nossa buceta, nossa quebradeira, nossa raiz periférica! Jogar sem dó!

Afrofunk Rio
fonte: acervo Afrofunk

Vocês abordam muito a questão da mulher, das mulheres negras, e vi também que vocês usam com frequência a tag #Amazonas

Nós somos um coletivo de mulheres! A maioria mulheres negras! Estamos na luta e a ideia de fazer a oficina surgiu da necessidade de falar dessa contribuição do corpo da mulher negra pra dança brasileira. Nossa dança sempre foi muito marginalizada pela elite branca dominante. A preta-passista-show é o cartão postal do país, mas ela não é tratada como uma profissional da dança, como uma pessoa que tem uma habilidade corporal. É tratada como um objeto de desejo, como se ela não precisasse treinar e nem se preocupasse com o trabalho dela como artista. Ela é vista simplesmente como uma mulher negra de forma naturalizada. Ela já nasceu sabendo sambar, segundo a ideologia racista que não aceita nossa dança como construção artística. A mulher negra, em todos os aspectos da vida, é uma lutadora. Ela tem que enfrentar o racismo, o silenciamento, tem que suportar a história de escravização do seu povo, e ela também luta quando dança porque nosso corpo e nossa cultura não são respeitados na sua força genuína. A sociedade é racista e não gosta de mulheres que rebolam, que se dão bem com a sua sexualidade, que se tocam e gozam no movimento enquanto dançam. Por isso, nós usamos a palavra Amazonas. As amazonas são mulheres guerreiras. Em vários lugares, se tem registro de tribos e exércitos femininos. Aqui no Brasil tinha as Amazonas, uma tribo de guerreiras canibais amazônicas. Nós invocamos essa força. A matriz brasileira é negra e indígena. São mulheres pró-ativas, férteis, produtoras, que foram massacradas e estupradas. Então, é uma homenagem e também uma invocação. Somos Amazonas Urbanas e estamos numa guerra contra o machismo e o racismo. Nossa arma é nossa dança!

Já que você está falando sobre a importância da cultura negra na nossa formação, fiquei pensando: mas o funk não é uma expressão cultural afro? Por que vocês reforçam isso dizendo afrofunk?

Porque como a gente já disse e sempre vai dizer estamos em guerra e não fugimos da luta. O funk carioca é considerado Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro (Projeto de Lei N° 4.124, de 2008), mas sempre foi marginalizado e, desde as novas medidas de segurança do estado como as implantações das UPPs, já foram “fechados” mais de 72 bailes [12]. É muita opressão em cima do jovem negro, desse produtor de cultura. Isso é racismo. No nosso coletivo tem mulheres brancas e elas entendem que a luta antirracista é fundamental e urgente. A mulher negra e o jovem negro, todo o povo negro vive uma guerra diária no Brasil. Nossa aula fala sobre ancestralidade, sobre encontrar através da dança os impulsos mais ancestrais dentro do nosso comportamento contemporâneo. O afro está ao lado do funk pra todo mundo lembrar que NÓS sabemos disso, que nossa memória está viva, que o funk é afro e o afro é funk, assim como o kuduro, o dancehall, o balé baiano e o twerk, que são as danças que nós trabalhamos. Mas também tem outro motivo: a nossa oficina não é uma oficina de funk. O funk é nossa base de pesquisa, de onde vem tudo. Assim, a gente vai comparando com outros estilos e lembrando de gestos mais antigos também, mas não é só funk. Uma vez, o Camarão, o passista que eu já citei aqui, falou assim: “Não existe essa coisa de aula de funk. Quer dançar funk, tem que ir pro baile funk.” A gente acredita muito nisso. Por isso, a gente não dá aula de funk. Nosso projeto é de afrofunk. É mais que um projeto de dança, é uma luta antimachista e antirracista, uma luta dançada.

Afrofunk Rio
fonte: acervo Afrofunk

Como você vê o funk carioca na atualidade, com todas essas reverberações na grande mídia, em espaços fora da favela?

Leia mais:  Pulsar Cia. de Dança leva "Por trás da cor dos olhos" ao Teatro Cacilda Becker (RJ): até domingo!

O funk é marginalizado pelo Estado, mas é aclamado pelo povo. As pessoas têm essa relação com o funk; elas amam e odeiam porque é um tema de difícil defesa mesmo. É muito complexo. Então tem pessoas que são bem oportunistas, na minha opinião, porque eu vejo estourar várias festas e eventos sobre funk que não contemplam os funkeiros. Agora tem uma moda de universitários escreverem teses e pesquisas sobre funk, e depois irem para mesas em debates falar sobre funk. É bem ridículo, na verdade! Todo mundo pode falar sobre o que quiser, mas não pode se apropriar de um assunto e excluir seu produtor. Um bom exemplo é a Valeska Popozuda. A classe média resolveu gostar dela, mas não poderiam aceitá-la com aquela cara e jeito de favelada, com aqueles palavrões e aquela roupa, então mudaram ela toda, colocaram roupas aceitáveis, letra de música aceitável, e agora todo mundo pode escrever e falar sobre ela à vontade! Outro dia tinha uma matéria sobre a Valeska na revista de domingo do jornal O Globo e tinha dois sociólogos falando sobre ela e sobre a música dela. Absolutamente nenhum funkeiro, nem a própria Valeska, falavam da sua mudança… Isso é feio! Fica teórico e de cima pra baixo, e sobre a dança eu prefiro nem comentar… só funkeiro sabe dançar funk! Se você nunca curtiu um baile, pode até saber o passo mas não vai ter a manha, o suingue e a ginga. As pessoas que organizam esses eventos têm que perceber que estão sendo racistas e segregadoras! Coloca o sociólogo, mas coloca um funkeiro também! E, poxa, sociólogo? Sério mesmo?

 

Abaixo, confira a participação de Taisa no programa Firme no Blindão – especial Mulheres no Poder:

Para saber mais:

[1] Tá na Rua

Tá Na Rua é o nome de um grupo de teatro de rua da cidade do Rio de Janeiro dirigido por Amir Haddad. Fundado em 1980 e sediado na Lapa, o grupo vem desenvolvendo uma pesquisa de linguagem própria para apresentações nas ruas cariocas, inspirada em Bertold Brecht e no carnaval.

[2] Passista 

Passista é o nome que se dá ao bailarino de funk, assim como no frevo e no samba.

[3] Cia. CorpAfro

Criada em 2005 pela atriz e bailarina Eliete Miranda. A companhia atua no desenvolvimento corporal através de gestos, memórias, músicas, símbolos e danças, num passeio pelos movimentos da cultura afro-brasileira.

[4] Balé das Yabás

Grupo de mulheres negras, composto por Sinara Rúbia, Ludmilla Almeida e Ana Flávia Vieira, que tem como missão contribuir para o fortalecimento e empoderamento de mulheres negras. Ao compreender o seu protagonismo, organizam as Vivências do Balé, oficinas com dinâmicas de interação entre ações cotidianas e os mitos yorubanos referentes às Iyabás (orixás femininas cultuadas no Brasil). As oficinas propõem a análise de aspectos políticos, sociais e culturais das mulheres no cotidiano.

[5] Camarão

Passista e morador da Cidade Alta que estava no primeiro vídeo de passinho. É um criador de tendências, muito famoso entre os passistas. Um dos primeiros a se arriscar na dancinha.

[6] Cidade Alta

Comunidade da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, muito importante para o funk. O “Baile da Alta” é um clássico, acontece desde os anos 1990, com a presença de MCs importantes. Na Cidade Alta, foi gravado o primeiro vídeo de passinho do Brasil – mesmo local onde surgiu o movimento das “dancinhas”, uma vertente do passinho. O Baile da Alta abrigava quase 30 mil pessoas, tinha 6 equipes de som, e foi considerado um dos melhores bailes da cidade em 2014. Desde a ocupação da Cidade Alta pela polícia, os bailes estão proibidos. No Rio, não há mais bailes desse porte.

[7] Tropa da Dancinha

Um bonde da Cidade Alta que faz dancinha, uma vertente do passinho. A dancinha mistura encenação e dança. A essência da brincadeira é você fazer uma cena com passos de dança que são mais “engraçados”. A Tropa da Dancinha leva figurino e adereços para o baile.

[8] Itans

Conjunto de todos os mitos, canções, histórias e outros componentes culturais dos yorubás. Os yorubás que aceitam o itan como fato histórico, confiam nele como verdade absoluta na resolução de disputas. Os itans são passados oralmente de geração à geração.

[9] Cebolinha

Um dos passistas mais importantes da “velha guarda do passinho” e do funk. Dançava com o Gambá (outro passista importante na história do funk e do passinho, que foi assassinado). Esteve presente em alguns momentos importantes do passinho, tais como a ida para as Paraolimpíadas em Londres (Inglaterra), e o filme A Batalha do Passinho. Além disso, participou como jurado na Batalha do Passinho, patrocinada pela Coca-Cola. É integrante do Bonde do Passinho, e desenvolveu um método de treinamento para o funk através de oficinas.

[10] Partido Alto

Samba do partido-alto, partido alto ou, simplesmente, partido, é um estilo de samba, surgido no início do século XX, dentro do processo de modernização do samba urbano do Rio de Janeiro. Tem suas origens nas umbigadas africanas e é a forma de samba que mais se aproxima dos primórdios do batuque angolano, do Congo e regiões próximas.

[11] Ogan

Nome genérico para diversas funções masculinas dentro de uma casa de candomblé. É o sacerdote escolhido pelo orixá para estar lúcido em todos os trabalhos. Não entra em transe; mesmo assim não deixa de ter a intuição espiritual.

[12] Sound System

A cultura dos sound systems, ou sistemas/equipes de som, começou nos anos 1950, na Jamaica. Eles faziam sucesso principalmente entre a população menos privilegiada, que não tinha condições de ter rádio ou toca-discos.

 

Dally Schwarz é artista, arte educadora e pesquisadora. Investiga os corpos contemporâneos e seus processos de criação na interseção entre artes visuais, dança contemporânea e performance. Formada em Estudos de Mídia na UFF e mestre em Linguagens Visuais no PPGAV-UFRJ, cursa a formação de bailarino contemporâneo na Escola Angel Vianna.

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally para ctrl+alt+dança.

 

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