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[ctrl+alt+dança MÓVEL] [textos] Raíssa Ralola compartilha relato sobre a abertura de África Livre (RJ) com a presença de Mariama Camara

[Mariama Camara na abertura da 4a. edição do África Livre (RJ) / fotos: Julius Mack]

Em 2013, quando eu e André Bern visitamos a Aldeia Maracanã, um centro de cultura indígena e resistência urbana localizado ao lado do Estádio Maracanã no Rio de Janeiro, entrevistamos Potira (da etnia Cricati) e Daniel (originário dos Puri). Naquela ocasião, Daniel Puri disse que “nossa dança é coletiva, nossa dança é pra todo mundo. Ela não é uma dança que tem, por exemplo, o dançarino profissional. Não, todo mundo dança. A gente tá junto, entra criança, entra idoso, né… entra guerreiro, entra mulher, entra todo mundo”. [clique aqui para conferir a postagem sobre a Aldeia Maracanã]

Assim rememoro porque o que presenciei ontem na praça do Vidigal, na abertura do 4º África Livre, foi algo próximo à citada fala. No entanto, uma diferença: ontem, havia sim uma dançarina profissional – Mariama Camara, artista africana, de Guiné, que integrou a companhia Les Ballets Africains durante oito anos, entre 1999 e 2007. Tal dado, ou tal presença, de modo algum foi empecilho para que, assim como os indígenas, todos dançassem juntos: mulheres, homens e crianças de variadas idades.

Mariama, no comando, abriu a edição do evento na praça da entrada da comunidade carioca, promovendo um festejo coletivo, com danças, cantos e tambores. Ministrou uma oficina não tão convencional, pois se apresentou naquele espaço e proporcionou a todos uma oportunidade de performance em grupo.

Ela convidava, quem ali pela praça passasse, a aprender as danças de sua Guiné, de sua África, dando a entender tratar-se de um tipo de dança onde todos dançam, que não é privilégio de uma minoria. Mostrou, demonstrou, aproximando-se para ensinar crianças e apresentar movimentos, auxiliando em meio às dificuldades de algumas pessoas.

Ainda que não a tenha experimentado eu mesma, aquela não era uma movimentação simples. Eram frases coreográficas vigorosas, rítmicas e complexas. No entanto, todos dançaram e acompanharam o festejo, ocupando-se mais deste do que da precisão dos movimentos. Mariama estimulava e, junto ao tambor, promovia o ânimo dos participantes que bailavam em coro.

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Fabricava-se dança e música como festejo, ritual – como parte da vida, de seus momentos, de seus marcos, partícipe na formação de cada indivíduo. Mariama ensinava as danças com expressividade, força e destaque, na medida em que ela docemente executava verdadeiros solos entre as pessoas, ao demonstrar os movimentos. Uma cena aberta, na qual a bela bailarina, com o corpo empregado em rigor técnico, dava vista à sua trajetória profissional.

Esta ambivalência foi a maior alegria que a noite deflagrou: a eminência viva de uma bailarina rigorosa em sua dança que, em sua doçura ao ensiná-la, promovia um coro cênico em plena praça. Mariama me provava que rigor e doçura são qualidades que não se excluem mutuamente; e que talvez o coletivo e o individual, assim como a dança da cena e a dança do cotidiano, não estejam assim tão apartados.

“Não dá pra entender o Brasil sem entender o indígena”, dizia Daniel Puri, durante a entrevista na Aldeia Maracanã. Logo, penso que também é indispensável remontar às nossas raízes africanas se desejamos compreender mais sobre nosso país e nós mesmos.

O África Livre acontece até amanhã (24/mai) na Associação de Moradores do Vidigal. Em seu último dia de atividades, o evento começa às 14h, com diálogos, oficina de percussão e dança. Informações mais detalhadas podem ser obtidas através do e-mail africalivre@outlook.com.

A Associação de Moradores do Vidigal fica na Avenida Presidente João Goulart, 737 – Vidigal – Rio de Janeiro (RJ).

 

Raíssa Ralola é artista e educadora. Estudou Artes (UFJF), Dança e Metodologia Angel Vianna (FAV). É mestre em Artes (UERJ), participa da equipe de coordenação da Pós-Graduação em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais na Faculdade Angel Vianna (RJ) e é professora da Faculdade Machado Sobrinho (Juiz de Fora (MG)). Divide moradia entre Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ).

 

 

 

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