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"Dance is my Landscape": Gregory Lorenzutti inaugura exposição fotográfica na Austrália

Companhia de Ballet da Cidade de Niterói / foto: Gregory Lorenzutti

A convite do Dancehouse, centro australiano de pesquisa e criação em dança contemporânea (localizado na cidade de Melbourne), o bailarino-fotógrafo Gregory Lorenzutti inaugura nesta sexta-feira (12/jun) a exposição intitulada Dance is my Landscape (em tradução livre, “Dança é a minha Paisagem”). Consideravelmente ampla, a exposição ocupará todo o prédio do Dancehouse com imagens de dança captadas tanto no Brasil (a da Companhia de Ballet da Cidade de Niterói, que “encabeça” esta postagem, por exemplo) como na Austrália.

A partir de uma breve troca de e-mails, André Bern (editor de ctrl+alt+dança) entrevista Gregory em busca de pistas sobre como os trabalhos de bailarino/coreógrafo e fotógrafo dialogam. “(…) no final de tudo acredito que meu interesse está nessa zona desfocada entre as duas disciplinas. Dança e fotografia estão se tornando uma prática só – mesmo quando não fotografo dança”, explica o artista. Gregory trabalhou como bailarino e ensaiador da Renato Vieira Cia. de Dança por 12 anos, antes de uma longa temporada (de 9 anos) como intérprete da Companhia de Ballet da Cidade de Niterói.

O bailarino-fotógrafo nos conta que a exposição será dividida por assuntos e geografias, enquanto conceito espacial: Paisagem Australiana; Paisagem Brasileira; Memórias/Corpos Fragmentados; Geografia de uma Dança: Retratos; e Sala de Ensaio / Corpo A-performático. Dance is my Landscape ainda conta com duas instalações, uma delas ocupando todo o Teatro Sylvia Staehli. Conforme aponta o texto de divulgação da exposição:

O fotógrafo Gregory Lorenzutti encontra e enquadra o movimento com o olhar afiado e a capacidade cinética de um bailarino. A partir de um forte interesse nas relações entre movimento, fotografia e identidade cultural, Lorenzutti se desloca na direção de fronteiras híbridas e permeáveis, extraindo elementos de seus locais efêmeros, capturando-os sob uma nova luz.

A aproximação entre Gregory e André aconteceu através de contatos em comum (ainda que nunca tenham se encontrado pessoalmente); no final de 2014, André realizou um projeto de residência artística na cidade de Sydney, com recursos do Prêmio FUNARTE Klauss Vianna de Dança 2013. Conforme ele nos conta: “Muitas pessoas mencionavam o nome do Gregory sempre que eu dizia que era brasileiro. Então, acabei entrando em contato com ele durante o breve período que passei na Austrália. Infelizmente, ele estava em Melbourne, e eu queria me concentrar no circuito de Sydney, onde estavam baseadas minhas pesquisas e experimentos. Não nos conhecemos pessoalmente, mas foi bom ‘trocar figurinhas’, ainda que super rápido, via e-mail”.

O bate-papo entre Gregory e André, que vocês podem conferir abaixo, é um desdobramento dessa breve interação virtual. Para quem estiver na Austrália e puder conferir a exposição – que fica em cartaz apenas até domingo (14/jun) – o Dancehouse fica em 150 Princes Street, North Carlton – Melbourne – Victoria 3054.

 

André: Quando/como surgiu seu interesse pela fotografia?

Gregory: A fotografia vem permeando minha vida há algum tempo. Desde criança, para ser mais exato. Um dos irmãos do meu pai (Aguilar Lorenzutti in memoriam) foi artista plástico e fotógrafo, e desde cedo eu me fascinava quando o via com sua câmera… O seguia sempre que podia. Depois meu pai me deu minha primeira câmera, uma Pentax K1000. Daí em diante não parei de fotografar. Mas foi só em 2008 que eu comecei a perceber que a fotografia começou a atuar mais efetivamente na minha vida. Não esperei muito e fui estudar! O curioso foi perceber como minha dança foi mudando na medida que a fotografia tomava mais espaço e tempo em minha vida.

André: Como as habilidades de bailarino e fotógrafo se encontram/cruzam? O que uma habilidade ‘empresta’ à outra?

Gregory: Essa é a questão que possivelmente me leva a fotografar. O que vejo é movimento, em toda parte. O conceito de still photography é algo que não estou muito interessado. As imagens que tento produzir são “provocadas” pelo movimento. Por outro lado a dança está se tornando cada vez mais uma composição espacial – positivo/negativo, luz/sombra e forma. Dança e fotografia estão de tal maneira interligadas que produzo dança através da fotografia. Meu mais recente trabalho como coreógrafo (Mechanical Eye – estreado em 1 de Outubro 2014 em Melbourne) foi motivado pelo meu interesse em retratos e como nossos corpos são afetados/modificados/reinventados através da imagem. Não sei mais quando o bailarino/coreógrafo termina e o fotógrafo começa… E no final de tudo acredito que meu interesse está nessa zona desfocada entre as duas disciplinas. Dança e fotografia estão se tornando uma prática só – mesmo quando não fotografo dança.

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André: Em que medida “a dança é sua paisagem”?

Gregory: A dança é o mundo onde habito, o meio pelo qual converso. A fotografia é minha geografia, o meio pelo qual entendo e onde ao mundo/coisa é dada uma forma. Os corpos que dançam são acidentes poéticos nessa paisagem. A singularidade. Um tipo de permanente desaparecimento. Quando olho para um bailarino em cena ou ensaiando vejo uma força da natureza em convulsão, um potencial fotográfico em constante mudança. A imagem me move na paisagem.

André: Fale um pouco sobre a curadoria de imagens para a exposição. O que foi priorizado?

Gregory: Esta exposição tem curadoria do time criativo da Dancehouse (Angela Conquet e Veronica Bolzon). Elas me ofereceram um importante feedback sobre o que ser exposto. Logo depois a curadora Ashlee Baldwin foi convidada pela Dancehouse para organizar e questionar nossas escolhas. Ashlee tem sido fundamental no corte final das imagens selecionadas. É muito difícil para mim dizer não para uma imagem que tenho afeto. No processo de escolha as imagens que foram ficando estão fundamentalmente tratando de movimento, de transições, suspensão… Tem uma sala dedicada a retratos de dançarinos e coreógrafos, uma sala de ensaio onde fotografias de processos de criação serão expostas, uma instalação de polaroids e uma instalação no teatro Sylvia Staehli. A exposição irá ocupar todo o prédio da Dancehouse… Uma tremenda tarefa!

André: Que companhias/artistas brasileir@s são retratad@s na exposição? Qual é sua relação com el@s?

Gregory: Enquanto morei no Brasil – no Rio de Janeiro mais precisamente – tive a chance de fotografar muita dança. Por 12 anos trabalhei como bailarino e ensaiador da Renato Vieira Companhia de Dança e por nove anos dancei no Ballet de Niterói. Naturalmente, estas duas companhias estarão na sala chamada “Brazilian Landscape”. Mas também tem images de companhias como Pulsar (Maranhão), Fragmento Cia de Dança (SP), Quasar (Goiânia) e Companhia Urbana de Dança (RJ). E não posso deixar de mencionar uma de minhas musas: Lavinia Bizzotto – ela estará lá. Sempre.

André: Conte-nos uma curiosidade sobre alguma das fotografias presentes na exposição.

Gregory: (risos)… Tenho várias histórias curiosas sobre várias imagens… Mas uma em particular me veio à lembrança: em 2011 fotografei pela primeira vez a Pulsar Cia de Dança (dirigida por Abelardo Telles, com coreografia de Fran Mello) no Maranhão. Estávamos numa locação no centro histórico de São Luiz e eu solicitei uma cama inflável ao Corpo de Bombeiros para uma imagem onde uma das bailarinas da cia seria fotografada caindo de uma janela de um dos sobrados. Claro que não consegui autorização para fazer isso, muito menos a cama inflável. Então começamos a andar pela cidade e eu meio decepcionado quando vimos um muro bem alto numa praça. Eu pensei: aqui pode funcionar! Dei coordenadas aos bailarinos para servirem de rede de proteção a ela. Deitei na calçada e pedi se ela (Tássia Almeida) se sentia confortável em fazer a foto… Mal tive tempo de colocar a câmera na frente do meu olho, ela saltou. Tivemos menos de 2 segundos para segurá-la antes dela cair no concreto. A foto foi feita… num tipo de entrega que não sei explicar. Acho que é por isso que fotografo dança…

 

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