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[ctrl+alt+dança MÓVEL] [textos] Raíssa Ralola compartilha impressões sobre performance do AUM / Núcleo de Caos no Rio de Janeiro

[AUM / Núcleo de Caos em performance no bairro da Glória (RJ) / fotos: Julius Mack]

Corpos seminus, besuntados de argila, assentaram-se ao redor de um instrumento curioso, uma caixa de som por mim desconhecida. Um deles a tocava enquanto os outros, imóveis, pareciam apenas escutar. Algo ritual e íntimo entre os três performers tinha início naquele momento e, aos poucos, uma movimentação surgia dos mesmos.

Menos e mais definidos, menos e mais lentos, os movimentos revelavam três estéticas, histórias de vida e de cena diferentes. Havia algo ali. Uma árvore muito grande assegurava oxigênio e respiração àquela coisa (des)cabida num centro de cidade movimentado e barulhento, mesmo às oito da noite de um domingo de outono.

O tempo mais lento, sutil e quase cerimonioso foi chegando até mim, e um interesse longo foi capaz de me conectar à cena. Durante quase duas horas estive junto ao Núcleo de Caos. Algumas pessoas passavam e se detinham para observar, outras deixavam comentários que evidenciavam uma desconexão entre o que era dançado e o que era vivido no bairro da Glória.

AUM Núcleo de Caos [2] foto_Julius Mack
AUM / Núcleo de Caos // foto: Julius Mack
Uma mulher que passeava com sua gorda cachorra fez menção ao cemitério, relacionando-o à cena e, a partir de então, pude perceber que, sim, naquele espaço/tempo se falava sobre a morte. Naquele momento de noite: morte do dia; neste momento de outono: início da morte da natureza no ano, que se intensifica com o inverno. Percebi que observava algo sobre a morte como uma etapa natural da vida. Uma etapa vivida diariamente, anualmente, durante uma existência singular.

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Amarradas aos corpos, tiras de tecido leve e dourado flutuavam abruptamente, sempre que uma movimentação de ar específica acontecia dentro do vão subterrâneo do metrô. Havia uma perspectiva ascendente, explosiva, estabelecendo contraponto ao ritmo lento das movimentações dos performers. Cor brilhante, quase solar.

Em um destes momentos de ar, percebi que também falavam sobre a vida. Como yin-yang, oculto e manifestado, ali estava aplicado o velho/novo jogo das polaridades, reminescente das tradicionais filosofias orientais. Algo tão antigo e tão atual, de fôlego arcaico e atemporal.

Raíssa Ralola (redatora de ctrl+alt+dança) e AUM / Núcleo de Caos (no fundo) / foto: Julius Mack
Raíssa Ralola (redatora de ctrl+alt+dança) e AUM / Núcleo de Caos (no fundo) / foto: Julius Mack

 

Sobre AUM / Núcleo de Caos, visite: http://nucleodecaos.wix.com/nucleodecaos.

 

Raíssa Ralola é artista e educadora. Estudou Artes (UFJF), Dança e Metodologia Angel Vianna (FAV). É mestre em Artes (UERJ), participa da equipe de coordenação da Pós-Graduação em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais na Faculdade Angel Vianna (RJ) e é professora da Faculdade Machado Sobrinho (Juiz de Fora (MG)). Divide moradia entre Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ).

 

 

 

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