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[textos] Raíssa Ralola homenageia a mestra Angel Vianna em seu 87º aniversário

[Angel Vianna / fonte: impresso.em.com.br]

Educadora, bailarina e coreógrafa, a mestra geminiana da dança brasileira completa 87 anos no dia de hoje (17/jun) e o ctrl+alt+dança não poderia deixar passar em branco este momento. Ainda muito ativa no cenário ao qual escolheu se dedicar, Angel Vianna dirige a Escola e Faculdade que recebem seu nome, ministra aulas, workshops, palestras e, por vezes, se apresenta em cena. Em 2014, foi a artista homenageada pelo SESC Palco Giratório e circulou por diversas cidades brasileiras com Qualquer Coisa a Gente Muda, espetáculo de João Saldanha (no qual dançou ao lado de Maria Alice Poppe).

Quem por ventura já se deparou com ela sabe que Angel merece ser lembrada. Estar em sua presença, ser mirad@ por seus olhos e brindad@ com seu sorriso é algo especial. Angel é capaz de destinar sua atenção (algo muito priorizado em seu trabalho corporal) a toda e qualquer pessoa. Tomar contato com seus ensinamentos – seu modo de pensar a vida, o corpo e o movimento – é, de algum modo, conectar-se com o atemporal.

Presto-lhe uma breve homenagem narrando algo que aconteceu já há algum tempo, e que se torna vivo num breve exercício de rememorar. Tenho certeza que deve ser lembrado, por isto insisto em torná-lo texto, em formato de carta. Um breve momento reminiscente, já editado pela memória, pois como disse o poeta e escritor Wally Salomão, “a memória é uma ilha de edição”. Daqui em diante narro, permitindo-me adentrar um espaço extremamente pessoal. Convido-lhes a passear por um labirinto sincero, sabido de cor.

 

Carta a Angel Vianna, Esther Weitzman, Frederico Paredes, Márcia Rubin, Maria Alice Poppe, Paulo Caldas e Alexandre Franco

Juiz de Fora, junho de 2015

Caros Angel, Esther, Fred, Márcia, Mª Alice, Paulo e Alexandre:

 

Alguns de vocês não me conhecem, mas somos discípulos no movimento da mesma mestra: Angel Vianna. No entanto, pertencemos a diferentes gerações; por esta mesma razão, numa corrente discipular, vocês também se tornam meus mestres do movimento.

Há longo tempo desejo escrever-lhes e chegou o momento de realizá-lo. Imagino que já saibam que aqui os reúno pela ocasião na qual se encontraram em outubro último: a conferência dançada “Do tempo que estive com Angel, onde estou hoje?”.

Tal encontro, promovido pelo 8º Seminário da Faculdade Angel Vianna, trazia esta pergunta central, que deveria ser respondia em formato de “conferência dançada” por cada um de vocês. Algo que decididamente merece ser revivido, pois vocês instauraram no palco do Teatro Cacilda Becker uma ambiência de transformação coletiva, e vivenciaram junto a nós, sua audiência, um rito de passagem. A fim de tocar algo disto novamente, entoo este texto.

O teatro estava cheio e o evento foi aberto por uma explanação memorialista, calorosa, de Luciana Bicalho sobre os 30 anos da Escola e Faculdade Angel Vianna. A primeira conferencista foi Esther Weitzman, solar, altiva, rememorando suas danças de vários períodos, como que reincorporando idades e estados de corpo já não mais presentes. Logo após, Frederico Paredes dançou – realmente encarnado em todos os poros de sua pele – para as mulheres, a meu ver: para Angel e sua recém-chegada filha Alice.

A terceira conferência foi de Maria Alice Poppe, que moveu intensa, trazendo-me a imagem de movimento das lagartas em sua trajetória para virar borboleta. Delicadas, decididas, num ensaio prolongado e pacientemente estético. A quarta, de Márcia Rubin, que contou com participações inusitadas (de Fred Paredes e Renata Reinheimer – esta saltou da plateia e dançou com fluidez e encadeamento invejáveis) e, quando ficou sozinha em cena, deixou-se mover… pelos Deuses! Foi como ver um ser desnudo ativando em sua melhor forma a condição humana.

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Esther, Fred, Maria Alice, Márcia. Alexandre Franco foi o quinto elemento. Entrou em cena e solou trazendo algo novo àquela noite. Sua conferência não parecia passar por um tom tão pessoal como o ambiente percorrido por todos os quatro conferencistas anteriores. Para mim, Alexandre foi ali o poeta fingidor de Fernando Pessoa.

Por último, Paulo Caldas, habitando um espaço interno e difuso da memória, frágil como alguns poucos homens que encorajam-se momentaneamente e tornam-se de novo meninos. Na tentativa de lembrar a dança que forjou para a mestra, Angel foi à cena e dançaram juntos… até que Paulo sentou-se para assisti-la. Ela continuou sozinha e depois dirigiu-se a abraçá-lo.

Então todos os seis entraram na arena e foi aquela coisa de casa de mãe aos domingos: todos abraçando e beijando a anciã. A noite teve fim com um curto comentário, em virtude da avançada hora, tecido pela crítica de dança convidada, Helena Katz. Ela lembrou Walter Benjamin e a possibilidade de plasticizar o passado, dando formas ao presente.

Foi uma das mais belas coisas que assisti em toda a vida. O teatro abarrotado de gente e, vocês, um a um, adentrando a cena para dizer (como conferencistas da dança) à mestra Angel Vianna onde é que se encontram hoje, após os anos em que foram forjados por ela e sua própria dança. Saí leve, feliz e realmente modificada dali.

Por algum motivo (não excluo a possibilidade ficcional, ainda que acredite na potência micro ou macrotransformadora do ato artístico), senti que me tornei uma pessoa melhor depois daquela noite. Compreendi certas coisas de maneira íntegra e real – sobre a corrente dos mestres e discípulos, e sobre os pequenos e grandes ideais.

Parece mesmo que você, Angel, soube decidir como deveria ensinar, como transmitir seu conhecimento: vivenciado em filosofia prática, filosofia da experiência. Soube também como ser mestra e forjar bons discípulos que seguirão semeando sua filosofia de trabalho. Bem lembro que você cultivou dezenas deles, que vivem mais ou menos próximos a você.

Finalizo esta carta deixando meus sinceros agradecimentos, como uma de suas discípulas, de terceira ou quarta geração. Presto uma breve homenagem a esta que deveria recebê-las diariamente – estar em sua presença é poder se sentir também homenageado, como ser humano. Afinal, como Angel mesma gosta de dizer: “Eu gosto muito de gente!”.

Raíssa Ralola é artista e educadora. Estudou Artes (UFJF), Dança e Metodologia Angel Vianna (FAV). É mestre em Artes (UERJ), participou entre 2013 e 2015 da equipe de coordenação da Pós-Graduação em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais na Faculdade Angel Vianna (RJ) e é professora da Faculdade Machado Sobrinho (Juiz de Fora (MG)). Divide moradia entre Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ).

 

 

 

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