Início » Notícias » [textos] Blogueir@ Convidad@: "Sustentabilidade, arte e os contextos urbano e rural", por Aline Bernardi

[textos] Blogueir@ Convidad@: "Sustentabilidade, arte e os contextos urbano e rural", por Aline Bernardi

SUSTENTABILIDADE, ARTE E OS CONTEXTOS URBANO E RURAL, por Aline Bernardi

 

A Revolução ou a Morte? Esse slogan não é mais a expressão lírica da consciência revoltada, mas é a última palavra do pensamento científico. Quando chove, cidadãos, quando há nuvem de poluição sobre o país, não esqueçam nunca que isso é responsabilidade do governo. A produção industrial alienada faz chover, e a revolução faz o bom tempo.

(Guy Debord, num texto escrito em 1971, citado por Eduardo Viveiros de Castro em sua palestra “A revolução faz o bom tempo” [1])

Em janeiro desse ano, David Harvey escreveu um texto sobre a crise da urbanização planetária [2], que começa exatamente assim: “Na noite de 20 de junho de 2013, mais de um milhão de pessoas em cerca de 388 cidades brasileiras tomaram as ruas em um enorme movimento de protesto. O maior desses protestos, reunindo mais de 100,000 pessoas, ocorreu no Rio de Janeiro e sofreu considerável violência policial”.

A indignação universal com a crescente desigualdade social e a ameaça ao processo de desenvolvimento evolutivo de nossa espécie estão cada vez mais visíveis no conjunto da vida terrena. A atual disputa pela aprovação do PL (projeto de lei) da terceirização no Brasil é um dos exemplos do abusivo interesse opressor à classe trabalhadora. O movimento de gentrificação em escala mundial nos mostra que a urbanização tem cada vez mais constituído um sítio primário de infindável acumulação de capital, que administra suas próprias formas de barbárie e violência sobre populações inteiras em nome do lucro. O custo de vida nos centros urbanos, em relação às necessidades básicas como alimentação, habitação e transporte, tem tornado a vida cotidiana cada vez mais difícil e menos autônoma.

O que pode a arte enquanto campo de conhecimento diante desse panorama? Por quais caminhos podemos criar corpo para criar vida perante tanta precarização? Quais são as bases de uma autonomia da criação? O que se faz diante dessas questões? Que corpo e que dança se criam com esses atravessamentos? Como sacudir o corpo-pensamento e sentir das tripas ao coração? De que maneira vestir a crise como resultado da ambição humana, e ainda assim trabalhar na tarefa crucial de manter a alegria e a vontade de viver? Que ritmo queremos estabelecer com a floresta, com a natureza? Que realidade queremos co-criar? Perguntas que não são novas, mas que continuam cada vez mais pertinentes e que precisam se manter vivas em nosso cotidiano.

Até quando vamos continuar aceitando o que é inaceitável? Enquanto o PL 34/2015, que não torna mais obrigatória a rotulagem dos produtos transgênicos, entrou na pauta da Câmara dos Deputados e foi aprovado em abril deste ano, a sociedade civil vai se organizando para reivindicar a manutenção de um direito que já havia sido conquistado. Diante de acontecimentos como esse, me deparei com o desejo de aprender com Eduardo Viveiros de Castro, enquanto me pergunto o que é natureza, o que é povo, o que é civilização.

No meu e-mail chegou um vídeo de uma palestra com Viveiros, que aconteceu na Casa Rui Barbosa (RJ) em setembro de 2014. Quando percebi, estava conversando com ele:

eu: O que é natureza? Quais são os mil nomes de Gaia? O que é povo? Para os ianomâmis, o que chamamos de natureza, eles chamam de floresta; e a diversidade do microbioma deles é o dobro em comparação com a dos ocidentais. Que relação estamos estabelecendo com a floresta nesse século XXI?

Eduardo: Gaia não tem nem dentro nem fora em relação a nós, e nós em relação a Gaia. A imagem velha, mas sempre fascinante, que é a imagem da Fita de Moebius, ou da Garrafa de Klein, de um objeto que não tem nem dentro nem fora, ou nem um lado e outro, me parece pertinente para definir a nossa relação paradoxal com Gaia, porque na verdade não é possível, como nunca foi possível, separar humanidade de ambiente, como não se trata de colocar um dentro e um fora, um ambientado e um ambientante (…) Trata-se muito mais de dois modos de se começar um percurso (…) O que não quer dizer que não haja uma dobra, uma dobra ou uma torção.

eu: Sinto no corpo essa torção e me pergunto: que tipo de trabalho, nós, que resguardamos o gosto pela Humanidade, exigimos da terra? Lendo o “Ter ou Ser?” do Erich Fromm, logo constato que nossa civilização tem início no momento que o Humano assumiu o domínio ativo da natureza. Esse domínio permaneceu limitado até a era industrial, quando substituímos energia humana e animal pela energia mecânica e nuclear, a mente humana pelo computador, e a civilização caminhou para uma produção ilimitada – em consequência, para o consumo ilimitado. O ecossistema é ilimitado?

Eduardo: O Antropoceno é uma das Idades da Terra (…) assinala o fim do Ocidente como guardião do universal. Podemos imaginar que o Ocidente acabou já; quanto ao Capitalismo, é uma outra história. Estou falando do Ocidente, e que já nos abrimos, que já estamos abertos, querendo ou não, para uma multiplicidade de umas outras versões de Gaia, enquanto vamos observando e sofrendo os efeitos que nossa versão vai produzindo sobre os demais entes do mundo.

eu: O que fazer diante desse panorama? Como construir uma “outra versão de Gaia”? Ainda é pelo caminho da revolução?

Eduardo: “A revolução faz um bom tempo” é um título que é irônico, mas parcialmente irônico, porque as duas coisas já não existem mais: nem revolução, nem bom tempo. São duas ideias de certa maneira obsoletas, e todo o nosso problema é como revivê-las, como fazê-las ganhar novamente algum sentido. Se os ianomâmis entendem que são os seus xamãs que fazem o bom tempo, e se os prefeitos do Rio e de São Paulo, entre outros, entendem que seja a Fundação Cacique Cobra Coral que faz um bom tempo, a “revolução” é uma forma muito nossa de meteorologia (…) A revolução não pertence ao elemento da História, mas ao elemento do devir (…) Fazer História tem uma ligação profunda com fazer o bom tempo (…) um “bom tempo” no sentido de um “bom futuro” depende cada vez mais de um “bom tempo” no sentido de um clima suportável.

Leia mais:  [textos] "Os cursos de Dança e a greve na UFRJ: 
um olhar", por Laura Vainer

Desde que participei como artista do Programa de Residências Artísticas da Eco Vila Terra Una – que, no ano de 2012, propôs as “Interacciones Urbano-Rural” – comecei a me interessar em investigar esses dois contextos e perceber de que maneira podemos criar ambientes para processos artísticos que estejam implicados com as questões da terra. Neste ano, Carol Pedalino, Dasha Lavrennikov e eu estamos nos questionando e nos organizando para começar a realizar Residências Artísticas entre Serras, conectando as serras de Minas Gerais (Espaço Lua Branca) e do Rio de Janeiro (São Pedro da Serra). Vamos começar pelo desejo de pensarmos juntas o tema da sustentabilidade e da arte no contexto rural.

Existe uma interdependência entre o rural e o urbano? A relação entre esses dois contextos atravessa questões de riquezas, de produção, de valores: existe alguma dominância? Como criar um ambiente para a investigação artística inserido na realidade local? O movimento de êxodo urbano, na atual conjuntura política e econômica, tem, a meu ver, uma implicação no diálogo mais direto com as questões da terra para, de certo modo, exercitar a pergunta “Qual é o valor da autonomia?”.

“Segundo Marx, sociedade e natureza têm uma relação que gera um metabolismo porque são um organismo vivo”, aponta John Bellamy Foster [3]. A relação predatória que temos nos dias de hoje nos grandes centros urbanos é uma demonstração do desenvolvimento das forças produtivas, e gera uma acumulação de pessoas que não é sustentável. Num contexto mais rural, há uma tendência de ter mais espaço e uma menor quantidade de pessoas, o que permite uma convivência mais próxima, e isso gera uma maior co-responsabilidade na construção do metabolismo socionatural local.

Acredito que vivo num mundo social que podemos também transformar, não nos satisfaria ficarmos contentes com o que somos neste momento. Somos criaturas que vivem no tempo, e essa é a base da nossa humildade e do nosso compromisso.

Judith Butler [4]

A filósofa estadunidense Judith Butler nos recorda e nos alerta que nascemos no interior de sistemas discursivos e de poder, e qualquer liberdade que nos é dada para mudar esses sistemas deriva dos nossos próprios recursos históricos e das formas permitidas de solidariedade que podemos encontrar. Será possível pensar a auto-recriação ou a transformação como uma tentativa de fazer algo que antes não era percebido, a partir de recursos existentes? E a re-significação como uma estética fruto de uma performatividade política de relação com o mundo?

O que poderia ser uma agricultura do corpo? Como criar vida e nos surpreender quando o gesto dançado acontece enquanto renovamos e reciclamos os processos artísticos? Tenho me perguntado muito, hoje em dia, que ritmo desejo criar no cotidiano e de que maneira a anatomia do corpo humano pode se relacionar com as forças da natureza e do meio-ambiente.

Após a Segunda Guerra Mundial, a performer e terapeuta corporal Anna Halprin, uma das percursoras da dança pós-moderna americana, desenvolveu seus processos de criação na natureza, em um deck ao ar livre projetado pelo arquiteto, paisagista e seu companheiro Lawrence Halprin, do qual foi removido o arco do proscênio. Isso fez surgir novas relações espaciais que a envolveram com os sons naturais e os elementos da natureza. Merce Cunningham, Min Tanaka, Meredith Monk, Simone Forti, Trisha Brown, Yvonne Rainer estudaram com Halprin o que ela chamou de “experimentos no ambiente”; em que, assim como na vida, o movimento e a dança surgem como resultado de uma interação e integração com o ambiente e os membros do grupo, numa qualidade de ser flexível, intenso, e com a característica de afirmação da vida.

Envolta nesses pensamentos/movimentos, caminho cotidiana e demoradamente nos vales e trilhas de São Pedro da Serra, recolho o pouco lixo que encontro, faço breves pausas para ora meditar, ora escrever sensações/inspirações desse desejo de resgatar o corpo como parte integrante do meio-ambiente. Sustento a tensão de questionar o que pode vir a ser uma geo-bricolage, ao invés de uma geo-engenharia, nas práticas de relação com o outro, com o mundo, com a floresta, enquanto mantenho a prática de um corpo que deseja ser mais artesanal.

Um corpo que caminha no desejo de integrar cura e performatividade num só movimento. Corpo que respira em transformação.

Estamos sempre evoluindo e há um momento nessa evolução que se revela em nosso corpo e nos assusta. Depois disso, ocorre uma verdadeira renovação e já não temos mais medo daquilo que se apresenta diante de nós como novo. Esse processo é marcado por contradições, avanços e recuos, por idas e vindas que tornam intensamente rica a nossa ação e abrem espaço para profundas transformações. Mas, se perdemos essa capacidade de renovação, se fugimos às dificuldades que surgem, encerramos a própria vida. Nesse sentido, a imagem do parto é exemplar.

Klauss Vianna [5]

.

o que eu li no ctrl+alt+dança:

:: http://ctrlaltdanca.com/2015/02/13/textos-danca-no-conselho-da-cidade-daniel-kairoz-compartilha-e-mail-carta-convocacao-com-artistas-da-danca-de-sao-paulo-e-do-brasil/

:: http://ctrlaltdanca.com/2012/04/11/ate-16mai-bolsas-para-residencias-no-programa-interacciones-urbano_rural/

:: http://ctrlaltdanca.com/2012/03/23/textos-ate-onde-voce-foi-com-a-danca-por-gabriela-alcofra/

.

o que eu li em outras superfícies ou assisti em outras mídias:

:: [1] Palestra “A revolução faz o bom tempo”, com Eduardo Viveiros de Castro (2014)

:: [2] Texto de David Harvey, “A crise da urbanização planetária” (2015)

:: [3] Livro “A Ecologia de Marx : materialismo e natureza” , de John Bellamy Foster, Editora Civilização Brasileira, 1º ed. (2005)

:: [4] Entrevista com Judith Butler, “Desfazer o gênero e outras subversões” (2015)

:: [5] Livro “A Dança”, de Klauss Vianna, Summus Editorial, 3ª ed. (2005)

:: Conversas informais com Leonardo Voigt, cientista social e professor de Sociologia do CEFFA Rei Alberto I – Nova Friburgo (RJ)

:: Vídeo-conversa com Eduardo Galeano, durante uma manifestação nas ruas de Barcelona (2011)

.

aline bernardi: artista e investigadora das artes do corpo. Integra a equipe do Espaço Lua Branca e o Núcleo de CI do Coletivo Encontros Sutis; recentemente integrou a F.I.A, do c.e.m. em Lisboa. Formada em Dança na Escola Técnica e na Faculdade Angel Vianna. Idealizou e coordena a série de encontros Corpo Palavra, e alimenta um interesse pelos trânsitos entre dança e escrita no processo de criação.

.

 

 

Comentários