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[ctrl+alt+dança MÓVEL] [textos] "1.2.3.4.5.", por Dally Schwarz

As coisas perdem a forma, se desordenam, desmancham, bagunçam, deixam de funcionar, envelhecem, voltam a terra. A matéria podia ser eterna, o tempo era para eles eterno, o movimento tinha existido sempre. Mas não a ordem. Se existe ordem é porque em algum momento houve um elemento ordenador.

Jorge Luis Gutiérrez, em “O conceito de caos no mundo antigo” [1]

Atrás de um ônibus de passeio, parado perto do Amarelinho da Gloria, vejo uma fita amarela-ouro subindo aos céus, como uma flama….

“É ali”, digo para o André, “Vamos!”. Estamos, eu e André Bern, caminhando para encontrar Julius Mack em mais uma andança do ctrl+alt+dança MÓVEL, que tem como objetivo ver trabalhos de artistas / companhias e criar postagens como retorno para um possível diálogo.

Desta vez fomos ao encontro do Núcleo de Caos / AUM, um coletivo de artistas aglutinados por Glaucus Noia. A pesquisa do Núcleo gira em torno da caos dança, e começou com uma investigação pessoal de Glaucus, artista plástico e performer, que tem como referências a arte, a ciência, a filosofia, mas sobretudo a magia ou tudo que é da ordem do “oculto”. A caos dança é um butô. Porém, como explica o próprio Glaucus, prefere chamar de “caos dança por achar que o butô já está muito associado a uma certa imagem e linguagem que acabam encerrando e fechando mais do que a tornando uma dança experimental”.

AUM, por sua vez, é um trabalho que propõe a descoberta da cidade através da conexão do corpo consigo mesmo e para fora de si. Para este trabalho, o Núcleo desenvolveu uma vivência com a argila em espaços de floresta, para depois chegar ao espaço da rua – por exemplo, a saída de ar do metrô da Glória.

fonte: imagui.com

Antes de começar a ver as fotos e a fazer a leitura do texto, peço que reproduzam o áudio abaixo:

[Núcleo de Caos / fotos: Julius Mack]

1. Saída de ar do metrô – 

            vibram

                 amarelo-ouro

Atrás de um ônibus de passeio, parado perto do Amarelinho da Glória, vejo uma fita amarela-ouro subindo aos céus, como uma flama. A fita é um tecido que está amarrado no corpo dos performers, quase nus, mas que naquele momento estava presa ao chão. Ela subia com força e dançava por causa do ar, que vinha de baixo: da saída de ar do metrô. O espaço parecia uma caixa cênica aberta, com reverberação, eco, local para se sentar ao redor e um chão de escuridão que tinha como limite do seu fundo uma grade de ferro. Por alguns instantes, durante os quais observava com muita curiosidade este espaço, ficcionalizei que o Núcleo do Caos teria trazido essa caixa nas suas bicicletas – como fazem os bonequeiros no teatro de lambe-lambe, mas com caixas de tamanhos mínimos. A saída de ar do metrô, que está ali todos os dias, se tornou um local mais interessante para se ver aquela dança. À medida que a dança acontecia, ela ia revelando mais e mais possibilidades. E o mais engraçado é que, conversando com Glaucus e Renato (um dos performers do Núcleo) outro dia depois da apresentação, eles me contaram que o espaço da performance de AUM não era restrito à saída de ar do metrô, mas que naquele dia aconteceu só ali, daquela forma. AUM nunca é o mesmo, não existe uma partitura, não existem marcações. Existe um trabalho que acontece no encontro desses corpos, que buscam uma mesma vibração.

2. O corpo fica branco cinza

              argila no ar

         o pó faz nuvem

Caos dança é um trabalho ritual que lida com o transe. Os performers se preparam, trocam suas roupas, passam argila no corpo, se ornam, sentam, meditam, dançam. A argila é um elemento mágico que serve tanto para fazer com que os corpos se conectem com esse estado e essa dança, como retornem à memória das vivências realizadas anteriormente em espaços de floresta. O trabalho com esse material é bem importante e interessante para o que acontece no corpo nessa dança na cidade. O processo é simples, mas complexo: é feita uma máscara de argila que fecha e cobre todo o rosto, sem mais buracos, a fim de que uma hipoventilação ative o corpo para o transe. Esse corpo sem face, cego, surdo, mudo e fechado, se abre e dilata. [Aqui me lembro do trabalho de atores com as máscaras larvárias – aquelas de formas humanas mais simplificadas, que propõem um trabalho de descoberta do corpo expressivo.]

[Núcleo de Caos / fotos: Julius Mack]

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3. Enquanto flutua –

        em duo

        pesam corpos

À medida que a dança cresce, o espaço é tomado por uma energia invisível muito densa que muda e desestabiliza o estado presente de tudo que é físico. Tudo tem o seu tempo, e o tempo, nesse caso, foi também um fator muito bem utilizado pelo Núcleo. A experiência de sentar um pouco ali, na rua, parar e respirar com aqueles corpos, abriu um espaço meio bolha. Por alguns instantes, parece que é possível encontrar, no meio da urbanidade, espaços de respiração. Assim como tudo tem o seu tempo, tudo tem o seu peso. Diria que o fator peso é muito presente em AUM. É possível perceber pesos leves e pesos pesados. Aqui falamos tanto sobre o peso enquanto massa, como o peso enquanto qualidade de movimento. Alguns corpos descobriram nessa dança como rolar o peso pesado. Outros, como pesar o leve peso do seu corpo.

[fotos: Julius Mack]

  4. crânio esqueleto

 com 4 ou 12 furos

       soa sombras

Sons, ruídos, respirações. Meus olhos boiaram mais nos buracos da face. Os buracos são por onde entram ar e saem sons. O corpo é um grande tecido poroso. Glaucus tocava um Apito da Morte (ou Apito do Vento), instrumento azteca que ganhou de presente da mãe de sua companheira, Liza, que também dança no Núcleo. O apito tem forma de caveira, é feito de barro ou osso e é encontrado somente na Mesoamérica. Seu som, muito agudo e impactante, era usado durante as guerras antes da colonização europeia. Tem relação com Ehécatl, o deus de vento alado. Segundo o mito azteca, depois da criação do quinto sol, este estava fixo num ponto do céu, bem como a lua, até que Ehécatl soprou sobre eles e os pôs em movimento. Seus templos normalmente tinham forma circular, para ter menor resistência ao vento e ajudar a sua circulação. Por vezes, Ehécatl era associado aos quatro pontos cardeais, pois o vento vem e vai em todas direções. O Apito da Morte é tão potente que alguns acreditam que seu uso chega a abrir a glândula pineal. Era usado também em rituais fúnebres, a fim de conduzir as almas.

[fotos: Julius Mack]

5. em frio de lua cheia

uma escápula move

– respirar

Uma hora certinha de dança. A noite estava fria, com uma lua cheia no céu. Os corpos nus cobertos de argila respiravam, babavam, e às vezes soavam alguns urros. A argila dos corpos endurecia até que se criava uma casca, forma que permitia que soasse e vibrasse, até a rachadura. Durante muitos movimentos, reparei nas escápulas – ali onde nascem os braços, ou as asas. O gesto final do grupo: um abraço.

 

Ao fim do texto, para maiores interesses pelo Caos, sugiro:

 

Dally Schwarz é artista, arte educadora e pesquisadora. Investiga os corpos contemporâneos e seus processos de criação na interseção entre artes visuais, dança contemporânea e performance. Formada em Estudos de Mídia na UFF e mestre em Linguagens Visuais no PPGAV-UFRJ, cursa a formação de bailarino contemporâneo na Escola Angel Vianna.

 

 

 

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