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um olhar", por Laura Vainer

[textos] "Os cursos de Dança e a greve na UFRJ: 
um olhar", por Laura Vainer

Aula aberta na Escola de Educação Física e Desportos (EEFD-UFRJ) / foto: Laura Vainer

OS CURSOS DE DANÇA E A GREVE NA UFRJ: UM OLHAR, por Laura Vainer

greve é amor (?)

Meu nome é Laura, sou estudante de Licenciatura em Dança na UFRJ desde 2011. Cheguei ao curso num pouco de tropeço e, talvez por isso, tenha me surpreendendido positivamente com as experiências de aula e, principalmente, com os encontros que a Universidade possibilita. Transas efetivas: de ideias, posicionamentos, afetos, bairros… Por causa disso, se desenhou em mim um amor pelo espaço universitário. Amor diário, de plantar e descobrir, d’uma honestidade sem espaço para alardes, sem deslumbre, amor instigante que motiva o trabalho, curiosidade que move e modula a relação. Passeia por essas cores o meu namoro com a UFRJ.

Nunca fui, exatamente, uma militante política. A estrutura das organizações estudantis não me dava tesão, o que, durante algum tempo, me fez rejeitar discussões interessantes sobre a vida e as condições da Universidade. No entanto, desde o final do mês de maio, o cenário por aqui está um tanto turbulento e, com isso, os estudantes – como parte formadora do corpo universitário – passaram a reagir neste ambiente. Comecei a me perceber extremamente sensível e afetada (na carne mesmo) pelas tensões que têm dado forma ao atual contexto. A cada encontro com as questões da UFRJ – seja nos corredores da faculdade ou fora dela – eu me tecia junto à problemática de colegas que são brutalmente atingidos pela fragilidade das políticas de assistência estudantil. Foram, principalmente, as histórias de amigos que moram no alojamento universitário que desencobriram em mim o desejo da ação política.

Este agrupamento de palavras é um risco de pensamento, um tetris esforçado em organizar os últimos acontecimentos para encontrar uma possibilidade de circulação. Não é um artigo, não é um desabafo, é um descanso numa pedra depois d’um mergulho, um quarar ao sol. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

foto:
Alun@s no gramado do Centro de Tecnologia (CT) / foto: Thaina Farias

No dia 28/05, em um auditório do CCS – Centro de Ciências da Saúde, aconteceu uma Assembléia Geral de Estudantes que contou com pelo menos 1.000 alunos que respiravam inquietude e paixão. Eu e um grupo de amigas ocupávamos um canto do auditório lotado e, do nosso silêncio espantado, observávamos aquela cena de comoção violenta. A cada pronuciamento feito no microfone, uma onda de aplausos forrava o espaço, alimentando o movimento que o barco da Assembléia Estudantil botou para navegar: votou-se a favor da greve discente por unanimidade. Eu e minhas amigas saímos do auditório e, quando chegamos do lado de fora do prédio, as reações corporais que tive sinalizavam que alguma engrenagem em mim havia sido desafiada a partir daquilo que tínhamos presenciado: meu coração disparou e as minhas mãos tremiam como se o amor da minha vida estivesse muito perto, mas eu não pudesse encostar nele! Ou como se eu tivesse sido liberada de uma situação de perigo… E era um pouco dos dois: me assaltou o aspecto passional daquela experiência e, em algum sentido, um alerta coronário de que era preciso modular esta energia para construir movimento, organizar um gesto político possível. Tratei de me espalhar em questionamento por aí, falando, perguntando, ouvindo sobre o que fazer disso, das incomodações e motivações que nos erguiam e que não nos deixavam dormir.

Leia mais:  Corporeidade negra na rua, no cinema e no palco: Os Crespos (SP), Carmen Luz (RJ) e Núcleo Curva (RJ)

O que fazer com essas intensidades que acabamos de des-cobrir? O que fazer das palavras que nos acompanham neste estado: marginalidade, rua, arte, educação, política, ação?

[Ação realizada no Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro / fotos: Aline Rosa]

Um grupo de alunos e professores dos cursos de Dança começou a pensar e criar ações para dar forma às inquietudes que este cenário de greve deflagrou. Desde então, estamos discutindo e descobrindo a ação política, inventando modos de estarmos presentes nos espaços da greve e de conversar sobre o assunto, construindo alguma coisa que, sinceramente, não sabemos o que é. O que nos parece mais interessante neste movimento é o próprio estado de movimentação das coisas, uma certa configuração de crise que questiona pela própria paisagem (virtual, inclusive) da Universidade, que tem aparecido bem diferente – espaços esvaziados, cartazes e pedaços de cartazes pelos corredores, aulas abertas, utilização de lugares diferentes da sala de aula para os encontros, uma sucessão de eventos e postagens nas redes sociais que experimentam falar do assunto…

O contexto em que estamos é um momento [ponto]

(e pensei em alguns adjetivos para engordar a sentença, mas a palavra ‘momento’ sozinha reverbera melhor  – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – -)

O Estado brasileiro – pensando-o como um corpo – está experimentando uma crise infecciosa e a Universidade pública, como órgão formador deste corpo, reage secretando, criando mecanismos que sinalizam a doença do corpo-Estado. Por isso, as assembleias febris, os rompantes de violência, a necessidade de ocasiões para repousar e beber-o-chá-do-assunto, o afinco em compreender a desordem e poder retomar o caminho… Quando uma pessoa está muito doente, ela precisa suspender os seus afazeres diários e repensar os seus hábitos, precisa se observar e se cuidar. Caso contrário, estará trabalhando para alimentar a própria doença.

Por isso, a greve. Por isso, pensar pautas para serem cobradas e atingidas, fazer planos e criar estratégias (as mais diversas possíveis) que questionam a ordem adoecida da nossa conjuntura.

A greve é um gesto de amor,

a greve é pela manutenção da vida

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Laura Vainer é pesquisadora em dança e massoterapeuta. Cursa Licenciatura em Dança na UFRJ, onde é bolsista do Laboratório de Arte Educação. Trabalha como monitora na disciplina Introdução aos Estudos da Corporeidade e pesquisa a transa dos processos artísticos com as práticas de ensino-aprendizagem.

 

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