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[textos] Blogueir@ Convidad@: "'Moto Sensível' e 'O Confete da Índia': convites de vertigem", por Adriana Barcellos

MOTO SENSÍVEL O CONFETE DA ÍNDIA: CONVITES DE VERTIGEM, 

por Adriana Barcellos

O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.

(KUNDERA, 1983) [1]

Escrevo essas linhas, hoje, para falar de uma vertigem que se propaga no tempo; vertigem nascida de um encontro com Renato Cruz e André Masseno, em um passado que se mantém próximo. Esse encontro aconteceu em dois momentos distintos: o espetáculo Moto Sensível, na temporada de estreia, realizada no Espaço SESC com a Cia. Híbrida, em 2013; e O Confete da Índia, espetáculo solo de André Masseno, no Centro Cultural Solar de Botafogo, em 2012. Do encontro de palco, obra, sensações e reflexões, surgiu essa tal vertigem, que se tornou personagem fantasma e que circula no espaço “entre” de uma forma instigante.

Por definição, vertigem é “sensação de movimento oscilatório ou giratório do próprio corpo ou do entorno com relação ao corpo, sensação de desfalecimento ou fraqueza, perda momentânea do autocontrole, loucura, sensação de uma tontura rotatória, que pode causar náuseas, vômitos, ilusão de movimento” (VILLAR, 2011) [2].

Embora seja uma sensação, essa vertigem de que falo materializou-se em mim, construindo uma permanência através dos anos. Não posso dizer que é um incômodo, pois este costuma ter um sentido negativo, de algo que precisa ser resolvido ou encerrado. No caso desta minha vertigem, ela não tem nada de solução cabal; é uma desvirtuação dos sentidos. E sempre que a experimento, surge uma nova possibilidade de existência e percepção de vidarte [*].

Vertigem 1

Cia. Híbrida em "Moto Sensível" / foto: Rodrigo Buas
Cia. Híbrida em “Moto Sensível” / foto: Rodrigo Buas

Para começar, a sensação de déjà vu…

Em Moto Sensível (segundo espetáculo de uma trilogia da Cia. Híbrida sobre o universo hip hop), Renato propõe uma cena onde quatro bailarinos respiram, se movimentam, se apoiam, se desafiam e ocupam o espaço de forma rápida e vigorosa, numa ansiedade de vida de tirar o fôlego. O risco parece estar a um segundo de qualquer instante e nada é previsível. De repente, algo acontece e retorna, não sei se é um rebobinar, ou um flashback; não sei mais qual o sentido do tempo na lógica da realidade. Vi ou já vi (vu)? Há um retorno, um reinício que liga o que será com o que foi. É aí que vem a vertigem do déjà vu e a dúvida de ter, ou não, vivido e presenciado.

Real, irreal, virtual, surreal: são as palavras que surgem dessa vertigem; e ela me informa da possibilidade de tempos possíveis na reta que parece governar a linha do tempo (sempre horizontal). A causalidade, na área científica, determina os acontecimentos relacionando os fatos como causa e consequência de uma forma progressiva e lógica. Assim sendo, vemos a vida se estabelecer de forma linear numa direção com um único sentido: para frente.

O déjà vu de Moto Sensível indica a possibilidade de outro tempo, um tempo-bolha que permite o vislumbre, a reflexão e a existência de outra forma; novas construções e temporalidades que, no entanto, não são fugas de alienação. Os corpos presentes que seguem e voltam, respiram e suam, param e observam, alimentam uma tensão viva que parece se transferir da cena para o público, e deste de volta a cena, relacionando e deslimitando [**] o espaço.

Vertigem 2

O espaço de O Confete da Índia impôs-se diminuto a princípio. Sem entender muito bem, fiquei confusa com o espaço da cena e não sabia se eu fazia parte dela ou não. Esse lugar induzia uma histeria, dessas que surgem em engarrafamentos no túnel, em pane de elevador. Vertigem-histeria.

André, do alto de uma plataforma, veste-se de saco plástico que esconde, provoca ruídos, contatos e respostas. O conjunto André-plataforma-saco rola por mim e pelo público, e neste momento minha dúvida desaparece. Dividimos o espaço, a cena, o contato e o descontrole histérico.

Que espaço é esse? Espaço de encenação, criação, recriação, compartilhado e vivido? Sou público e/ou não? Nem deu tempo de me resolver…

Vertigem 3

“O Confete da Índia”, de André Masseno / foto: Nilmar Lage

André aumenta o contato sensível e me afeta mais profundamente. Começa um ritual de comidas e cheiros: sidra, café, milho e, por fim, a quentinha… Vertigem de náusea, de estômago embrulhado. O corpo de André está ali, logo à frente, em suas funções vitais e organicidades. Eu presencio um corpo vivo, transbordado de sensações, angústias e deleites com cheiro de feijão. Não é uma representação, é uma experiência! E eu vivencio a experiência de uma lagartixa, grudada como estou na parede do espaço cênico.

A presença do ator-performer-bailarino é essencial e parte da cena contemporânea, onde as narrativas percorrem lugares inusitados, poéticos e, às vezes, desconfortáveis, nos colocando na vertigem do abismo. A abstração dos temas tratados e obras construídas requer um preparo que transforma os procedimentos técnicos necessários. Intui-se que a construção artística passe pela transformação do sujeito, da concretude das ações e dizeres de um corpo-vida desmistificado para um corpo humano, sentido, vivido e semelhante ao público.

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Vertigem 4

Renato brinca com o claro e o escuro; com o silêncio, as respirações e as falas.

Na primeira cena do espetáculo, o escuro e o silêncio se prolongavam. Nele, sobressaía o nervosismo da plateia: tosses, mexidas, pigarros, a proximidade de outros, mais silêncio, e talvez o que tanto assusta: o vazio.

Santiago Barbuy, no texto “O Espaço do Encontro Humano” [3], fala sobre o espaço na vida do homem, sobre a ocupação das cidades e, na relação das espacialidades, distingue o cheio do vazio no espaço urbano e na vida. Relaciona o espaço cheio à automação, à fragmentação, enquanto o espaço vazio aproxima-se da criação e da imaginação.

O espaço vazio é repleto de espacialidade, que é a possibilidade de concretizar os valores anímicos, subjetivos e criativos. O homem enche cada vez mais o espaço em que vive com receio de ter que conviver com o vazio. Por isso, a cidade torna-se um aglomerado de coisas, objetos, construções e carros, e a vida das pessoas se converte num acúmulo de obrigações e afazeres, não restando tempo livre para o pensar e idealizar.

É no vazio e no escuro que surge a voz dos bailarinos, dizendo o que são e descrevendo o que fazem. Com a luz na cena vem a realização do descrito e a materialidade da abstração. Materialidade que expõe a humanidade do artista que se mostra em possibilidade de existência e dúvida para a plateia. Vem a vertigem da existência, escancarada e sutilmente questionada. O que você vê? O que você sabe? O que você é?

Na peça “Galileu”, de Bertold Brecht, o personagem-título questiona:

– Você vê! O que é que você vê? Você não vê nada! Você arregala os olhos e arregalar os olhos não é ver (BRECHT, 1991) [4].

Renato propõe lugares de movimento, espaços espalhados: chão-parede, horizontal-vertical… escolhas de cenas de onde podemos ter ângulos e pontos de visão diferenciados. Propõe o ver de Galileu em Brecht e o espaço vazio de Barbuy.

E é do ponto da existência que aflora a última vertigem.

Vertigem 5

Depois de uma intensa movimentação com falas, lugares, paredes, gestos, olhares, toques, apoios, cansaços e respiros surge uma construção lenta, sensível e poética. Os bailarinos vão se apoiando, numa caminhada, onde a forma perde o lugar. Os corpos se misturam, se completam, vão perdendo tecidos e couraças, mantendo a pele. No espaço, vão deixando rastros de uma existência formada e confinada em padrões. Os corpos vão se revelando, firmando e afirmando uma presença viva e humana.

Do outro lado, André gira e canta. Com os olhos fechados percorre o espaço que constrói, ampliando as falas, necessidades, deslimites. Nesse rodopio, me junto a ele e, ao fechar meus olhos por um instante, vejo um Confete Florido de uma Índia Viva, de uma bolha pulsante que quase corre nas veias.

Saí das experiências como quem passa por um turbilhão e se percebe viva. Tantas questões, corpos, imagens, sensações, tonturas … O lugar da fruição protegida e controlada de outros tempos cede espaço à experiência artística vivenciada no coletivo, com características rituais e simbólicas.

E para terminar:

Deixa eu dançar pro meu corpo ficar odara

Minha cara, minha cuca ficar odara

Deixa eu cantar que é pro mundo ficar odara.

Pra ficar tudo jóia rara

Qualquer coisa que se sonhara

Canto e danço que dara.

Ligue o som na voz de Gal Costa.

Feche os olhos e aproveite a experiência da vertigem.

 

Glossário de neologismos

[*] Vidarte – Vida e Arte que se desenvolvem como uma unicidade, não como entes separados com características próprias que vivem em conjunto.

[**] Deslimite – Um tipo específico de limite, que não possui bordas.

 

Referências bibliográficas

[3] BARBUY, Santiago. O espaço do Encontro Humano. Sem editora, sem data.

[4] BRECHT, Bertold. A Vida de Galileu. In: Teatro Completo, Volume 6: Os fuzis da senhora Carrar, A vida de Galileu, Mãe coragem e seus filhos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

[1] KUNDERA, Milan. A Insustentável Leveza do Ser. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

[2] VILLAR, Mauro de Salles (ed). Dicionário Houaiss Conciso. Rio de Janeiro: Moderna, 2011.

 

 

Adriana Barcellos é doutoranda em Artes da Cena, pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Pesquisa relações entre processos criativos em Dança e Inconsciente, seguindo a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Atua como professora da rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro, onde desenvolve projetos de Dança-Educação que estabelecem pontes entre o pensamento do educador Paulo Freire e a Teoria Fundamentos da Dança, de Helenita Sá Earp.

 

 

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