Início » Notícias » [ctrl+alt+dança MÓVEL] [textos] Conexão Guiné-Vidigal: entrevista com Mariama Camara no IV África Livre (RJ), por Dally Schwarz

[ctrl+alt+dança MÓVEL] [textos] Conexão Guiné-Vidigal: entrevista com Mariama Camara no IV África Livre (RJ), por Dally Schwarz

Mariama Camara e Raíssa Ralola / foto: Julius Mack
Mariama Camara e Raíssa Ralola / foto: Julius Mack

Durante a quarta edição do África Livre, que aconteceu nos dias 22, 23 e 24 de maio no Vidigal, tivemos a oportunidade de conhecer e conversar com Mariama Camara, artista homenageada este ano. Durante o evento, Mariama ministrou três dias de oficinas e fez duas apresentações públicas.

Da Guiné-Conacri para o Vidigal, fazemos uma conexão que nos ensina um pouquinho mais sobre as danças deste país da África Oeste. Vale lembrar que, no Rio de Janeiro, as iniciativas de difusão das danças da Guiné-Conacri e de outros países da África Oeste já acontecem há mais de três anos, por movimentações de artistas e grupos de produtores, muitas vezes de forma independente – como é o caso da Guiné Projetos Culturais, que realiza o África Livre.

Como Mariama foi uma das artistas selecionadas pelo ctrl+alt+dança MÓVEL, aproveitamos a oportunidade para conversar, a fim de compreender melhor seu percurso artístico e um pouco mais sobre a cultura da Guiné-Conacri. Agradecemos especialmente ao músico e marido de Mariama, Assane M’ boup, pelas traduções e vontade de comunicar.

 

[ctrl+alt+dança MÓVEL] Mariama, você poderia se apresentar, falando um pouco sobre sua trajetória e as danças da Guiné?

Mariama Camara: Olá, me chamo Mariama Camara, sou da Guiné-Conacri, dançarina, percussionista e cantora. Integrei o Les Ballets Africains, grupo de grande importância na formação de técnicas, coreografias e metodologias para as danças e ritmos. Tive aulas com grandes mestres, tais como Gassama Camara, Momodouba Bateur Camara, Fe Italo Jambo, Hamidou Bangoura, entre outros, que difundiram a cultura local da Guiné-Conacri para o mundo. Faço meu trabalho como artista aqui no Brasil através de oficinas para crianças e adultos, tentando transmitir um pouco a mensagem da minha cultura. Para nós, a dança tem muita importância, a usamos muito em cerimônias como batismo, casamento, rituais relacionados à colheita e festividades. Ela tem relação direta com nosso dia-a-dia, como a música. Dançamos para trazer felicidade. Nas danças, existem muitos ritmos: Soli, que é um ritmo para cerimônia de circuncisão; Yankadi e Makru, ritmos de sedução entre homens e mulheres; e Kuku, ritmo que celebra a fartura e a pescaria, onde as mulheres esperam seus maridos e festejam sua chegada na aldeia.

Você tinha dito algo sobre o significado do elefante na cultura da Guiné…

O elefante é um símbolo muito importante da Guiné, que representa um grande ícone com muita simbologia. Ele se chama Syli. Na nossa primeira moeda, ele estava lá. Nós o respeitamos muito. Tem uma grande significação relacionada à força que os animais trazem para as pessoas, que vem de muito tempo e também está relacionada às crenças animistas.

foto: Julius Mack
foto: Julius Mack

Neste tempo que está no Brasil, você percebe relações entre as danças da Guiné e as danças afro-brasileiras?

Ainda não consegui perceber muitas relações entre as danças africanas e as danças afro-brasileiras. Digo isso pelo pouco que conheci da cultura brasileira. É preciso entender que a África é um continente muito grande, e com muitas diversidades e especificidades culturais. Quando penso nas danças da Guiné-Conacri, não consigo perceber essas relações. Na dança afro-brasileira, você tem Oxum ou Oxalá. Eu, por exemplo, não os conhecia. Percebo que na dança dos orixás existem estas relações diretas entre os movimentos, as forças da natureza e a religiosidade. Na nossa cultura, nós dançamos em relação à felicidade, e a dança não tem relações diretas, ou somente, com a religião. Eu sou muçulmana e, como religiosa, negocio muito em relação aos dogmas da minha crença. Há alguns anos atrás, existiam os animistas. Meus tataravós eram animistas. Eles têm outras relações entre religiosidade e dança. A geração da minha avó já nasceu muçulmana.

[fotos: Julius Mack]

Leia mais:  Expresso RJ-SC: espetáculo infantil da Confraria da Dança no Centro Coreográfico + últimos dias de inscrições no Vértice Brasil 2014 Em Residência

Fale um pouco do tempo que está no Brasil e como está sendo essa troca.

Estou há sete anos no Brasil. Não foi fácil. Foi muito, muito duro. Eu queria enfatizar isso, foi muito duro. Tive que ter muita paciência. Isso influenciou, inclusive, o nome do meu grupo, Limanya, que na língua sussu significa ‘paciência’. Eu sofri muito. Agradeço muito a todas as pessoas que estão no meu caminho e, de alguma forma, contribuíram. Tenho vontade de conhecer mais a cultura brasileira. Gosto muito das escolas de samba, e tenho vontade de coreografar um dia para alguma delas.

Como você percebe a importância do África Livre para o contexto carioca. Que discussões você acha que o evento traz?

Acredito que esse evento é muito importante para que as pessoas possam fazer aulas de dança e ter contato com a cultura da África. Principalmente, para as pessoas que moram nas favelas e não têm acesso às aulas. A dança e a percussão são importantes para que as crianças e as pessoas estejam ocupadas com cultura e diversão. Quem sabe assim elas podem até se afastar de drogas e ocupar a cabeça.

[fotos: Julius Mack]

Para encerrrar a entrevista, gostaria de trazer uma mensagem do músico Francis Bebey, nascido no Camarões, ex-responsável pelo Departamento de Música da UNESCO:

 

Como canta o coração [*]

Caminho como canta o coração; com ritmo de vida e de luz. Não obstante todos os obstáculos colocados por raças obscuras. A vida pertence-me. É linda. Será minha enquanto ela viver. Eternamente. É isto que canta o meu coração. É isto que diz a marcha rítmica a pés descalços no caminho pedregoso. No caminho da vida e da luz. Jovem, não tenhas medo. A natureza é tua amiga e o ritmo é a tua riqueza. Canta, dança, vive e ri e sê feliz. Trabalha na beleza que se desprende dos cânticos dos “griots” que semeiam doçuras de optimismo no esforço dos homens. Canta, vive e trabalha e assim serás um homem.

Eis a lição do meu povo. Negro do oeste a este e até ao Cabo da Boa Esperança. Povo de tristezas e alegrias todas embebidas de música e dança. Para o nascimento da criança. Para ajudá-la a crescer e a viver uma longa vida como homem. Para lhe abrir, por fim, as portas de uma outra vida, quando já tiver fechado os olhos para rever melhor. “Os mortos nunca partiram. Os mortos não estão mortos”, exclama Birago Diop em nome de toda a África negra. Em nome de todas as comunidades negras que, desde séculos, em todo o continente se reúnem em volta desta crença. Crença suprema. Sem qualquer comparação no mundo. Crença que sempre a música, o ritmo e a dança, redescobrindo o homem, o renovam. Cada dia, em cada século. Para além de qualquer humilhação e injustiça. Bem para além de todos aqueles complexos de superioridade de que se acumulam os homens mortais. Os negros de África continuarão a viver graças à música, ao ritmo e à dança. Eternamente. Desde os séculos passados até os milénios vindouros. Na condição de que eles não se deixem invadir demais por este excesso de bens materiais que matam a imortalidade. Está aqui o segredo da sua vitalidade.

[*] citado por Elisabetta Tosi, em “La Kora e il Sax”, Bolonha (1990).

 

Dally Schwarz é artista, arte educadora e pesquisadora. Investiga os corpos contemporâneos e seus processos de criação na interseção entre artes visuais, dança contemporânea e performance. Formada em Estudos de Mídia na UFF e mestre em Linguagens Visuais no PPGAV-UFRJ, cursa a formação de bailarino contemporâneo na Escola Angel Vianna.

 

 

 

Comentários