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[ctrl+alt+dança MÓVEL] [textos] "Pontuações no Batuque Contemporâneo", por Dally Schwarz

Cia. da Ideia / foto: Julius Mack
Cia. da Ideia / foto: Julius Mack

PONTUAÇÕES NO BATUQUE CONTEMPORÂNEO, por Dally Schwarz 

Depois de assistir duas vezes ao espetáculo Batuque Contemporâneo, da Cia. da Ideia, conversar com a coreógrafa Sueli Guerra e bailarinas, além de visitar bastidores, trago algumas observações. Acredito que possam ser lidas como pontuações.

 

pontuações: os sinais de pontuação são recursos variados e representam as pausas e entonações da fala. A pontuação dá à escrita maior clareza e simplicidade.

 

Aspas: referências de outros artistas ou artes

Dois pontos: algo excessivo

Vírgula: um porém

Interrogação: uma pergunta que ainda persiste

Exclamação: sentimentos fortes provocados pelo espetáculo ou momento dele

Parênteses: questionamento interno, uma espécie de “por que não?”

Reticências: uma observação onírica

Ponto-e-vírgula: introdução de uma questão importante

Ponto final: algo que ficou muito definido para mim

 

E hoje um batuque, um batuque / Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária / Em dia de parada / E a grandeza épica de um povo em formação / Nos atrai, nos deslumbra e estimula

Haiti, de Caetano Veloso e Gilberto Gil

Vídeo, coreografias, objetos, instrumentos musicais, músico, bailarinos: muitas camadas sobrepostas. Por que tudo junto? Será mesmo que todos esses elementos são tão essenciais, juntos na cena?

Sueli nos falou que, neste trabalho, preza muito pela relação e interação com o público. Acredito que no palco a proposta fica apertada, cerrada.

Por que batuque e nenhuma referência artística à cultura negra brasileira?

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Questões de gênero. Trejeitos e gestos podem evidenciar sentidos que não são os que desejamos. As “piadas internas”, que fazem parte da intimidade de uma companhia, não ficam necessariamente nítidas para quem assiste ao espetáculo. Por isso, atenção e cuidado são importantes. O momento em que o músico percute no corpo das bailarinas, faz caras e bocas e, no fim da cena, acrescenta o conhecido gesto do “tapinha” é bastante COMPLICADO!

Os momentos de improviso fazem aparecer mais a brincadeira, quebrando com o espaço do palco em que se valoriza tradicionalmente a frontalidade distanciada, espetacular e vaidosa.

… a água da bacia transbordou do palco. Que imagem bonita!

Um vídeo do mesmo trabalho em espaços abertos, fora do palco, me sugeriu mais respiro e interação.

Batuque Contemporâneo possui muitas informações e transformações: elenco e formatos se modificam a cada apresentação. Acredito que o trabalho de selecionar um pouco mais é necessário, e não acho que isso interfere na forma flexível e livre que a companhia apresenta como preferência e opção de trabalho.

[Cia. da Ideia / fotos: Julius Mack]

 

Dally Schwarz é artista, arte educadora e pesquisadora. Investiga os corpos contemporâneos e seus processos de criação na interseção entre artes visuais, dança contemporânea e performance. Formada em Estudos de Mídia na UFF e mestre em Linguagens Visuais no PPGAV-UFRJ, cursa a formação de bailarino contemporâneo na Escola Angel Vianna.

 

 

 

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