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“Por que você dança? Qual é a sua busca?”: 4º relato de Raíssa Ralola sobre o JF em Dança (MG)

foto: Louise Ralola
Silvana Marques e o elenco de “Metades” conversam com o público / foto: Louise Ralola

 

– Por que você dança? Qual é a sua busca?

– Danço pra viver!

– Busco me comunicar!

 

Lancei ambas as perguntas aos intérpretes-criadores nos dois debates entre artistas e público que mediei no JF em Dança – estas foram duas das várias  respostas que recebi. A primeira, de Paula Neves (Corpus Núcleo de Dança);e a segunda, de Ricardo Visciano (Cia. de Dança Inércia Zero). Certa de que, enquanto artistas, deveríamos fazê-las constantemente, trago-as novamente como questões pertinentes para a escrita de hoje.

Seguindo pela resposta de Ricardo, sobre o interesse em comunicar, me reencontrei com o vídeo da professora Christine Greiner, intitulado “Pensamentos em torno da tradução”. Ao discorrer sobre alguns temas – dentre eles, “Um caminho para comunicar” – Christine mostra tão bem a que veio que prefiro transcrever um trecho e, na sequência, enredar meu pensamento:

A gente sempre fala do lugar onde a gente está. Então, esta ideia de que falando da sua aldeia é provavelmente o lugar de onde a gente fala melhor, e que a gente pode falar pra mais gente, isso é verdade, eu concordo completamente. Eu acho que não tem como ter um olhar imparcial. a maneira como a gente vê o mundo, a maneira como a gente descreve o mundo, depende de onde a gente está, e depende do nosso exercício de leitura. Daquilo que a gente está habituado a pensar e da maneira com que a gente usa a linguagem – mesmo que não seja só a linguagem verbal, a maneira como a gente se comunica com os gestos, com as pessoas. Agora, o cuidado que a gente tem que tomar com essa ideia de ‘aldeia’ em relação ao resto do mundo é que a aldeia nunca pode se fechar em si mesmo. Então tem que tomar um pouco de cuidado com essa noção do local, mas que não é um local impermeável ao fluxo das informações no mundo. se a gente pensar em termos de subjetividade (…) essa ideia de uma subjetividade fechada num sujeito e que só dá conta das questões do sujeito, essa é uma utopia que eu acredito que não tem mais lugar para isso no mundo. mesmo se a gente pensa, por exemplo, no caso dos artistas, que estão lá no seu mundo de criação, na sua subjetividade, pra organizar um discurso, uma obra pra colocar no mundo, eu acho que a gente vive um momento em que você precisa refletir qual a importância disso. Porque algumas questões muito próprias que a gente tem, elas são boas pra gente guardar em casa, a gente não precisa necessariamente compartilhar com ninguém. acho que a gente vive um momento em que é interessante não pensar só na questão da autonomia, do isolamento, da subjetividade própria de cada um, mas pensar também o que interessa compartilhar. Eu gosto muito de estudar Ciências Cognitivas, e nunca se falou tanto, neste tipo de bibliografia, numa coisa que se chama neurônios-espelho. Os neurônios-espelho são aqueles responsáveis pela empatia, pelo aprendizado, pela comunicação com o outro. Mas um tipo de comunicação que não é esta – eu digo só o que me interessa – mas você comunica na medida em que você consegue perceber o que acontece com o outro em você mesmo. É isso que tem me interessado mais nesse momento. Acho que a gente vive um momento em que o coletivo algumas vezes precisa ser mais importante que o individual, e a gente não está muito habituado a pensar dessa maneira.

A fala de Christine me parece muito interessante e acaba por ecoar algumas questões com as quais me detive após assistir a toda a programação do JF em Dança e acompanhar as apresentações das pesquisas subvencionadas pela Prefeitura de Juiz de Fora/FUNALFA nos últimos 8 meses. Assistindo aos trabalhos, estive realmente intrigada com as questões da criação, da comunicação, das buscas artísticas individuais e coletivas.

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Talvez sejam um tanto clichê as indagações que sempre me atravessam, mas a cada vez que as retomo me amplio um pouco.

Por que criar? Criamos porque somos hábeis a oferecer o que há de melhor em nós mesmos? Criamos porque realmente necessitamos comunicar algo? Para gerar modos de olhar o mundo com mais sensibilidade? Para promover a beleza, de modo ampliado? É preciso se perguntar.

Quais são os meus focos de interesse? Quais são as minhas buscas artísticas?

Se buscarmos na tradição das artes, em diferentes escritos de artistas de distintas épocas, veremos que muitos deles comungavam com a ideia de que forjavam a arte para que esta os forjasse como seres humanos. Por uma necessidade intrínseca de auto-burilamento, tocavam o coletivo.

Quais são os nossos motes neste momento histórico?

Percebo que muitos trabalhos contemporâneos não criam língua, não partilham com seu público. São códigos internos entre criadores ou intérpretes, processos quase-terapêuticos levados a público, reproduções fieis de um sistema saturado ou, ainda, uma crítica saturada deste.

Onde está a abertura da arte, sua flexibilidade, seu processo “alquímico”? Artistas trabalham em decorrência de uma busca autêntica ou atuam por um prisma pessoal, único e inflexível, travestido de flexível gestualidade, para impor seus desejos e maneiras de ver o mundo?

O meu mundo, as minhas questões, o meu corpo, o olhar que eu lanço, o tom que eu dou, a minha direção, a minha dança…

É claro que não excluo minha vulnerabilidade à esta lista de questões. Trago-as como sine qua non após assistir a espetáculos nestes últimos dias e deflagrar algumas delas. Sei que todos os trabalhos apresentados são frutos de pesquisas pessoais e de dedicação. Isso é muito importante e, quando escrevo, não me desalio do fato de que realmente considero e valoro tais pesquisas. Acontece que talvez nem pesquisa, nem dedicação, sejam garantias de que o trabalho se efetive nas partilhas, na coletividade e na recepção/consideração da alteridade.

Sigamos trabalhando de maneira investigativa, sobretudo intuitiva, defrontados por esta face enigmática da arte. Agradeço a Paulo César, Letícia Nabuco, Sylvia Renhe, Rita Vianna, Silvana Marques, Paula Neves e Saulo Silveira, por me apresentarem algo sobre o qual me intrigar e me debater em reflexões.

 

Comentários

2 comments

  1. Andrea Elias says:

    Raíssa, quando consigo ler rsrsrs (a correria tá braba!) sempre desfruto muito seus relatos, o modo atento, cuidadoso e maduro com que transita os acontecimentos em dança até os seguidores desse blog.

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