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Danças de vento

E o povo se acostumou com o sopro de Oiá cruzando os ares e logo o chamou de vento.

– em “Mitologia dos Orixás”, livro de Reginaldo Prandi [1]

 

Foi um desses ventos de Iansã (Eparrei!), com sua qualidade modernizadora – que desorganiza para dar outra ordem e caminho – que me pegou na cidade de Sydney (Austrália) no final de 2014, em meio ao projeto de residência artística Correspondanças (Prêmio FUNARTE Klauss Vianna de Dança 2013)Ainda que meu ritmo mais essencial de vida seja o balançar cadenciado das águas da mãezinha Oxum (Ora Ye Ye Ô!), tenho que admitir que foi um vento de Oiá-Iansã que me aproximou do Movimento Autêntico (através de sessões com o querido mestre Guto Macedo) no retorno ao Brasil, possibilitou o compartilhamento de experiências através da oficina homônima Correspondanças e gerou o fruto Bússola #3vídeo apresentado na última edição do festival Dança em Foco.

O mesmo vento me sopra aos olhos e ouvidos, via e-mail, textos de divulgação de trabalhos de dois artistas sobre os quais discorro nesta postagem de hoje [2]. Sincronicamente, chegam Pedro Penuela e Chico Lima.

vento André Bern
André Bern / foto: Guto Macedo

Trata-se de danças de vento, cada qual com suas peculiaridades. Se na série de vídeos Bússola me interessavam os encontros em espaços abertos que estabelecia – através de uma instrução performática – com um@ parceir@ e uma câmera em punho ao sabor do vento, em CorpoAr, o bailarino Pedro Penuela propõe um corpo-vento em cuja companhia dança. Por sua vez, o ator-bailarino Chico Lima lida, num palco de teatro, com o vento produzido artificialmente por dois ventiladores industriais em Tentativas Contra o Vento.

CorpoAr: vento enquanto parceiro de dança

vento Pedro Penuela
Pedro Penuela em “CorpoAr” / foto: Lígia Rizzo

Contemplado com o Prêmio FUNARTE Artes na Rua 2014, CorpoAr (ver foto acima) é uma performance solo de Pedro Penuela na qual o artista busca se deslocar com o ar/vento como um parceiro de dança. Conforme aponta o texto de divulgação, a ação consiste em se permitir “ser movido por cada mínima transição – vetor, mudança de direção e intensidade – e, então, desdobrar essa movimentação”:

(…) senti-lo [o vento] exige um alargamento da atenção e da presença, exige que a percepção se torne mais precisa e matizada (…) dilata o tempo, produz silêncios. Enfocá-lo pode abrir ‘micropercepções’ e a relação com certo campo em que somos nuvem, partículas, fluxo, sem forma ou fronteira.

CorpoAr ganhou sua primeira saída em espaços públicos ontem (22/out), no Largo 13 de Maio, em Santo Amaro (SP). O trabalho, que conta com a provocação cênica e preparação corporal de Gisele Calanzans e Patrícia Noronha, possui uma extensa agenda de performances em São Paulo – as próximas acontecerão:

  • amanhã (24/out), às 16h, no Viaduto do Chá (Centro);
  • quinta-feira (29/out), às 18h, na Avenida Paulista (vão livre do Museu de Arte de São Paulo (MASP), na Bela Vista).
Leia mais:  Últimas horas de inscrições para Lote #2 (SP), com Paz Rojo

Para conferir informações mais detalhadas sobre o processo de criação e os locais por onde CorpoAr circulará em São Paulo, visite o blog do projeto: projetocorpoar.wordpress.com.

Tentativas Contra o Vento: plasticidade e estruturas cíclicas

vento Chico Lima
Chico Lima em “Tentativas Contra o Vento” / foto: Luiza Folegatti

A partir de uma investigação da fisicalidade provocada pela relação do vento com o corpo – nascida na residência artística Exercícios Compartilhados, sob coordenação de Adriana Grechi, em 2013 – Tentativas Contra o Vento (ver foto acima), de Chico Lima, faz um mergulho nesse elemento, em diálogo com o arquétipo do círculo, poéticas da liberdade e repetição de estruturas cíclicas. Primeiro solo do ator-bailarino, o trabalho ganha sessões nos dias 29 e 30 (qui e sex) deste mês, às 20h, na Sala Renée Gumiel (Complexo Cultural FUNARTE SP) – com entrada franca e classificação indicativa 12 anos.

Em cena, a presença de dois ventiladores industriais provoca uma dança de transformações e evoca o binômio caos-suspensão enquanto Chico mistura-se com materiais plásticos. Conforme indica o texto de divulgação do trabalho:

A coreografia trafega por diferentes estruturas corporais, fisicalidades que se tornam uma prece circular, uma evocação de uma visão, a psicografia de uma mensagem captada pelo corpo (…) Entregando-se ao vento, o corpo parece aprender a permanecer e adaptar-se como forma de encontrar maneiras de seguir neste processo.

Tentativas Contra o Vento foi financiado através do Programa de Ação Cultural (ProAC) 2014 (Incentivo à Cultura do Estado de São Paulo) e contou com a colaboração das coreógrafas Andreia Yonashiro, Lú Favoreto e Morena Nascimento. A Sala Renée Gumiel (Complexo Cultural FUNARTE SP) fica na Alameda Nothmann, 1.058 – Campos Elíseos (metrô Santa Cecília) – São Paulo (SP).

 

[1] PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras: 2001.

[2] Esta postagem contou com a colaboração de Gabriela Alcofra.

 

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