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O que se pode ver pelas costas?

Esse texto surge de um encontro na Galeria do Centro Coreográfico do Rio de Janeiro com a videoinstalação Pelas minhas costas, de Jenny Fonseca Tovar, colombiana, cineasta e dançarina, em maio deste ano. O tríptico da artista cria imagens distintas da cidade e do movimento do corpo a partir de deslocamentos para trás e da ativação de um olho nas costas.

O trabalho é resultado de uma pesquisa-criação de dois anos – de estudos, laboratórios e parcerias no mestrado em Artes Visuais (na linha de Poéticas Interdisciplinares) na UFRJ. Segue abaixo uma conversa com Jenny:

 

eixo do fora #11: “O que se pode ver pelas costas?”[*], por Dally Schwarz

 

Dally Schwarz – Você poderia falar um pouquinho sobre a criação e o que está em jogo no seu trabalho?

Jenny Fonseca Tovar – O ponto de partida da pesquisa-criação foi a expressão “pelas minhas costas”. A partir dela comecei a criar e ficcionalizar. Para mim, esta expressão sublinha a nossa ênfase na frontalidade e a suposta cegueira das costas e a pouca relação que temos com nosso espaço posterior do corpo. As costas são, também, aquele espaço corporal próprio que não conhecemos, que é misterioso. Nele se escondem as fofocas, as invejas e tudo aquilo que o nosso olhar não consegue ver. Com o processo de criação da videoinstalação, eu tentei fazer uma subversão destas configurações corporais e espaciais, procurando então derrotar essa força da frontalidade e questionar a suposta cegueira das costas. Outra vontade era a de ativar o espaço posterior do corpo, que chamei na minha pesquisa-criação de “posterioridade”. Ao longo da pesquisa, eu fui descobrindo um corpo que ia se deslocando para trás. Percebi que só quando o corpo se mexia nessa direção que o espaço posterior ia aparecendo. Para aprofundar a pesquisa foi preciso, também, trabalhar com a lentidão, com a desaceleração do corpo e a quietude. A lentidão foi minha aliada. Minha grande pretensão era desconfigurar tudo o que a expressão “pelas minhas costas” supõe, para isso eu tinha que ir ao núcleo do movimento e pesquisar muito sobre como otimizar os deslocamentos para trás de forma minuciosa.

Dally –  Além da lentidão, você percebe outro aliado para a criação desse corpo que valoriza a “posterioridade”?

Jenny – Através das pequenas danças da quietude, daquelas das quais falava Steve Paxton, também consegui me aproximar da desconfiguração corporal cotidiana. Nesse corpo em quietude, mais atento às pequenas danças que iam surgindo, se abria uma porta para entrar na relação com o espaço posterior. Então, o corpo desacelerado foi aparecendo, com esse deslocamento lento e para trás na contramão dos imperativos da modernidade da velocidade e do avanço.

pelas minhas costas jenny fonseca tovar

Dally – Fale mais sobre a pesquisa de movimento.

Jenny – O processo de criação foi atravessado por um laboratório de movimento que teve três momentos: o primeiro foi uma pesquisa sozinha em que tentei achar caminhos corporais para ativar minha posterioridade, o segundo foi um encontro com dois outros artistas e o terceiro foi o refazer de uma ação que fizera em 2013. No primeiro momento, pesquisando sozinha, me foquei principalmente nos deslocamentos para trás. Depois de um mês de trabalho, juntei vários exercícios e fui criando uma estrutura de aula-oficina. O segundo momento foi um encontro em formato de laboratório, no qual convidei Johanna Salazar e Sebastian Wiedemann para transmitir meus achados. Johanna Salazar é dançarina de dança afro e contemporânea, atual assistente de direção da Companhia Pulsar e coreógrafa e pedagoga do grupo de danças afrolatinas Aguasalá. Eu e Johanna nos conhecemos há 14 anos e fomos formadas na mesma companhia de dança contemporânea, chamada Danza Común. Já temos uma linguagem corporal parecida e, além disso, moramos juntas. Foi muito fácil nos entendermos e rapidamente achamos que fazer o trabalho nas escadas desse espaço era interessante. Se deslocar para trás descendo as escadas com os olhos fechados colocava-nos em um nível de atenção e percepção da posterioridade muito alto. Já com o Sebastian foi outra experiência. Ele também é colombiano, mas nos conhecemos aqui no Rio. Ele é cineasta e tem experiência na dança butoh. O laboratório foi itinerante, estivemos em parques, praias, até chegarmos ao local ideal, que foi uma floresta. Nela, Sebastian conseguia se conectar com seu espaço posterior se deslocando para trás, mas com os quatro pontos de apoio do corpo. Com ele surgiu uma qualidade de movimento mais animal, lenta, mas por momentos com algumas irrupções de rapidez. Outra grande colaboradora foi a cineasta Pilar Pedraza, que foi a cinegrafista dos três vídeos.

Dally – Que espaços foram usados para esse trabalho?

Jenny – Eu trabalhei muito no [Centro Cultural Municipal] Laurinda Santos Lobo, tanto sozinha quanto com Johanna. É um espaço da prefeitura situado no bairro de Santa Teresa. Lá já acontecem várias atividades e ocupações artísticas. Inclusive, Johanna dá aulas lá. Gosto da ideia de ocupar espaços públicos. Trabalhei também em espaços abertos, como falei acima, em praias, praças e ruas.

Dally – Como foi esse terceiro momento?

Jenny – Refiz uma ação que havia feito em julho de 2013. Nessa ação, eu caminhava para trás durante uma hora, muito devagar, para nunca ter que olhar para trás, e levava um espelho preso em minhas costas. A energia das ruas me contagiou e acabei fazendo um percurso de 3 horas pelo centro do Rio, da Cinelândia até a Central. Naquela época, as manifestações nas ruas estavam bombando e isso foi um fato muito inspirador para mim, pois estava cansada de fazer arte só nas salas, nos espaços fechados e intelectuais, ou nos museus. Eu não acredito nisso. Então, um ano e meio depois refiz essa ação. No lugar do espelho, usei uma câmera nas costas. Eu chamo essa câmera de câmera-olho-dançarina ou também de câmera costal, me inspirando na teoria de Georges Bataille, no livro “História do Olho”.

pelas minhas costas jenny fonseca tovar

Dally – Fale um pouquinho mais sobre sua trajetória na dança e no movimento.

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Jenny – Os laboratórios de movimento que eu desenvolvi tiveram uma grande influência da minha história com a improvisação. Eu sou formada em cinema, mas paralelamente tive uma experiência muito intensa com a dança contemporânea. Como já falei, fiz muitas aulas com a companhia Danza Común, de Bogotá. Fiz aula com grandes mestres como David Zambrano, da Venezuela, Francesco Scavetta, da Itália, Dominik Borucki, da Alemanha, entre outros. Danza Común criou um projeto chamado Centro de Experimentação Coreográfica há uns 8 anos. Nesse projeto, participei de muitas oficinas focadas na improvisação. Nossas montagens não eram montagens fixas, apresentávamos improvisações cênicas que tinham um roteiro geral ou estrutura, mas que deixavam o corpo livre para criar no momento, junto aos outros corpos, ao espaço e às temporalidades que surgiam. Nesse ano, o movimento de improvisação cresceu muito em Bogotá e esse projeto estava no cerne disso. Até me arrisco dizer que na Colômbia o Danza Común foi o primeiro que acreditou na improvisação não só como um meio de criação, mas como produto criativo mesmo, a improvisação como ato cênico. Então, na hora de fazer meu laboratório de movimento, naquele em que estive sozinha durante um mês, fiz um exercício de memória corporal tentando lembrar todo aquele material que aprendi em Bogotá. Foi bonito tentar achar no meu corpo tudo aquilo que recebi há 8 anos, que estava um pouco adormecido, torto, preguiçoso, mas acabou emergindo. Faz mais ou menos 4 anos que não faço dança contemporânea, não porque não queira, mas por diversas circunstâncias da vida; mas faço dança afro e yoga. O corpo é o centro da minha pesquisa em imagem, o corpo é a matéria que gera o vídeo.

Dally – Você fez algum outro trabalho corporal durante esse tempo?

Jenny – Sim, dou aulas de yoga e fiz aulas de dança afro com Aline Valentim. Essas aulas com a Aline foram muito importantes nestes dois anos de mestrado que morei aqui no Rio, me fizeram reconectar com o corpo. Com ela, consegui entender a conexão do quadril e da escápula que não encontrei antes. Também foi um espaço para voltar ao meu corpo, que estava um pouquinho abandonado. Gerou em mim uma disciplina e uma rotina que não tinha há muitos anos, já que estava procurando um corpo que eu gosto de chamar como indisciplinado. Com Aline, organizei um corpo que, por muitos anos, esteve tentando entender a improvisação e ser um pouco rebelde com os modelos hegemônicos da dança ocidental. Mas, no final das contas, na atualidade, a dança afro é uma manifestação contra-hegemônica nas sociedades que se acham brancas; seja na Colômbia, no Rio ou em Bogotá, somos populações mestiças e com uma história comum de colonização e escravidão, um passado (e presente) afrofervescente que querem apagar.

Dally – Você já tinha feito aulas de dança afro na Colômbia?

Jenny – Sim. Na Colômbia, tinha feito aula de dança afro-contemporânea principalmente com o professor Jairo Cuero. Ele é de Tumaco, uma cidade costeira do sul do pacífico colombiano. Acho que, pelo momento político e social da Colômbia, a minha geração tem um grande interesse por reivindicar a cultura afro e indígena. O conflito armado interno colombiano tem gerado nas últimas décadas o deslocamento forçado de muitas populações para o interior do país em busca de proteção para suas vidas. Bogotá agora é uma cidade com uma presença afro em crescimento; para alguns de nós, inquietos com os movimentos sociais e culturais, isso é claramente o produto da violência paramilitar, guerrilheira e de estado; estes três atores do conflito armado vão ficando com as terras ancestrais das populações, e as grandes cidades são, infelizmente, suas novas casas. Por causa disso, a dança e a música vêm tendo um grande impacto, isto é, a música e a dança urbana estão se misturando com os sons que trazem as populações deslocadas forçadamente. Sons afrocolombianos se misturam com sons eletrônicos ou com jazz, as gaitas indígenas tocam junto a uma guitarra, movimentos da dança afro se misturam com dança contemporânea ou break dance. Claro que estes tipos de diálogos ou fusões não são novos, mas por causa do deslocamento maciço da população ameaçada ter se aprofundado. Acho que isso é o único ponto bom que a guerra colombiana trouxe: novos sons e novos movimentos surgindo, apesar das dores.

 

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally para ctrl+alt+dança.

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