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Maracatu Mirim: cultura afro em debate

maracatu mirim
Maracatu Mirim / foto: Vanessa Guimarães

Maracatu Mirim é o nome do projeto criado pela professora Vanessa Guimarães, que integra a grade de suas aulas na Escola Municipal Anisio Spinola Teixeira, em Duque de Caxias (RJ). O projeto surgiu do desejo de Vanessa de levar uma proposta que envolvesse o corpo, a curiosidade e a diversidade cultural brasileira para o cotidiano das crianças.

Em entrevista [*], a professora apontou diversos problemas que surgiram devido à ignorância, ao descaso com a educação, além de preconceitos em relação a manifestações culturais afrobrasileiras. A fim de ampliar o debate, convidamos a bailarina Ana Catão, idealizadora do projeto Tambor de Cumba e professora de dança afrobrasileira no Instituto Pretos Novos.

 

eixo do fora #12: “Maracatu Mirim” [**], por Dally Schwarz

“Um passo à frente e você não está no mesmo lugar”  – 

Chico Science

 

Dally Schwarz – Vanessa, conte como surgiu o trabalho.

Vanessa Guimarães – Dou aulas na Escola Municipal Anisio Spinola Teixeira, no município de Duque de Caxias, há 6 anos. Apesar do ensino de Educação Física constar como obrigatório na Lei de Diretrizes e Bases (LDB nº 9.394) desde 1996, até hoje não houve implementação efetiva em nenhuma das escolas da rede municipal de Duque de Caxias. Minha escola não possui quadra de esportes e não possui professor de Educação Física. Atividades de movimento, artes e dança, então, nem pensar. A Lei nº 9.394/96 dispõe para a Educação Básica que:

  • Art. 26. Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela (…)
  • §3º A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular obrigatório da educação básica.

Tal fato desperdiça a inteligência cinestésica de inúmeras crianças, que não têm onde desenvolver e estimular competências básicas do corpo. Há alguns anos, desenvolvo estudos corporais na Escola e Faculdade de Dança Angel Vianna, associados à experimentação de diversos tipos de dança-movimento, principalmente acrobacia, pole dance, dança afro, maracatu. Nesses anos de trabalho, de acordo com a idade e permissão da turma em que trabalhava, desenvolvi várias atividades de dança.

Dally – Como foi a recepção das crianças?

Vanessa – Nos últimos anos, tentei levar danças afro para a escola. A primeira tentativa foi com o jongo, em 2013, que foi rejeitado sob a acusação de ser “macumba”. O local onde trabalho tem uma influência marcada de igrejas evangélicas radicais. Então, prossegui trazendo cada vez mais a história africana para minhas aulas e, sobretudo, estimulando uma representação positiva do negro. Em paralelo, suscitei o debate sobre os estereótipos e preconceitos religiosos que carregamos. Desses debates nasceram perguntas: Por que não conheço uma das culturas que construíram meu país? Por que numa escola onde 90% das crianças são negras, não se fala, vive e pensa suas origens? Por que não conhecer a simbologia dos Orixás? Não é fácil. Uns rejeitam dançar. A comunidade, ao assistir os ensaios, critica. Até houve queixas à diretora da escola, questionando se as crianças iriam dançar “aquilo”, ou seja, o que pejorativamente chamam de macumba. As crianças receberam com a vontade de descoberta inerente a elas, contudo, sofreram pressão da comunidade, assim como eu.

Dally – Diante desse quadro, o que você acha que o maracatu pode trazer para elas?

Vanessa – O maracatu chegou pela via da admiração e da beleza. Minhas alunas viram fotos e vídeos meus dançando; faço parte dos grupos Tambores de Olokun e Maracutaia. E como elas sentem amor e admiração por mim, se convenceram de que aquilo não tinha nada de mal. Quem não se encanta ao ver aquelas saias enormes de flores coloridas girando? O maracatu traz contato com a identidade do povo brasileiro, com uma representação positiva da cultura negra: de beleza, energia, força interna e resistência de um povo. Esse trabalho com o maracatu começou em junho de 2015, é recente. A minha intenção é que o grupo possa sair da escola e se apresentar em outros espaços. Quero espalhar o orgulho de sermos o que somos.

Dally – Para você, como o trabalho do corpo pode ser um caminho para a educação?

Vanessa – A dança e o movimento são caminhos de experimentação da força de uma cultura, de um movimento político, de um sentimento fluindo energeticamente pelo seu próprio corpo. O que me interessa é oferecer a oportunidade dos meus alunos experienciarem sentidos, abrirem o campo de conhecimento e de percepção do mundo.

Dally – Como você percebe a relação entre as crianças e a dança?

Vanessa – Meus alunos não têm milhares de brinquedos tecnológicos. O corpo deles é instrumento de diversão e de descobrimento do mundo, mas de forma inconsciente. Eles brincam e correm pelas ruas. Muitos possuem um grau elevado de inteligência cinestésica que, sem desenvolvimento e estímulo, se perde. Eles dançam, cantam e têm ritmo. Eles não conheciam o maracatu, mas tudo é construído em grupo e, em muitos momentos, aprendo com eles; principalmente, no que diz respeito ao ritmo.

maracatu mirim
Maracatu Mirim / foto: Vanessa Guimarães

Diante dos fatos apontados por Vanessa, podemos citar inúmeras ocorrências de crimes de ódio racial ao longo de 2015. Dentre elas, o assassinato do ator, dançarino de maracatu, candomblecista e militante gay Adriano Pereira, e a violência sofrida por uma criança negra, de onze anos de idade, que foi gravemente agredida ao sair de um culto de candomblé no bairro da Vila da Penha.

Convidamos a professora e bailarina Ana Catão para falar um pouco sobre o contexto político-cultural atual:

 

Dally Schwarz – Ana, fale um pouco sobre o maracatu.

Ana Catão – Maracatu é uma manifestação afro-brasileira, típica do estado de Pernambuco, que envolve ritmo, dança e canto em forma de cortejo. Sua origem está ligada às congadas, rituais que recriam a coroação de reis e rainhas do Congo, que aconteciam em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no dia destinado a essa santa católica. Naquela época, meados do século XVIII, o estado escravocrata apoiou e estimulou a formação de irmandades nas quais os negros, escravos ou livres, poderiam ser controlados oficialmente. Essas irmandades acabaram virando lugares de resistência cultural, onde os negros puderam até mesmo cultuar seus ancestrais através do sincretismo com os santos católicos. O maracatu se dá em forma de desfile de uma corte real negra, que possui seus personagens, sendo os principais: a rainha, o rei e a dama do passo, que é a responsável por carregar a calunga, boneca que detém o axé e a força espiritual das nações de maracatu, e que também é símbolo de referência aos ancestrais. As catirinas têm a função de proteger a corte real e saem em bailado com suas saias de chita. O caboclo de lança tem a função de proteger a corte e representar o elemento indígena. Além deles, temos porta-estandarte, vassalo, membros da corte, baianas e tocadores. Na parte instrumental, temos alfaias, caixas ou taróis, ganzás e agogô. O maracatu foi perseguido, assim como boa parte das manifestações de matriz africana, durante muito tempo. Foi no final da década de 80 e início da década de 90 que o maracatu renasceu e ganhou visibilidade: através de Chico Science e do movimento Mangue Beat, que fundiu maracatu e música eletrônica.

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Dally – A ignorância e o preconceito afetam a educação e o autoconhecimento de maneira drástica. Como você percebe isso no contexto da cultura negra?

Ana – A ignorância e o preconceito com a cultura negra são frutos de uma história que começou lá atrás, quando os negros africanos foram arrancados de suas terras para servir de escravos, pelas mãos do homem branco europeu, e produzir em larga escala; quando lhes tiraram a humanidade e foram tratados como mercadoria, sem direito à vida, sem direito a nada. A violência contra o negro começa na própria África, onde foi caçado como animal; permanece durante a longa e exaustiva viagem, na qual mal se alimentava, sua vida não tinha valor algum; e continua na chegada ao Brasil, violência que ainda se dá nos morros e favelas das grandes cidades. O flagelo da escravidão continua vivo. Ele foi alimentado durante muito tempo e nos deixou como herança o preconceito racial, que está impregnado na cultura do povo brasileiro consciente ou inconscientemente. Nesse processo, o negro foi impedido de ter identidade, de exercer sua própria cultura. Primeiro, enquanto escravo sem direito a nada, depois pelo processo de embranquecimento pós-escravidão, quando a cultura do negro foi fortemente proibida e marginalizada. É o histórico que gerou todo esse preconceito. Costumo dizer que no Brasil somos educados desde crianças a sermos racistas, somos bombardeados de informações que criam estereótipos marginais a tudo que venha do povo preto. Nesse sentido, nossa função enquanto educadores é deseducar. Precisamos deseducar nossas crianças, jovens e adultos, e reeducá-los com uma nova visão de mundo, inserindo todo esse contexto, ensinando-os a respeitar uns aos outros, abordando todo esse histórico de sofrimento do povo negro e trabalhando através da história, do canto, da dança, o quão bonita é essa cultura e essas pessoas que foram subjugadas durante anos. A ignorância por falta de informação aliada ao preconceito é capaz das maiores falhas educacionais: formar pessoas egocêntricas, sem respeito pela diversidade e pelo outro; pessoas capazes de pregar o ódio e cometer atrocidades.

Dally – Você realiza trabalho com educação e dança afrobrasileiras. Em sua percepção, como a dança pode contribuir na construção e afirmação da identidade negra de crianças e jovens?

Ana – A dança tem um poder atrativo e afirmativo muito grande. Nosso corpo, nossos movimentos, são resultados de experiências vividas; construímos nossa identidade corporal ao longo do tempo. A dança, nesse sentido, é capaz de contar histórias através dos movimentos, de gerar autoestima, reduzir diferenças, integrar socialmente, construir identidades. Através da dança, em especial a afro, a criança e o jovem passam a se ver como parte daquilo, o que cria um sentimento de pertença e de identificação que naturalmente vai fazer com que a mesma busque cada vez mais informações sobre aquele meio. Eles aprendem a respeitar e amar por serem capazes de acreditar que aquilo também é deles, ou que aquilo são eles fazendo-se reconhecer enquanto negros.

Dally – Você é do candomblé. Como você acha que os preconceitos podem acabar nesse contexto político? O que é importante saber e falar sobre o candomblé no Brasil de hoje?

Ana – Os preconceitos religiosos só terão fim no Brasil quando a laicidade do Estado for, de fato, implementada. Nós, adeptos das religiões de matriz africana, ainda sofremos com a intolerância religiosa. Temos nossos terreiros queimados e fechados, nossa cultura é demonizada e nossos tambores são alvos de repressão, são constantemente calados. O preconceito religioso terá fim quando forem criadas políticas públicas para as demandas emergentes dos segmentos excluídos. Terá fim quando o ensino religioso for retirado da grade de disciplinas escolares, pois ele não aborda a religião do negro, nem sua visão de mundo, e interfere diretamente na educação das nossas crianças, induzindo-as a pensar as religiões de matriz africana como diabólicas, por influência cristã. A religião de matriz africana ainda sofre preconceito por conta de todos os ranços monárquicos existentes em nossa governabilidade, uma política racista que afeta diretamente os descendentes das tradições afrobrasileiras. A igreja católica teve um papel fundamental em toda essa discriminação racial que está impregnada na cultura brasileira de herança escravocrata; foi ela que demonizou nossas divindades lá atrás.

tambor de cumba
Tambor de Cumba / foto: divulgação

Dally – Levando-se em consideração todas essas questões, o que você acha que é importante ser debatido pelos profissionais da dança?

Ana – Incluir e valorizar mais as danças afrobrasileiras como um caminho não só de desenvolvimento corporal, mas também enquanto vetor de afirmação de identidade negra. Que os profissionais procurem conhecer, se informar e se despir de preconceitos em suas abordagens, principalmente no que tange à supervalorização das danças oriundas de culturas brancas em detrimento das de origem afro; que estas sejam tratadas com o mesmo olhar de importância, e com uma atenção especial, por conta de todo esse histórico interligado às questões étnico-raciais.

 

[*] O material que compõe esta postagem foi organizado em setembro deste ano.

[**] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally para ctrl+alt+dança.

 

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