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Caderno Chino: notas de Túlio Rosa no além-mar

Túlio Rosa Caderno Chino
Túlio Rosa / foto: divulgação

CADERNO CHINO: notas do além-mar sobre corpo, rebeldia e política

 

Apresentação

 

[1] Era uma tarde, como uma outra qualquer. Começava a fazer frio, mas Madri sempre oferece momentos de sol e esperança no meio do inverno. Eu adiava há vários dias a decisão de comprar um caderno; a pressão de ser como qualquer artista contemporâneo que se preze, habitando as aulas e os cafés com seu caderninho de notas inspiradoras, acabava por me impedir – o velho desejo de ser rebelde sem causa. No fim das contas não resisti, as imagens do filme do Wong Kar Wai que assisti no dia anterior e a memória das discussões sobre corpo e democracia começaram a se articular de forma intensa, e naquela tarde qualquer eu entrei no primeiro ‘mercado chino’ que vi aberto e comprei um caderno. Negro, folhas lisas. Vertical ou horizontal, segundo seu interesse. Batizei de caderno chino.

[2] Os “chinos” são os responsáveis pelos comércios locais em Madri, aqueles que sempre fecham mais tarde e têm tudo o que você pode precisar: de comida a roupa de cama, flores e cachecóis a produtos de limpeza. Me identifico com eles, os chinos. Somos estrangeiros, habitando circuitos restritos, deslocados por um objetivo específico. Mas, antes de continuar, é importante encarar o inevitável: esse tipo de denominação genérica acaba por resultar bastante problemática. Os “chinos” são provavelmente originários de diferentes países da Ásia e, ainda que sejam parte indissociável da cidade e da cultura madrileña – mesmo que muitos possam ter nascido aqui – seus corpos são continuamente marcados como estrangeiros, diferentes. Juntos, eles compõem um outro grupo de pessoas: que não passeiam na Gran Vía, não frequentam os bares de Malasaña ou Lavapiés, não dançam nos clubes da Chueca, e não acordam um pouco mais tarde aos domingos. Também não encontrei nenhum deles no Tinder, mas isso talvez já seja outra discussão. Apesar do risco de estar equivocado, sou capaz de encontrar também um outro tipo de potência que deriva dessa diferença anunciada.Tanto eles como eu, por mais mesclados que estejamos ao cotidiano de Madri, evocaremos sempre a experiencia de um outro lugar. Nossos corpos carregam a informação de um outro contexto, nosso espanhol é falho e nosso sotaque, engraçado. O preço que pagamos para viver na Europa é sempre mais alto. Nosso modo de habitar a cidade não é o mesmo, e o que nos diferencia é justamente a possibilidade de experimentar outros tipos de vínculo, inventar outras conexões entre a memória que carregamos e a realidade que nos cerca.

Leia mais:  [textos] Túlio Rosa e Luan Cassal propõem reflexões sobre participação, intimidade e performance em "Eu Vírgula Você e Eu"

[3] Caderno Chino é o nome de uma série de textos que se articulam a partir de notas de caderno, esboços e reflexões breves, que proponho desenvolver como parte da memória do Mestrado em Práticas Cênicas e Cultura Visual que venho cursando no Museu Reina Sofia. Uma prática de escrita que propõe, mais do que compartilhar experiências, investigar conexões e abrir possíveis espaços de diálogo. Um exercício de construção de uma memória open source que, ao se tornar pública a partir de um primeiro momento, se abre para ser atravessada, questionada e reinventada; que propõe um terreno comum, para facilitar o trânsito de informações entre um aqui e um acolá e, talvez, produzir agenciamentos, fricções, novos desdobramentos.

 

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