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Caderno Chino #1: o corpo rebelde e a memória

CADERNO CHINO #1: notas sobre o corpo rebelde e a memória

 

S. Nas paredes em frente ao hostel na Calle de la Cabeza estava escrito: a lei é o crime #semmordaças [1]. A primeira imagem inquietante em minha chegada a Madri, indícios de uma presença rebelde.

W. Onde está Wally? O que parece ser simplesmente um desafio para crianças, a espelho de muitos outros, talvez seja capaz de refletir uma certa lógica que atravessa nossa relação com a realidade que nos cerca. Wally é a identidade que importa, o indivíduo que destacamos da massa, uma imagem que, para ser retirada da invisibilidade, nos obriga a descartar tantas outras. Enquanto isso, seguem desaparecidos os Amarildos, identidades sem valor, cuja imagem vai sendo soterrada pouco a pouco em nossa memória. Enquanto os refugiados das guerras no oriente médio, as vítimas do desastre em Mariana e as mulheres sequestradas pelo Boko Haram na Nigéria seguem compondo essas massas indissociáveis de corpos que não importam, aqueles dos quais nos esquecemos facilmente, rezamos por Paris e buscamos no Instagram os nossos Wallys, as pessoas que achamos que realmente merecem a nossa mirada.

F. Nesse fluxo incessante de produção e consumo de novas imagens, sustentar uma imagem através do tempo pode configurar um outro tipo de rebeldia: uma recusa ao esquecimento. Qual é a dimensão política da memória?

I. Nos transformamos facilmente em números, títulos, dados: o que se faz vísivel através das listas de Ignasi Aballí [2]? 120 mortos, 79 desaparecidos, 188 famílias desabrigadas em Mariana, os Estados Unidos, Estados Unidos, Estados Unidos, França, França, França, Alemanha, Alemanha. Síria. Nigéria. 193 escolas foram ocupadas no estado de São Paulo em protesto contra a reforma do ensino no estado. É possível que os números sejam mais do que reduções simbólicas? Que abriguem outras possibilidades? A memória dos 43 estudantes desaparecidos em Ayoztinapa é um número vermelho erguido no centro de uma praça. Um monumento sem nomes e sem caras.

Da esquerda para a direita: “Mapa-Mundi” e “Listado (Muertos III)”, de Ignasi Aballí, e “Inserções em Circuitos Ideológicos”, de Cildo Meireles.

C. As Inserções em Circuitos Ideológicos, do Cildo Meireles, me fazem pensar numa rebeldia silenciosa e invisível, que opera através de rastros. Uma pergunta sem voz que se perde no fluxo das trocas, entre moedas e mercadorias, e que pode ser reativada e apagada enquanto passa de uma mão à outra. Por outro lado, se inscrevem como parte de uma memória: o nome do Amarildo, desaparecido em 2013, impresso em uma cédula de dois reais, não se apaga enquanto a moeda seja corrente. Quem matou Vladmir Herzog? resgata continuamente, no edifício do Museu Reina Sofia, a memória dos que foram torturados e assassinados pelo regime militar do Brasil, ao lado de uma garrafa de coca-cola que ensina passo a passo como fazer um cocktail molotov – um tutorial vintage, diretamente dos tempos em que não havia youtube. Em contextos cada vez mais ásperos à manifestação das diferenças, entre mordaças e milícias religiosas, a estratégia de Cildo Meireles dá pistas para pensar em ações que escapam da noção de performance para recorrer a performatividade dos rastros. Os pichadores de São Paulo, Banksy, os indignados que já não podem ocupar Puerta del Sol. Formas de rebeldia sem cara, corpos que já não são apenas carne e que operam através de vestígios, se expandem pelos cabos de fibra ótica, se multiplicam em transferências de dados. Corpos que produzem outras narrativas, histórias sem autor, que são contadas e recontadas aqui e acolá.

P. É possível, nesses tempos em que a vigilância e o controle operam silenciosamente sobre o mais íntimo da vida, ser rebelde?

L. Alguns dias depois da tragédia ambiental em Mariana, eu recebi um áudio via whatsapp de uma mulher chamada Luciene Lemos. Ela denunciava, dentre outras coisas, que caminhões que foram usados para transportar querosene estavam sendo usados para levar água para a população da região, e pedia que se formasse uma corrente que pudesse fazer circular informações sobre o que realmente estava acontecendo em Minas Gerais. Uma ação que se estende para além dos limites e possibilidades de um único corpo. A rebeldia de Luciene se faz dependente de uma ação em cadeia, é reativada em cada compartilhamento, se atualiza e ganha força através de uma rede. Não há diferença entre a sua indignação e a daqueles que configuram essa cadeia. A resistência da multidão, dizia Pelbart [3], já não é única e tampouco uniforme, opera através de uma explosão de comportamentos impossível de conter. Quais são os modos de operar que esse tipo de rebeldia revela?

E. Desde o dia 1º de julho de 2015 passou a vigorar na Espanha a nova lei de seguridade cidadã – apelidada de “lei mordaça” – que, dentre uma série de proibições e resoluções polêmicas, transfere aos corpos de segurança do estado a decisão sobre o que é ou não uma ação ilegal, e autoriza os policiais a sancionar no ato da infração multas de até 600.000 euros [4]. Se os corpos de outrora podiam questionar livremente a administração pública, isso agora começa a não ser mais possível. Uma transferência de poderes que, embora não esteja prevista na legislação, pode ser facilmente observada na atuação da polícia militar em diversas cidades do Brasil. Justificada pelo discurso de proteção aos bens públicos, a guerra ao vandalismo que vem sendo impulsionada pelos discursos da grande mídia opera de forma semelhante à guerra às drogas e à guerra ao terrorismo, numa suspensão dos direitos individuais e coletivos frente à proteção contra um inimigo que jamais é claramente definido. Nas manifestações de São Paulo, as bombas de gás e os tiros com balas de borracha não fazem nenhuma distinção: somos todos culpados, e muitas vezes não há tempo para que se prove o contrário. Outros mecanismos de sanção, que nas periferias chegam a custar a própria vida.

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R. Nossas democracias relativas, marcadas pela constante ausência de escuta das instituições públicas em relação às demandas populares, revelam a cada novo protesto que não apenas o modelo de representação política, mas também os próprios mecanismos de reinvindicação popular falharam. Um fato que começa a exigir também que assumamos outras posturas. Agamben sugere que apenas as singularidades quaisquer, aquelas que não recorrem a uma identidade – ou não possuem uma característica prévia capaz de torná-las representáveis – são capazes de configurar um não-Estado e, por esse motivo, as únicas capazes de produzir brechas no sistema (de representações) que configura o Estado. Posicionamentos oblíquos, ações difusas, singularidades sem identidade. Quais são as estratégias que poderiam nos ajudar a escapar da lógica de enfrentamento direto que tem atravessado as nossas lutas políticas?

“A Batalha de Orgreave”, de Jeremy Deller

O. Pensar sobre a produção em dança em relação a um contexto político nos leva, em primeiro lugar, ao desafio de encontrar estratégias para nos aproximar desse universo de questões. Em “A Batalha de Orgreave” [5], Jeremy Deller reconstruiu em 2001 um conflito entre mineiros e policiais ocorrido em 1984; um projeto artístico que não só propõe outras formas de relação com a memória, mas que arrisca também outros modos de questionar o presente. A teatralidade contida nesse tipo de reconstrução histórica nos permite operar dentro de um outro sistema de regras. Ao se converter em obra, a reconstrução desse momento da luta dos mineradores ganha outros sentidos: ela já não é mais uma ação de protesto contra as ações de um governo, e tampouco conserva os mesmos objetivos. Deixa de ser eficiente, portanto, como instrumento para um câmbio político. No entanto, se seguimos a pista de Agamben, é justamente nesse deslocamento de sua função original, na sua ineficiência, que reside a potência que pode deslocar também o nosso olhar, e deixar que outras questões venham à tona. É possível considerar a reconstrução de acontecimentos históricos como uma estratégia de rebeldia política que opera fora do sistema de representação que configura o Estado? Quais são as performatividades que, ao serem resgatadas, podem cobrar sentido no momento presente? Se um dos possíveis interesses da dança é refletir sobre o movimento dos corpos, que articulações possíveis se poderiam gestar entre a memória, a dança e os movimentos de protesto que têm marcado o país nos últimos anos?

T. A violência e a repressão operam sobre os corpos. Os corpos são a matéria da dança. Um homem morreu assassinado em uma praia em Santa Catarina. Por duas horas seu corpo esperou na areia. Nem luto, nem deserto, depois do susto parece que os veranistas seguiram o seu dia de praia. Decidiram esquecer que o corpo de Jadson estava ali. Decidiram não olhar. O desafio é não fechar os olhos, não virar o rosto, não esquecer, e não deixar que se apague.

 

[*] Este texto integra a série Caderno Chino, de Túlio Rosa, publicada com exclusividade em ctrl+alt+dança.

 

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[1] “La ley es el crímen #sinmordazas”, em tradução livre.

[2] Referência a “sem princípio/sem final”, exposição que esteve em cartaz no Museu Reina Sofia, em Madri, até 27/mar/2016. Ver: www.museoreinasofia.es/exposiciones/ignasi-aballi.

[3] Peter Pál Pelbart no texto “Mutações contemporâneas”. Disponível em: www.revistacinetica.com.br/cep/peter_pal.htm.

[4] Sobre a lei mordaça, duas leituras (em espanhol): a) https://es.wikipedia.org/wiki/Ley_Org%C3%A1nica_de_protecci%C3%B3n_de_la_seguridad_ciudadana; b) http://magnet.xataka.com/preguntas-no-tan-frecuentes/que-es-y-como-te-podria-afectar-la-ley-mordaza.

[5] Material disponível em: http://ubu.com/film/deller_orgreave.html.

 

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