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eixo do fora #13: #cotassim

O que ainda precisamos falar quando pensamos sobre dança, políticas e editais?

 

eixo do fora #13: #cotassim [*], por Dally Schwarz

No final do ano passado, no Facebook pipocaram alguns compartilhamentos de uma nota de repúdio contra um blackface que ilustrava a capa da revista paulistana MURRO EM PONTA DE FACA (edição nº 7, publicada em jul/2013). A revista é fruto do projeto Artista da Fome, contemplado através do Programa de Fomento à Dança da Cidade de São Paulo e produzido por algumas/alguns membros da Cooperativa Paulista de Dança.

Edição nº 7 da revista MURRO EM PONTA DE FACA

A piada racista – a capa da edição apresentava o coreógrafo Sandro Borelli vestido de bailarina, fazendo uso de blackface – era fruto de uma edição dirigida à indignação com um edital público para criador@s negr@s. Segundo a visão (equivocada) da revista, no Brasil não seria possível diferenciar quem é ou não é negr@, e um edital que recebesse apenas inscrições de projetos de produtor@s e criador@s negr@s se tornaria um gesto excludente para as outras pessoas.

A publicação contém uma série de discursos confusos, que atrapalham muito a compreensão da importância das políticas afirmativas no Brasil. Ainda hoje, em 2016, existem pensamentos extremamente despreocupados com suas pequenas-grandes-violências, que se dão em formato de “opinião” ou “achismos”. Há uma despreocupação no que se refere a se informar e estudar sobre as histórias da formação brasileira relacionada à cultura negra; uma não-convivência evidente, que reafirma tais pensamentos. São os frequentes argumentos da mestiçagem que embranquecem a discussão, atrapalhando as movimentações e vitórias das “negras e negros em movimento” (citando Mandela) [1]. Além do posicionamento racista, debochado e violento da revista citada, podemos mencionar piadas sobre um dos ícones da militância negra, Zumbi dos Palmares [2].

Se fizermos um rápido retrospecto com o objetivo de perceber a contribuição da cultura negra na dança – pensando somente nos anos 2000 – encontraremos artistas, linguagens e estéticas de grande relevância, que viram febre, tais como twerk, Beyoncé, passinho e hip hop. Isso se não mencionarmos o maracatu, o afoxé e outras danças chamadas de “populares”, que fazem contribuições à cultura brasileira há anos.

Artistas, dançarin@s e produtor@s devem se alertar sobre suas associações, pois muito sutilmente podemos acabar reafirmando pensamentos racistas que estão completamente introjetados na sociedade brasileira, em nós mesm@s.

Sendo assim, frente a todas as transformações políticas que estão acontecendo em 2016 no cenário das artes do corpo, da dança, é preciso ouvir sobre a questão das cotas, dos editais para criador@s e produtor@s negr@s, pensar formação, circulação e acessos, se envolver sabendo o seu lugar para depois emitir uma opinião. Trago como sugestão o exercício de escuta de uma entrevista feita por Bruna Brandão, Catarina Dias, Daniella Sousa,Graziella Coutinho, Karyne Alexa e Nathalia Araujo com as integrantes do coletivo de dança Afrofunk Rio (as entrevistadas são Taisa Machado, Renata Batista e Sabrina Ginga):

Gessica Justino / foto: Dally Schwarz

A convite do Eixo do Fora, a artista Gessica Justino [3] (ver foto acima) fala sobre a importância de se compreender a necessidade da política de cotas, dos editais específicos para produtor@s e artistas negr@s:

 

Não adianta só se misturar, tem que se conectar, por Gessica Justino

O ponto de partida para a reflexão sobre a situação da dança na sociedade em que vivemos é a observação. Nesse caminho, é passível questionar-se sobre por que, na dança, o corpo negro não ocupa os mesmos lugares que outros corpos ocupam. Por que não há um equilíbrio nas oportunidades?

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Tais questões nos levam a pensar sobre a inserção social d@ negr@ – desde sua chegada ao Brasil em posição de desvantagem. Negr@s sobreviveram em condições subumanas e, quando foi dado o grito de “libertação”, na verdade acontecia um engodo: a abolição se fez traduzir por abandono.

Que assistência social foi dada para que el@s retomassem sua dignidade? Que planejamento houve na direção de uma inserção social del@s, de suas/seus remanescentes?

Infelizmente, não houve. A estratégia de abandono social se mantém efetiva até hoje. Ao voltar à observação cotidiana, conseguimos compreender que a construção do Brasil se deu sobre alicerces racistas, nos quais as problemáticas sociais e políticas assumem um caráter piramidal: a base é um híbrido social/racial.

O sistema de cotas – atualmente, a principal iniciativa de reparo social, implementada em faculdades de arte, editais e concursos públicos – contribui para o aumento efetivo de artistas, criador@s e produtor@s negr@s na dança. No entanto, ainda me questiono sobre o que faz com que nomes como o de Mercedes Baptista não tenham a mesma representatividade que outros – ela que, em sua época, foi a melhor bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Certamente, sua capacidade técnica e seu profissionalismo são inquestionáveis.

O que faz o corpo negro ser destinado somente às danças populares, urbanas e/ou religiosas? Seriam as esferas dos limites sociais ditados pelo mercado?

No Brasil, 54% da população que consome e paga impostos é declaradamente negra. É consumidora, mas carece de representatividade positiva que desmistifique o caráter marginal. Obviamente, há milhares de grupos e companhias de dança com representantes negr@s, mas o problema está na condição precária e desfavorecedora em que ess@s ainda se encontram.

A dança, que luta por legitimação no mercado das artes, precisa entender que se ramificar e organizar em grupos – e desclassificar outros, para serem postos em subgrupos – é dividir algo que adquire muito mais poder quando unificado. Trata-se de compreender que o fortalecimento se dá através das diferenças de suas/seus praticantes e, principalmente, de que não há avanço na diluição. É necessário que a dança observe seu lugar e assuma sua responsabilidade social, sem preterir corpos.

 

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[*] O título deste texto faz referência a uma hashtag do portal Geledés, que traz informações básicas sobre as cotas. Ver: http://www.geledes.org.br/guia-pratico-das-cotas/.

[1] Diante de afirmações de pessoas brancas que não se consideram nem se percebem como brancas, indico a leitura de uma entrevista bem interessante que trata sobre a branquitude: http://agencia.fapesp.br/racismo_e_branquitude_na_sociedade_brasileira/20628/.

[2] Para pensar sobre a importância dos ícones culturais, sugiro a leitura de “Boxe, o braço negro e o golpe no racismo”, de Pedro Borges, publicado no portal Geledés em 26/jan/2016.

[3] Gessica Justino é dançarina graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua como produtora no Coletivo Obá, e como educadora no Projeto Afrobetizar.

 

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally Schwarz para ctrl+alt+dança.

 

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