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Pilates para gestantes: no pré e no pós-parto

Fábio Honório e a bailarina-fisioterapeuta Valéria Mauriz / foto: divulgação

Maio chegou e o Dia das Mães já se aproxima, por isso vamos falar aqui sobre um assunto que deve interessar principalmente às mulheres, futuras mamães, e também àquelas que acabaram de dar à luz um bebê. Mas não só a elas! Os homens, futuros ou atuais papais, as/os profissionais da área de saúde, e ainda as/os instrutor@s de pilates também podem e devem se interessar, já que o tema não se encerra em si mesmo – ao contrário, ele se amplia na medida em que permite desdobramentos que podem aprofundar nossa compreensão acerca do universo feminino e da maternidade.

Portanto, o nosso papo hoje é sobre pilates para gestantes ou “recém-mães”, e convidamos uma especialista para dar todas as dicas e informações que você precisa saber sobre o assunto: Valéria Mauriz (ver foto acima) é bailarina, fisioterapeuta, coordenadora do Espaço Pilates em Laranjeiras (no Rio de Janeiro) e autora do livro Pilates na Gestação – Redescobrindo Seu Corpo no Pré e no Pós-Parto. Ela nos colocará a par dos benefícios e contribuições que o método pilates pode oferecer à gestante neste período tão especial e de grande transformação – quando seu corpo precisa se adaptar a uma nova realidade, preparando-se para gerar outra vida.

Ficou interessad@? Então, confira a entrevista a seguir:

 

Fábio Honório: No livro Pilates na Gestação – Redescobrindo Seu Corpo no Pré e no Pós-Parto, você investe no universo feminino e maternal, abordando questões não só sobre o processo de gestação e o método pilates, mas também sobre consciência corporal, sexualidade e outros assuntos. Era a sua intenção desde o início ampliar os horizontes relacionados ao pilates enquanto tema?

Valéria Mauriz: Sim, logo no inicio, eu e minha editora discutimos para qual público o livro seria destinado e eu não queria que virasse um manual de exercícios para gestantes ou para instrutores, e sim um veículo de informação. Toda mulher passa por ciclos, e um deles é a maternidade, então isso já faz parte do inconsciente coletivo feminino. Mesmo no processo de decisão de se tornar mãe, muitas mulheres começam a buscar informação e o livro vem ao encontro disso.

Pilates na Gestação – Redescobrindo Seu Corpo no Pré e no Pós-Parto / fonte: espacopilates.com.br

Fábio: Podemos dizer que o pilates para gestantes seria uma adaptação contemporânea do método original criado por Joseph Pilates?

Valéria: Bom, na realidade, tem uma entrevista da década de 1950 da Dance Magazine – intitulada “Everybody Goes To Joe’s” – dizendo que muitas bailarinas se recuperavam do pós-parto praticando Contrologia com Joseph Pilates. Nessa entrevista, não é comentado que Pilates trabalhava com elas durante a gestação, então eu não possuo nada concreto que no método original havia um trabalho com gestantes, mas sim, volto a afirmar, no pós-parto. Quando trabalhamos o método pilates com um grupo especial, nesse caso, a gestante, adaptamos o método para que ele se adeque àquele corpo em transformação. Então, modificamos a estrutura clássica criada por Joseph Pilates numa reeleitura atual para esse grupo.

Fábio: O que torna o pilates interessante para mulheres em gestação e no período pós-gestação? Quais os benefícios do método para elas?

Valéria: O método pilates é interessante para a gestante porque toda a estrutura lombo-pélvica está alterada durante a gestação. O método trabalha justamente com a musculatura estabilizadora desse segmento no conceito de power house. O power house é formado pelo diafragma torácico, diafragma pélvico e paredes abdominais. Numa gestação, conforme vai ocorrendo o crescimento uterino, a musculatura que compõe o power house vai se alternando, ficando mais distendida para dar espaço para esse crescimento. Não podemos alterar isso, mas se essa musculatura “cede” sem ter um trabalho que lhe propicie um mínimo de tônus, o que vai acontecer? Desestabilizar a coluna lombar e sobrecarregar ligamentos e estruturas ósseas. Conforme a gravidez vai avançando e a barriga vai ficando mais distendida, isso vai ocasionar dor. Estudos comprovam que 80% das gestantes reclamam de dor no terceiro trimestre por conta disso. Gestantes que praticam pilates têm essa musculatura com mais tônus e sentem menos esses desconfortos no final da gestação. Já no período do pós-parto, vamos ter a mesma situação: o segmento lombo-pélvico sem tônus, com o potencial de contração muscular diminuído. O método pilates vai estimular a recuperação dessa musculatura, auxiliando o retorno das estruturas, não só musculares mas também do retorno do posicionamento dos orgãos pélvicos.

Fábio: Quais as principais necessidades da gestante no pré e no pós-parto em termos de trabalho físico? Como o método as supre?

Valéria: A atividade física vem sendo recomendada pela OMS [Organização Mundial de Saúde] e pelo Ministério da Saúde. Isso porque a atividade física traz muitos benefícios para a gestante e diminui os riscos de algumas doenças como a diabetes gestacional. As necessidades para uma gestante são: fortalecer as estruturas sobrecarregadas; ajudar numa melhor distribuição de forças; equilíbrio; trabalho da marcha; organização da cintura escapular; dar mobilidade à cintura pélvica. No pós-parto: auxiliar o retorno das estruturas; organizar cintura escapular; fortalecer a região abdominal; estabilizar o tronco; educar as posturas do dia-a-dia, tais como dar banho no bebê, amamentar, segurar sacolas, etc; recuperar o centro de gravidade; e estabelecer auto-estima.

Fábio: Haverá diferença no trabalho com o método pilates de acordo com o parto pretendido pela gestante (cesárea, normal, natural, humanizado)?

Valéria: Sim, haverá uma diferença no trabalho se a gestante escolher um parto cesárea ou o parto natural. Primeiramente, é bom deixar claro que não se escolhe a via de parto, ela acontece. Falo isso porque sou doula e acompanho mulheres durante o trabalho de parto. Muitas vezes, elas têm muito desejo por um parto humanizado, que acaba se tornando uma cirurgia, necessária para o bem estar da mãe e do bebê. Isso pode gerar muita frustração num momento que é de júbilo, já que uma nova vida nasceu. Tem aquelas mulheres que já optam por uma cesárea desde o início da gestação por motivos de saúde – essa cesárea é indicada e tem um porquê. Quando já sabemos que a indicação da via de parto é a cirurgia, não trabalhamos o relaxamento do assoalho pélvico e a fase de expulsão a partir da 36a. semana de gestação porque não será necessário. Damos mais ênfase à ativação do transverso abdominal para minimizar o risco de diástase abdominal no pós-parto. Se a intenção for de um parto vaginal, daremos ênfase ao trabalho de relaxamento e prática de expulsão a partir da 36a. semana de gestação.

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Fábio: O período indicado para a gestante iniciar as aulas de pilates é após o terceiro mês de gestação, certo? Ela pode fazer aulas até a semana do parto se estiver se sentindo bem ou tem um momento mais apropriado para parar?

Valéria: Inicialmente, o período indicado para iniciar o pilates é após o terceiro mês de gestação. Mais por prevenção, já que o feto não está completamente implantado e os riscos de perda são maiores nesse primeiro trimestre. Já tive alunas que praticavam pilates antes da gestação e os médicos pediram para continuar a prática, não interrompendo as atividades físicas no primeiro trimestre. Com respeito ao momento de parar a prática de pilates, vai depender de como a gestante está se sentindo, pois no terceiro trimestre a barriga está bem grande, a respiração fica difícil e a mulher se sente bem cansada. O corpo quer guardar energia para o trabalho de parto e para os primeiros dias de pós-parto, nos quais a demanda fica muito grande com a amamentação, as noites sendo trocadas pelos dias. Então, a própria mulher quer descansar mais. Porém, já tive alunas que, mesmo nos últimos momentos da gestação, cansadas e pesadas, se sentem melhor depois da aula de pilates.

Fábio: É possível, para a mulher que planeja engravidar num futuro próximo, já se pensar num trabalho prévio durante as aulas, mais direcionado?

Valéria: Sim, seria ideal já trabalhar algumas estruturas antes da gestação, com a ideia de que a mulher está pretendendo engravidar.

Fábio: Você também é bailarina e uma apaixonada pela dança. Provavelmente, já trabalhou com gestantes que são bailarinas. O trabalho com uma bailarina grávida ou recém-mãe se diferencia em algum aspecto?

Valéria: Para uma gestante que é bailarina, o que diferencia o trabalho é se ela vai estar em cena grávida. Nesse caso, eu vou verificar como é a coreografia, quais são as exigências, para fazer uma prática de pilates mais direcionada. Vai acontecer o mesmo para uma recém-mãe: se ela precisa voltar ao palco, eu vou analisar quais estruturas serão mais exigidas e estabelecer uma sequência de aula a partir disso.

Fábio: Para quais gestantes não é indicado fazer pilates? Existem restrições?

Valéria: Sim, existem restrições para a prática de pilates na gestação para: doença miocárdica descompensada, insuficiência cardíaca congestiva, tromboflebite, suspeita de estresse fetal, sangramento uterino e risco de parto prematuro.

Fábio: Eu já tive aluna gestante muito preocupada com a volta à boa forma após o parto. É muito comum esta ansiedade? O que você diria para essas mulheres?

Valéria: É muito comum essa ansiedade, até porque vivemos numa sociedade que valoriza muito a estética. A grande questão é que o corpo tem seu tempo e o retorno das estruturas é lento. Sempre falo para minhas alunas que o corpo levou 9 meses se modificando e, portanto, elas deveriam esperar, no mínimo, 9 meses para seu retorno. A amamentação consome muita energia. Eu já tive alunas que estavam chateadas com o próprio corpo nos primeiros meses do pós-parto e que, no prazo de um ano, estavam mais magras do que antes da gestação, por conta da amamentação. Então, é ter paciência e não se deixar levar pelas revistas, que mostram celebridades que vivem da imagem e que postam fotos no pós-parto com a barriga chapada. Isso não é a realidade.

Fábio: Tenho observado que os homens, futuros pais, têm se comprometido e acompanhado suas parceiras grávidas de perto neste período tão especial – para o casal e, principalmente, para a gestante. Atualmente, isso já é uma realidade?

Valéria: Trabalho como doula e acompanho o casal durante a gestação e na sala de parto. Tenho visto o comprometimento dos futuros pais e isso tem sido bem bonito. Os padrões estão mudando e os pais querem participar mais do nascimento e criação de seus filhos. Vejo também homens apoiando a decisão de suas mulheres de tentar um parto o mais humanizado possível, pensando junto com elas como serão as primeiras horas do bebê. Enfim, presentes e não apenas homens “provedores”.

Fábio: Seu livro é de 2013. Você já aprofundou a pesquisa em algum aspecto? Houve algo que ficou de fora que você incluiria numa nova edição?

Valéria: Tenho me aprofundado muito na Fisioterapia Pélvica, e hoje tenho uma visão maior sobre todo o trabalho de assoalho pélvico. Fora isso, na época em que escrevi o livro, ainda não trabalhava como doula, nem em sala de parto, e isso enriqueceu muito a minha visão desse universo. Então, me sinto com muito mais experiência, vivência, do que na época em que escrevi o livro.

 

 

 

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